Quando você não está comigo
Helô Mello
Alguma coisa está acontecendo. Me vejo perdido. A paisagem é familiar, mas não sei onde estou e nem como vim parar aqui.
As arvores são enormes e a grama pinica. Vou ficar todo coçando. Um dia esse lugar deve ter sido um jardim, agora está abandonado. Estou com medo. Pior, apavorado. Mas, calma, sei que vai passar. Não é noite e sombras longas crescem em minha direção. Me lembram monstros, estranhos, de orelhas pontudas e focinhos compridos. Evito pensar e caminho com cautela.
Avisto o chorão. Algo me atrai. Luto contra as minhas pernas que teimam em ir em outra direção. Me aproximo da gruta formada por suas folhas caídas. Lá no fundo está minha avó. Agora vejo melhor, através de uma luz fraca, amarela, mas sem dúvida é ela, na sua cadeira de balanço. Tento chegar mais perto. Estico o braço. Vó, que saudades! Ela parece feliz de me ver, depois de tantos anos. Uma queda d’água nos separa e não consigo atravessar. Seu balanço se torna mais rápido e ela desaparece. Que pena. Faz tanto tempo que não nos vemos. Sinto sua falta até hoje, vó.
Começo a escalar as montanhas, está muito quente. Sigo na trilha das Bromélias. Gostava de fazer esse percurso com Camila, quando moramos juntos em Gonçalves. Fomos felizes por um tempo, antes do seu namorado resolver voltar para reencontrá-la. Ela anda ligeira, seus cabelos escapam da presilha assim como ela escapou de mim. Tento ir mais rápido, na sua direção. Ela gosta de azul, mas hoje tudo é preto e branco. Ela me chama, cada vez mais a frente. Carrego a nossa geleia preferida na mochila, que comprei na lojinha do centro, Nossa Senhora das Especiarias. O peso me faz andar em câmera lenta e Camila desaparece na curva. Some uma perna, sua cabeça e por último, a bainha do seu vestido. Só escuto sua voz ao longe.
O dia está fora de foco. As cores parecem tingidas pelo violeta-sépia das frutas da jabuticabeira, esmagadas no chão. Olho pela janela e ela está florida. Nato se esconde. Por quê? Acho que ele não me viu. Quero convidá-lo para catar pedras para a minha coleção. Ele não me responde. Nato gostava de me acompanhar no jardim quando era pequeno. Enchia os bolsos de folhas, galhos e outros tesouros que descobríamos juntos. Ele trabalhava na casa da minha avó, segundo ele, por uma vida, e dizia que lá cultivava sua paixão. Devia ser as plantas. Me sinto tão só. A boca está seca.
São tantas caixas empilhadas, tantos destinos abandonados, aguardando outras histórias. Nunca sei bem quando pode acontecer, pode durar um minuto ou um dia todo, não tenho controle. Quando visito as fotografias, penetro tempos que nunca vivi e escuto seus temores. O mundo segue dentro e fora. Conheço os personagens, invento seus nomes e escuto seus segredos, escondidos nas páginas amareladas, que separam as fotos coladas. Tráfego de um álbum a outro, demoro para saber onde estou, já que não há controle. Será que são as imagens que ditam a nossa história?
As fotografias estão coladas. Minha avó voltou para sua cadeira de balanço, mas não se move mais. Está grudada. As bordas estão carcomidas. Um cheiro de mofo no ar. Tanta sede. Escuto a voz de Camila e não consigo responder. Espio o jardim. A grama está mais curta e os monstros, conhecidos dos meus pesadelos da infância, partiram. Sobrou a mesa da sala de jantar, a toalha branca de renda e o vaso de flores vazio. Que pena, está cheio de fungos. Me escondia embaixo das almofadas do sofá e ficava invisível. Mas elas desmoronaram. Agora Paula, amiga da Camila, se juntou e gritam em coro. Estão me arrastam para uma poltrona. Tudo bem. Melhor do que ficar caído no chão. Senti tanto a sua falta, Camila. Que bom que está aqui. Agora você fica só comigo? Não vamos mais brigar, ninguém irá atrapalhar nossa relação. Sinto que estou voltando, não quero mais viver aqui. Quero ficar só com você. Meu corpo se descola das páginas, e a água que chega na minha boca pelas mãos de Camila, me recobra os sentidos. Camila e Paula me conduzem a realidade. Ainda não consigo falar, Camila, mas você deve saber: quando estamos juntos, não tenho medo e não surto no mundo das imagens órfãs.
