Sorria na estrada

por Américo Paim

– Como foi isso, chefia?

– Aqui pertinho de Ipirá, naquela obra. Vacilei no fundo de um caminhão e aí só ouvi o baque. Catei cheio. Tá feio, né?

– Rapaz, parece que não quebrou a jante. Sorte.

– Tem jeito?

– Oxe, aqui é Popó borracheiro, véi. Vai demorar, mas deixo novo.

– Vou ali então – apontou o restaurante do posto.

Geraldo espreguiçou e deu um longo bocejo. Sem estresse, tenho bastante tempo. Combinei chegar em torno de meio-dia. Ainda são sete. Caminhou lento, observando as bombas, as lojinhas. O lugar estava cheio já àquela hora, com muitos carros e caminhões estacionados. Posto concorrido tem rango bom. Vou é bater um café. Ainda não comi nada e esse pneu vai demorar.

No balcão, o visual da comida combinava com o cheiro bom que vinha da cozinha. Não resistiu e pediu cuscuz, mingau de milho e café, no capricho. Pegou a bandeja e procurou um lugar. Tudo cheio. Foi a uma mesa que tinha um homem sozinho, de camiseta branca e bermuda. Tinha bigode e os cabelos grandes penteados para trás. Sua expressão era bem agradável.

– Posso sentar aqui, companheiro?

– Pode, meu amigo – respondeu acolhedor.

– Faz tempo que não tomo um mingau assim – puxou assunto.

– A comida aqui é dez. Experimente o aipim!

– Já tem muito aqui – riu. Vem sempre nesse posto?

– Sim, rodo de caminhão essa Bahia toda e aqui é parada obrigatória.

– Vida difícil, né? O tempo todo no volante.

– Não vou mentir: gosto muito. É puxado, mas isso de ser bicho solto não me deixa largar o osso. Acho que nasci pra correr por aí. Conheço tudo quanto é canto que o amigo pense. E gente e namorada que não acaba mais – riu alto.

– Ah, entendi – Geraldo riu amarelo, segurou a xícara no ar olhando o homem; aquela intensidade toda lhe incomodou. Precisa de muita coragem pra se largar assim no mundo, né?

– O nome é necessidade, meu velho. Foi assim que começou, mas agora é porque gosto mesmo.

– Passava necessidade, é isso?

– Nada. Foi vontade de viver mesmo. Falou e olhou no olho. Fez uma pausa e retomou como se lembrasse de algo importante. Tava enterrado em um emprego na indústria. Não era feliz. Demorei a entender e ainda mais a tomar tento. Um dia cansei. Pedi meus tempos, vendi tudo e comprei o caminhão. Foi desse jeito. Já fiz algum dinheiro, mas continuo por causa do vento na cara. De repente, sorriu. O amigo me dê licença um instantinho – disse levantando-se em direção a uma mesa onde estavam duas moças. Lá sentou-se e engatou um papo; dava para ouvir os risos.

Não estava preparado para essa conversa. Lembrou seu emprego sem graça na administração de um Shopping em Salvador. Sabia que já não era feliz desde o trabalho anterior, no comércio de sapatos na Avenida Sete. Será que estou perdendo tempo? Esse sujeito deve ter uns quarenta e tá com uma cara boa retada. Acabei de entrar nos trinta e me sinto com oitenta. E essa satisfação com nem sei o que? Olha essa risadaria com as moças! Sorriu mirando o trio. Como é ser assim? Empurrou o prato de cuscuz. Não queria mais comer. Ficou brincado com os talheres, olhar perdido, a voz do caminhoneiro martelando: “vontade de viver”. Se sentia livre só de pensar naquilo tudo.

Uma coisa puxa outra e Rita veio logo à sua cabeça. Velho, o noivado já foi maluquice. Todo mundo pressionou e eu embarquei, cordeirinho. Ela tá cheia de planos e eu nem aguento pensar. Vou casar? É isso? Dez dias na estrada e, na boa, nem senti falta dela. Tá bom, não é assim, mas é quase isso. Pensou nela com carinho, mas logo se dissipou. Voltou à real. Sou um cara legal, até simpático e não devo nada. Será que eu…

– Voltei, amigo – interrompendo.

– Amigas bonitas – esboçou um sorriso para esconder sua leve inveja.

– São de Salvador. Tão de passagem pra Chapada. Seu café vai esfriar – apontou a xícara, percebendo o outro meio alheio.

– Que? Ah, deixa pra lá. Já comi demais. Qual o seu nome?

– Dagoberto, seu criado – estendeu a mão e apertou firme.

– Meu nome é Geraldo. Sem querer me meter, são namoradas antigas?

– Não – riu alto de novo. Tive um rolo com uma amiga delas que mora em Itapetinga. Tava só papeando mesmo. Vão pro Capão com uns amigos.

– Devem ter a minha idade – falou entre melancólico e surpreso.

– Quer que apresente? Só se for agora! – levantou rápido e voltou com as moças, que se sentaram à mesa, olhando com interesse um Geraldo constrangido.

A mais alta, Jussara, morena linda de sorriso implacável, vivia de artesanato e Alice, não menos bonita, trabalhava em uma loja de roupas femininas. Amigas em férias. Elas conversavam fácil, sem cerimônia, como se o conhecessem há muito tempo. Cara, duas gatas dessas e eu de férias também. Papo bom.

– Então, menino, fazendo o que por aqui? – perguntou Alice.

– Parei para consertar um pneu. Vim de Baixa Grande e vou para Salvador.

– Oh, que pena. Se fosse para a Chapada, a gente se batia lá. Vamos fazer umas trilhas. Vai ser massa.

– Não conheço o lugar – falou meio envergonhado.

– Fala sério, meu irmão! Não é baiano? – disse Dagoberto.

– Tá brincando, né? – Jussara, surpresa.

– Incrível, mas é verdade. E sou da Bahia – falou aflito.

– Ah, precisa ir! É a hora, moço! Aquele lugar é demais! – o caminhoneiro piscou para ele.

A conversa avançou um pouco mais. Elas descreviam lugares e belezas da Chapada, Dagoberto reforçava com detalhes e Geraldo se sentia como se vivesse em outro planeta. Uma delas lhe disse que ele era bonito, mas tinha uma cara tristinha: “sorria para a vida, menino”. As moças se despediram deixando o nome da pousada em que estariam – “se resolver aparecer”. Observou as duas até sumirem de sua visão. Retomou a conversa.

– Essas meninas são gente boa, né? – comentou animado

– Da melhor qualidade. Conheço bem. Fez breve pausa. Olhe só, aqui tá pertinho da Chapada. Por que não aproveita? Segue daqui de Ipirá pra Itaberaba pela BA-233. Tá boa. Aquela ali – apontou a rodovia, visível de onde estavam. São quase oitenta quilômetros, aí pega a BA-242 e em duas horas tá em Lençóis. Não tem erro.

– E eu estou de férias – Geraldo falou baixo.

– Como é, véi? Tá esperando o que?

– Não é bem assim – explicou. Eu vim resolver uns negócios aqui perto e agora tenho que voltar.

– Tem, tá certo, mas quer? Não parece. Ficou ligado na conversa delas que eu vi.

– Eu tenho noiva. Acha que posso não voltar para Salvador e pronto? – desculpou-se e cortou abrupto.

– Ué, quem sabe é você, né? Só falei porque ficou com esse olhar pidão aí…

Entre a naturalidade da fala do homem e sua própria mudez, se percebeu em xeque. Ali naquela mesa de beira de estrada não conseguia usar suas máscaras e isso lhe pressionava. Gostou da ideia de sair por aí, mas pensou como sua vida era toda encaixada. Pra que essa conversa toda? Esse cara nem sabe nada de mim. Dagoberto se levantou.

– Vou chegar, meu velho. Ainda tem muito chão até Morro do Chapéu e preciso descarregar hoje.

– Ah, vai para o outro lado, então – falou com alívio pela mudança da prosa.

– Isso. Entrego a carga e fico por lá uns dias. Tem um pessoal amigo.

– Pessoal, né? Entendi… – riu imaginando.

– Até, então. Boa viagem e cuidado na estrada e na vida – devolveu o sorriso.

– Até.

A estrada. Era nisso que pensava quando viu Dagoberto conversando entre risadas com a moça do caixa e o pessoal do balcão. A liberdade daquele homem lhe instigava, mas era daquela leveza que ele tinha vontade. Falar e transitar despreocupado, dono do nariz. Uma coisa vinha com a outra? A caminho da borracharia, pensou se não tinha umas coisas na sua vida precisando de conserto.

– Deu trabalho, chefia. Problema grande! Agora vai rodar bonito.

– É verdade, grande mesmo – falou Geraldo, pensando alto.

Observou Popó afundar um pneu na banheira com água e as bolhas de ar saindo de um furo, e se viu ali, afogado. Entrou no carro, foi até a beira da BA-052, a Estrada do Feijão, desligou o motor e contemplou o asfalto. À esquerda, Morro do Chapéu e à direita, Salvador. Ou aquela outra estrada? Lhe veio um sorriso.

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