Fábio Kalvan
Um baque, um baque que percute pelo meu corpo todo, especialmente na cabeça, como se o coração tivesse vindo parar na boca. E um frio na barriga, instantâneo. É a sensação que a frase do Ramon me causou. Um baque que de imediato me faz lembrar um outro, na origem de tudo, ainda nítido na memória.
Eu havia tirado a mochila do bagageiro, atravessado o corredor e dito um obrigado à tripulação. Assim que pus o pé para fora do avião senti o tranco do ar quente e denso na cara. Era um calor sólido, que pesava sobre a pele, e um sol que vinha de todos os lados, até de baixo para cima. Um calor se apossou de mim e, percebo agora, nunca mais me deixou. Era minha primeira vez em Campo Grande. “O que estou fazendo aqui?”, foi o que pensei naquele momento, enquanto caminhava pela pista de pouso e tentava acostumar meus olhos à claridade.
Eu embarcara duas horas antes em Brasília, abandonando uma lotação no Palácio do Itamaraty e um casamento. Ambos não eram grandes coisas mas eram alguma coisa. A relação degringolava há tempos mas íamos levando, até que Lívia teve a decência que não tive e se foi. Ainda assim a odiei, afinal nunca é bom estar do lado que é deixado. Como não queria correr o risco de nos esbarrarmos no mundinho brasiliense, pedi minha remoção, queria ir para algum local distante, longe da letargia que inundou meu casamento e que ameaçava levar de cambulhada minha vida. Foi aí que apareceu Campo Grande. Na cotação interna do Ministério o posto no Mato Grosso do Sul não despertava nenhuma cobiça, tanto que estava vago e só era ocupado por servidores ingressantes, desavisados ou doidos. Ou seja, meu pedido foi prontamente aceito. Fui me juntar à Lourdes, colega com quem passei a dividir a salinha num prédio de escritório na avenida Afonso Pena, na promoção comercial externa do agronegócio.
Tentei me ambientar. Fiz aprendizados. Por exemplo, o de nunca chamar um “sul-matogrossense” de “mato-grossense”. O equívoco dará em silêncio constrangedor, olhares reprovadores ou mesmo uma viva reprimenda. Aprendi também sobre o tereré, os rituais da beberagem e presenciei grandes embates entre “ortodoxos” (“só água gelada e erva da boa”) e “heterodoxos” (“tem que ter gengibre, limão e hortelã”). Internalizei as lições, fosse para não magoar suscetibilidades, fosse para evitar a pecha de paulista arrogante.
Conheci pessoas e ideias. Também saí com uma ou outra mulher. Por exemplo, a Larissa, a última deles. Um dia disse que me levaria a um local diferente e excitante. Fiquei pensando em safadezas várias, mas quando vi chegávamos em um clube de tiro. Achei prudente não contrariar, porém vi ali um sinal de que as coisas não iam bem. De que eu não ia bem. Me percebi no meio do país, distante do Sul e do Norte, distante de praias e de montanhas. Parado no meio do nada, no meio da vida, no meio da carreira, nem cá nem lá, nem uma coisa nem outra. Um homem mediano, regular, eu poderia dizer. Talvez por isso, para me sentir em movimento, foi que aceitei a proposta que me foi feita por aqueles dias.
A Coordenação-Geral de Demarcação de Limites necessitava de alguém na fronteira com Paraguai para encerrar pendências administrativas menores que se arrastavam há anos. Lourdes ficou perturbada quando soube da minha decisão: “Acho que você ficou doido. Tem certeza?”.
Não muita, mas também não tinha motivos para ficar onde estava. Assim é que, dias depois, após 330 km, vastas e injustas plantações de milho ou de soja, alguns animais mortos pela estrada e um calor sempre palpável, cheguei a Ponta Porã. Do lado de lá da avenida, a paraguaia Pedro Juan Caballero. Nada a separá-las, nada a distingui-las, exceto as placas do comércio em idiomas não muito distantes. Situação tão indefinida quanto minha cabeça.
As informações que eu tinha sobre a região não eram nada edificantes e Ramon, que vinha a ser parente da Lourdes e meu primeiro contato por ali, confirmou todas: muita faculdade de medicina de qualidade duvidosa, muito contrabando e muito tráfico de droga. Mas procurou me tranquilizar com a serenidade que só um nativo pode ter. “Relaxa, é só não atrapalhar a vida deles que eles não atrapalham a sua. São profissionais”, disse rindo. “É bom também não mexer com mulher de traficante”, observação essa repetida mais de uma vez sem que eu atribuísse muito atenção.
De novo, tentei me ambientar. Ao calor constante, à poeira, ao sotaque, mistura de português, espanhol e guarani, e também às chipas, às sopas paraguaias e aos coquitos. Nomes e sobrenomes diferentes, Cáceres, Purificación, Oviedo, Hernandez, foram perdendo o exotismo. Mais fácil foi me acostumar à disponibilidade de vinhos importados comprados do outro lado da rua. O trabalho, maçante, esse me concedia períodos de ócio, que aproveitei para atualizar livros e leituras. E assim meus dias iam escoando, embora sem que eu soubesse em que direção. Até que um dia, por acaso, conheci a Norma.
Em nada ela parecia as mulheres de Campo Grande. Essas não me empolgavam. Ou talvez eu não fosse empolgante. Senti que com Norma seria diferente. Toda linda, com seu cabelo preto liso, pele morena, olhos que pareciam jabuticabas e castelhanismos que se intrometiam num português meio cantado. Vivaz. “Me chama que me voy”, respondeu quando falei de nos encontrarmos. Vimo-nos várias vezes nessas duas semanas e foi muito bom. Eu estava de novo em marcha. Quem sabe ela não seria minha guia pelas ruas de Assunción.
Até que hoje marcamos o encontro no Galo da Fronteira, bar da cidade cujo nome desde logo achei de gosto duvidoso. Estávamos há umas duas horas azeitando as engrenagens do desejo quando vi Ramon entrando no bar. Ele também me viu, fez uma saudação à distância e sentou com as pessoas que o acompanhavam. Percebi pouco depois que começou a me olhar com uma cara estranha, entre incrédulo e assustado. Não entendi. Estávamos de saída para a minha casa, Norma prometera uma noite daquelas sem que tivesse dito uma palavra sobre o assunto, mas antes decidi ir ao banheiro. Ao sair dei de cara com o Ramon.
“Que mulher é essa?”, foi direto ao ponto.
“Falei dela para você, aquela com que estou saindo. É a Norma”.
“Eu sei quem ela é”
“Sabe?”
“Sim. Todo mundo sabe”.
“Como assim? Está com alguém?
Ramon não falou nada, só balançou a cabeça.
“Ué, ela falou que está separada”.
“Ela pode achar que está separada, mas acho que essa não é a opinião do marido dela”.
“Que marido?”
“O Ramires”
O nome acendeu uma luz na minha cabeça.
“Aquele Ramires, o traficante. Patrón, você tá comendo mulher de traficante”.
Eis a frase do Ramon que quase me fez cair de costas. E que gelou minha barriga, me livrando por instantes do calor. A frase foi um puta baque, tanto que ricocheteia pelo oco da minha cabeça e me mantém paralisado até agora. Saio da divagação e vejo a cara redonda do Ramon. Que merda. Que grande merda, é só o que eu consigo pensar.
