
Italo Calvino, vocês sabem, foi um dos grandes prosadores italianos do século 20. Ensaísta, romancista e contista, era um mestre e um inventor na escrita breve. Na perspectiva ficcional, passeou do neorealismo nos anos 50 ao realismo fantástico nos 70. Sua influência sobre o pensamento contemporâneo é cada vez mais extensa. Por sua larga e multifacetada produção, só teve como páreo Umberto Eco. Sua turma era formada pela nata do neorealismo italiano: Cesare Pavese, Natalia Ginzburg, Elio Vittorini, Dino Buzzati. No Oulipo, esteve ao lado de Raymond Queneau e Georges Perec. Foi um dos primeiros entusiastas do boom latino-americano, em especial Jorge Luis Borges..
Um de seus livros perfeitos é Os Amores Difíceis, publicado em fins dos anos 50, escrito quando Calvino tinha 30 e poucos, ainda era filiado ao Partido Comunista e tirava um troco escrevendo pra jornais. Tem um notável senso de organização temática: todos os contos são “aventuras” (de um soldado, de um fotógrafo, de um míope, de um esposo e de uma esposa, de um motorista, de uma banhista etc), e todos abordam relacionamentos amorosos. No entanto, o relacionamento em si não é o foco temporal – e sim algo antes, algo depois, algo além.
Portanto, as aventuras se dão mais no âmbito interior, na descrição das curvas emocionais, do que exatamente nas narrativas – as histórias são quase sempre prosaicas: uma mulher que perde a calcinha em pleno mar; um soldado que viaja de trem ao lado de uma viúva, morrendo de tesão; um fotógrafo obcecado por enquadrar sua musa; um casal separado por turnos de trabalho diferentes; um homem que viaja a noite toda para encontrar a namorada; um funcionário sem graça que teve a sorte de transar com uma mulher extraordinária etc.
A esperteza de Calvino foi a de olhar para os tempos mortos – aqueles instantes em que, aparentemente, nada está acontecendo. Nesse sentido ele se aproxima tanto de Tchecov (de quem foi grande leitor) quanto de Katharine Mansfield (em especial na noção de epifania). A compaixão pelos personagens deve algo a Hemingway e Fitzgerald. São todos textos realistas, com sutil percepção para os comportamentos típicos de seu tempo.
Dois ingredientes marcam todas as histórias. O cerebralismo, responsável pelo rígido senso de proporção entre as ações, como se nota nas simetrias de personagens, diálogos e motivos, e o apelo ao lúdico, aos truques combinatórios, à percepção de que as narrativas não passam de um grande jogo. E o senso de humor, aliado de uma elegância quase transparente. Calvino nunca é solene, nem irresponsável – ele transpira amor por seus personagens, mesmo os mais horríveis. Ele leva a sério esse negócio de não se levar a sério.
Vejamos esta pequena obra-prima.
O personagem do notívago capta com agudeza o momento vivido por Stefania: “aquela hora que divide os ainda dos já”. A hora do lusco–fusco, em que as coisas são indiferenciadas por conta da luz – que ou ainda não desapareceu, ou ainda não despontou. Stefania vive seu momento de liberdade porque está como que suspensa entre dois mundos: o do adultério e o do matrimônio. Sente-se à vontade nessa zona cinzenta, ao mesmo tempo que demonstra ansiedade, e estes sentimentos ambivalentes criam a tensão do conto. Ela ainda não despertou para uma nova consciência de si – mas já não é a mais a mesma.
PROPOSTA
E é isto o que você vai fazer. Vai pegar o seu personagem bem no meio de uma iluminação. Entre o ainda e o já.
Foco narrativo: discurso indireto livre (terceira pessoa que pensa que é a primeira).
Você pode basear a história em uma experiência sua, mas a personagem não pode ser você.
Tempo:
- antes de anoitecer ou madrugada
- outono/primavera ou verão/outono
- momentos anteriores a um encontro
- um dia antes do pagamento
- entre o sono e a vigília (ou vice-versa)
- antes de um novo ano
- antes de voltar para casa, numa viagem
Espaço:
- rua deserta
- estacionamento
- aeroporto
- estação (trem ou metrô)
- barco ou navio
- meio do mato ou do deserto
- outro planeta
Personagem:
- mendiga
- policial
- cabeleireira
- designer de sobrancelha
- tatuador
- entregador de comida
- juiz (pode ser de futebol)
- chef ou cozinheiro
- ator ou atriz
- garimpeiro
- ou qualquer profissão que não seja a sua
Em até 8 mil toques.









