Ankh

Ian Perlungieri

Estava para anoitecer quando Júnior saiu do apartamento de sua mãe.

– Dá tchau pro Set.

– Tchau, Set. – falou Júnior em um sorriso constrangedor. O cachorro retribuiu a saudação com um abanar de rabo e uma cabeçada em sua mão, obrigando Júnior a acariciar o seu crânio. Foi um carinho hesitante, mas, ainda assim, um carinho.

– Já volto, tá? – disse Maria Carvalho saindo do apartamento e fazendo para Set um gesto com a mão, como se lhe pedisse calma. E virou-se para Júnior – Certeza que não quer dormir aqui? Tá ficando escuro. Não é perigoso?

– Por isso que eu preciso voltar pra casa, mãe. Já tá tarde.

Para ele, era a última tentativa de Maria Carvalho, que não mais insistiu, aparentemente convencida de que a decisão de Júnior era definitiva. Entraram juntos no elevador, ele pressionou o botão do primeiro subsolo e nada falaram até chegar ao estacionamento. Mal o elevador reabriu, Maria Carvalho pôs-se a rir.

– Que foi, mãe?

– Como é que vou abrir o portão sem a chave?

Júnior deu um sorriso tímido, como se rir demais da caduquice da mãe fosse falta de respeito.

– Quer que eu busque lá?

– Não precisa. Espera aí que eu já volto.

E Júnior desceu do elevador enquanto Maria Carvalho manteve-se nele. Entre os dois e a risada da mãe, a porta se fechou.

Caminhando em direção ao seu carro, Júnior tirou dos bolsos o chaveiro com o Ankh e a chave do veículo e passou a girar o objeto no seu dedo. Sozinho no estacionamento mal iluminado, se conhecia o suficiente para saber que devia movimentar as mãos a fim de manter sua cabeça no chão. A ausência do impulso poderia colaborar para os seus devaneios que não costumavam ser muito bem-vindos, certo?

Mal havia chegado ao seu carro, o pensamento de Júnior já estava inquieto. Em sua cabeça, uma fileira de dominós cuidadosamente posicionados na vertical, um atrás do outro e, entre um passo e outro, caiu a primeira peça.

Não que não gostasse de Set. Ele era um cão adorável, mesmo adorável não sendo o melhor adjetivo para um cão. Um cão é bonitinho. Lindinho. Fofinho. Adorável é uma palavra falsa, ainda que o sentimento fosse verdadeiro. Para Júnior, era um cão adorável. Era um cão carinhoso. Era um cão fiel. Era um cão que, principalmente, fazia sua mãe feliz.

Jogando o Ankh de uma mão para outra, um movimento precipitado fez com que a chave caísse no chão. No caminho para o solo, Júnior tentou pegar o chaveiro com o pé, mas acabou chutando-o para baixo de outro carro.

– Merda. – tirou o celular do bolso e ligou a lanterna. Agachou-se em uma posição nada confortável em busca do Ankh enquanto deixava cair a segunda peça de dominó.

Sim, Júnior adorava cachorros no geral e amava ter conhecido Set, mas e Hórus? Quanto tempo fazia? Dois, três meses? Talvez nem isso. Hórus havia vivido toda uma vida com Júnior até a sua mudança e, não muito tempo depois de partir, foi substituído por outro, foi substituído por Set. Embora Júnior soubesse que, na verdade, Hórus não havia sido substituído, uma parte dele queria acreditar que sim. Pior, o sofá ser ocupado por pelos escuros do jovem Set e não pela preguiça idosa de Hórus apenas reforçavam o pensamento que Júnior queria evitar.

Um movimento rápido pelo chão fez Júnior retirar a mão de baixo do carro. Havia encontrado o Ankh, mas possivelmente também havia interrompido o descanso de uma barata. Apesar de não ter encontrado a fonte do movimento e ainda pensando que era apenas um inseto, estendeu seu braço na tentativa de recuperar o chaveiro.

O braço estendido de Júnior acariciando a cabeça de Hórus era a última lembrança que tinha do seu cão, com quem dividiu a maior parte de suas conquistas. O primeiro beijo, a primeira transa, a faculdade, o mestrado. Uma pena que Hórus não chegou a ver o início do seu doutorado. Ele teria ficado orgulhoso. O pai, Caio Carvalho, sempre provocou Júnior pelo diálogo tão constante com Hórus. É ciúmes dele, Maria Carvalho dizia. Ciúmes de mim ou de Hórus, Júnior questionava. E riam. A risada de Caio Carvalho era a última lembrança que Júnior tinha de seu pai.

O Ankh foi envolvido pelos dedos desarticulados de Júnior e finalmente voltou ao seu dono. Júnior limpou o chaveiro com carinho e assoprou o objeto, como se isso restituísse sua castidade. Levantou-se com dificuldade usando o carro alheio como apoio. Recolocou o chaveiro em seu bolso na tentativa de preservá-lo apenas para mudar de ideia logo em seguida, devolvendo-o ao dedo inquieto.

Foi Caio Carvalho, que teve mãos inquietas, quem deu o chaveiro com o Ankh para Júnior. Foi Caio Carvalho, historiador apaixonado, quem deu a ideia do nome Hórus para o cão. Foi Caio Carvalho, pai exemplar, o responsável por estimular os estudos de Júnior em História, área em que Júnior encontrou-se igualmente apaixonado. Se havia algo que Caio Carvalho não deveria sentir era ciúmes. Mas Júnior havia dito eu te amo o suficiente?

Júnior entrou em seu fusca e bateu a porta. Enfiou a chave na ignição e abandonou o Ankh que balançou para frente e para trás. Encostou a cabeça no banco e fechou os olhos. Respirou fundo. Inspirou e Ankh balançou para frente. Expirou e Ankh balançou para trás.

E o corpo de Júnior balançava para frente e para trás durante quase todas as ligações que teve com Maria Carvalho. Desde que o pai falecera, Júnior não havia ido para a casa dos pais, mesmo que, naquela época, ainda chamasse a casa deles de sua casa. Ausentar-se em um momento onde talvez a mãe precisasse dele poderia parecer egoísmo, mas para Júnior era autopreservação. A diferença é sutil. Maria Carvalho não pediu a ajuda de Júnior, Maria Carvalho não exigiu a companhia de Júnior, mas nesse meio tempo ela havia cuidado de Hórus, enterrado Hórus e adotado Set. Foi apenas para isso que Maria Carvalho chamou Júnior. Para que ele conhecesse Set.

Júnior colocou as mãos no volante e observou outro carro alheio entrar na garagem. O farol alto o iluminou, mas também o cegou. E chegando na casa dos pais, ou melhor, da mãe, foi que Júnior percebeu o quanto tudo havia mudado. Hórus não estava lá. Caio Carvalho não estava lá. O rápido café de Maria Carvalho e os pelos pretos de Set apenas reforçavam que ali não era sua casa, que não pertencia àquele lugar.

A porta do elevador se abriu e dali saiu Maria Carvalho, sorridente e balançando a chave em sua mão. Júnior retribuiu o sorriso. Não que a chave fosse necessária para abrir a garagem, mas era necessário pressionar um botão para que o portão fosse aberto. E, conectado nesse botão, estava a chave do carro de Maria Carvalho e outro chaveiro Ankh. E Júnior ponderou que talvez não fosse o farol alto o responsável por cegá-lo.

Ele tirou a chave da ignição e desceu do fusca, retomando o caminho até Maria Carvalho.

– Que foi? – ela perguntou.

– Tá meio escuro, pode ser perigoso, sei lá. Tudo bem se eu dormir aqui?

E os olhos de Maria Carvalho sorriram. E voltaram juntos para o elevador falando sobre pedir uma pizza, ver um filme e jogar dominó. E a porta do elevador se fechou. Dentro dele risadas, Maria Carvalho e Caio Carvalho Júnior.

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