No covil da pantera

Lá estava eu de biquini verde limão, top mínimo e calcinha asa delta, chinelos brancos, toalha branca debaixo do braço e… máscara. Quando a primeira luz negra refletiu, não tinha como voltar atrás, eu já estava sem meu celular, bolsa ou roupa adentrando na sauna com a chave do armário pendurada no pescoço. A única mulher no ambiente e, provavelmente, a única pessoa que não precisava fingir heterossexualidade dentro ou fora dali. E não foi fácil conseguir essa autorização sem as devidas chantagens.

Há um ano eu trabalho para a maior sauna gay da cidade de São Paulo fazendo playlists infinitas com músicas de divas pop, houses mornos e remixes toscos. Tudo à distância, mas servindo a um ambiente que eu jamais poderia conhecer, nem por curiosidade, já que mulher não entra. Carteirada pra ir em dia off não rola porque não tem dia off por lá. Até que veio a pandemia do ano de 2020 e… pã! Depois de seis meses fechada, a sauna reabriu com uma capacidade reduzidíssima: de 500, passaram a poder entrar só 50 homens. O escândalo foi minimizado com a manchete da frase do meu “chefe”: “mas não é clima de festa”. Não, claro, que não, é só pra fechar negócio. Inclusive, eu te ajudo a ter boa saída pelas agências de notícia sem impacto negativo nas bolhas virtuais depois de sua posição eleitoreira e você me deixa ir um dia. Foi o combinado. Ele, o chefe, topou – tudo por e-mail, porque não tenho muito estômago pra lidar com essa gente.

Chico prometeu que ficaria ao meu lado o tempo todo, enquanto Mauro, Maurício e Tino se resolveriam enquanto trisal, com convidados temporários ou não naquele dia. Mesmo com a dissidência dos três, era a primeira vez que eu participava de qualquer ritual exclusivo dos meninos das Bichas do Centro. Ir ao bar do Juarez toda sexta conversar de meme de travesti era fácil demais. Pra entrar na sauna eu coloquei um OB, na noia de sentar ou encostar minha pélvis em qualquer coisa que fosse, digamos, pastoso. Já lá dentro, o primeiro passo foi ir pro bar. Peguei uma vodka com Redbull. Trinta reais. No impacto da facada, não teve nem como imitar a fala de Vanessão, que só tem graça quando se trata de algo de vinte – pronunciado “fintche” por ela, pra quem não conhece – reais.

Evitei sentar no banco do balcão num primeiro momento. Fiquei me balançando com a música, segurando o copo e chupando o canudinho mirando o nada, mas com a visão 360º aguçadíssima. Do bar até as piscinas mais próximas e o corredor que se multiplicava em labirintos, ninguém podia ficar de máscara e ao mesmo tempo beber. Alguns mantinham o protocolo até que a mala alheia ou a própria ganhava volume numa interação.  Olhei pra piscina onde antes ficava um DJ, que foi cortado pra ser uma fonte a menos de disseminação do vírus. Preferia que fosse suco de cranberry no lugar de Redbull, mas o tom amarelado do meu copo ficava bonito no cruzamento azul e verde das luzes que batiam na água e refletiam aquela área.

Não ia dar pra ficar fingindo que era só balada ali. Fui escapando aos poucos da companhia de Chico porque com apenas 50 pessoas, supostamente 50, o lugar parecia mesmo um deserto, ainda que tivéssemos ficado acompanhando pelo site a quantidade de pessoas que entravam. Na piscina tinham três caras muito comuns, nem ursões, nem velhos tarados. Poderiam ser empresários ou biólogos, nada afetados, nem muito malhados. Conversavam, mas com um charme sem igual no cruzar de pernas. Chico nem sentiu que me afastava em direção ao corredor de azulejos pretos, os mesmos que são usados na novas hamburguerias de Santa Cecília, não muito longe dali. Eles só não tinham o mesmo cheiro, porque nos da sauna escorriam gotículas de aromatizante eucalipto.

No corredor, a maioria das cabines estavam destrancadas, meio abertas, mas quase sempre vazias. A única coisa que vi foi uma bundinha nua, branca com marca de calção boxer, virada pra cima sem a cara do dono à vista. Ouvi barulho de água e cochichos que vinham de logo adiante e fui me aproximando, pé ante pé, mas dessa vez não tinha nenhuma uma porta, era uma abertura que dava para a tão falada área dos chuveiros coletivos. Comecei a contar quantos eram por ali, mas como eu estava quase parando de andar pra ver como era, atrapalhei dois caras que vinham atrás e que nem tinha me dado conta. Eles não estavam juntos, tanto que passaram por mim com um relativo intervalo de tempo, curto, mas espaçado.

Não entendi como duas pessoas que se acariciam debaixo do chuveiro, sem roupa, beijando-se como se fossem três línguas dentro de cada boca, excitados o suficiente para mudar a temperatura de inverno para verão num chuveiro que fosse elétrico, provavelmente não sabem nem o nome um do outro. Perdidos de amor, então, sem chance. Claro, Carolina, você está numa sauna gay, não assistindo Diário da paixão. Mas olha, a cena dava de mil a zero em qualquer filme. O caso é que aqui o sentimento escorre tão líquido quanto o tesão.

Eu estava mudando meu olhar de chuveiro quando outro corpo passou por mim, dessa vez pedindo licença. Pra tentar não dar bandeira, segui o corredor pra ver o que vinha adiante. De fato, o bolsonarista dono do lugar manteve o que chamam de “cineminha” fechado. Na placa da única porta fechada do lugar tinha escrito assim mesmo: Cineminha. Fiquei pensando que talvez fosse o único cinema pornô que eu pudesse entrar na vida e perdi a chance. Porque aquele de rua no Rio que meus amigos – que nem eram as bichas do centro, isso foi bem antes – foram ver como era uma vez e eu fiquei esperando por eles ansiosa na rua me foi descrito como a pura passagem pro inferno. Não pelos atos em si, mas pelo cheiro de mofo e porra, misturado com batedores de carteira punheteiros e travestis em situação de rua que entram ali. E nisso o centro do Rio não deve ser muito diferente da República, que não também não deve estar tão longe da Baixa dos Sapateiros. Para além dos chuveiros, caminhei mais um pouco, mas os corredores iam ficando cada vez mais escuros e decidi voltar. O primeiro erro constatado foi: se eu tivesse vindo de biquini preto teria sido muito mais estratégico do que a escolha de um neon pra parecer pertencer à comunidade.

Voltando à minha área favorita até então, parei rente à quina, em posição de espionagem mesmo, e fiquei vendo aquela proliferação de pintos duros debaixo da água corrente. Em geral eram bonitos. Um ou dois menores ou finos. Se tinha algum torto, não vi. Enquanto a versão masculina de Ryan Gosling e Rachel McAadams da sauna executavam de pé, digamos, o coito, um verdadeiro ursão, típico boy da frente do Woof bar, chegou e pegou a mão do que, digamos, recebia o coito. Ele estava apoiado na parede que escorria eucalipto, mas o urso despregou suas mãos dali e conseguiu girar levemente o, digamos, casal, e desceu no que estava com a frente livre. No chuveiro que ficava do outro lado do ambiente, um casal que se beijava meio de lado, de repente começou a olhar fixo para a cena de filme que estou contando. Parece que queriam ir até lá, completar a roda, mas não se mexiam e, de vez em quando, percebi que grunhiam de prazer ou algo parecido. Quando a rajada de vapor que deixa o ar denso deu uma aliviada, sei lá por que motivo, vi que um cara magrinho, mas de costas definidas, que devia ser até bastante alto, tinha os dois pintos dentro a boca. É provável que nessa hora meus olhos tenham se arregalado, porque engasguei com a minha própria saliva e comecei a tossir. Vinha vindo uma POC de uns 1,75m, andando com uma perna na frente da outra como se fosse modelo Versace na passarela, que olhou meu biquini e gritou: “uma racha!”. A placa em frente à sala de chuveiros dizia: “é expressamente proibido gritar”. Saí correndo em direção ao bar e o clima úmido do ambiente fazia com que minha havaiana emitisse barulho de quem pisa na lama ou peida. Vi uma porta semiaberta e, sem nem olhar se tinha alguém, entrei.

Era um quarto vazio com uma pia no canto e, no meio, um pedaço de madeira preto com um buraco no meio. Parecia uma instalação. Mas também lembrava uma guilhotina, ainda que o buraco fosse pequeno demais para uma cabe… Dessa vez fui em que gritei e levei instantaneamente a mão na boca, abri a porta, me dei conta de que tinha tocado tudo isso e estava sem álcool gel. Recuperei minha máscara presa na lateral da calcinha, coloquei no rosto e cheguei ao bar. Chico estava com uma cara paralisada olhando pra dentro do balcão. Achei estranho que não estivesse aproveitando pra flertar com alguém. Fiquei confusa, mas, quando alcancei seu braço, o puxei com força, sem gritar, mas falando mais alto do que deveria “vamos, vamos”. Chamei a atenção, sim. As caras masculinas estupefatas me olharam e não fizeram nada. Parecia que todo mundo tinha parado de dançar, conversar e se pegar para me olhar. Chico tentou me dizer alguma coisa antes de chegarmos no balcão de saída para pegar as roupas, mas não deu tempo e o cara que rendia o recepcionista levantou a arma até a altura da nossa testa e disse: “Calma lá, agora ninguém sai”.

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