Da janela do hotel, conseguia ver hóspedes descarregando malas. Era necessário forçar o vidro até as dobradiças quase cederem se se quisesse fumar. Amassou a ponta do Belmont no parapeito, sentou na cama e começou a abotoar a camisa. Um segundo depois de olhar o celular, constatando que faltavam três horas para o voo, bateram na porta. Espantado com a velocidade das multas nesses tempos, atravessou o quarto em dois passos largos, mas antes que pudesse alcançar a maçaneta, viu o envelope na soleira. Abriu a porta. O corredor de carpete azul e portas brancas recebia as luzes do fim da tarde, e lá no fundo um carrinho de alumínio cintilava ao sol com um bule de café e três pares de xícaras. De volta à cama, abriu o envelope e tirou de dentro dele um guardanapo de papel. As letras se espalhavam nos quatro quadrados da dobradura, com a marca de um grande copo e manchas da própria tinta da caneta, mal absorvida pelo papel barato. Na primeira frase, achou que era piada. Na segunda, ficou nervoso. Na terceira, levantou e começou a andar no quarto.
Como chegaria àquela hora da tarde à Alameda del Libertador? Mesmo que a proposta do remetente fosse tão irresistível quanto escrevera, era falta de respeito sugerir um horário tão perto ao do vôo. Resmungou. Coisa de iniciante. Ou um blefe.
Meteu a jaqueta, decidido a continuar a leitura no bar do terceiro andar, onde há uma varanda e pode-se fumar sem preocupações.
Pediu uma garrafa de Austral e sentou-se numa das mesas da varanda, que surpreendentemente, pela hora, estava vazia. O vento agitava as copas dos algarrobos no Parque Bicentenário, e pequenas nuvens de tordos se deslocavam em direção ao telhado do oratório. Ele dedicou uma breve prece à Nossa Senhora de Monte Carmelo e bebeu o primeiro copo num gole só, voltando a servir-se para finalmente acender um cigarro e pensar sobre a sinuca em que havia se metido.
Com o guardanapo sobre a mesa, retornou à leitura. Não parecia ser a coisa certa a se fazer, ainda mais naquela tarde, em que ele recebera confirmação do pessoal no Brasil – bastava chegar no aeroporto, um carro o estaria esperando, descer na boate e fazer o serviço. E agora essa, uma contraproposta. O negociante o estaria esperando, sozinho, no bar Puente Alto, para, quem sabe, mudar o rumo das coisas. Essa certeza o irritou. Lhe parecia que o tratavam como um ladrão de quioscos.
Amargando outro gole, lembrou-se do Velho Velásquez, e daquela tarde fria de mil novecentos e noventa e quatro, num tempo em que a água das chuvas corria vermelha para as bocas de lobo. Da primeira vez, levaram seu parceiro, e não estava disposto a repetir o erro. Sem papo, embarcaria no Brasil, e resolvido o trampo, sumiria do mapa por um tempo. A grana lhe daria esse luxo.
Incinerou o papel com isqueiro, jogou no chão e pisou em cima. As malas estavam prontas, a passagem no bolso interno da jaqueta, as preces em dia, nada mudaria seu rumo, e o que mais lhe dizia isso era a discrepância de horários; o negociante cometera um erro crasso, tentando impedi-lo de subir no vôo. Os horários não batiam, e nem mesmo se fosse um amigo lhe convidando para um chope ele poderia aceitar. Bateu as cinzas, cruzou as pernas e começou a pensar em possíveis itinerários, caminhos que o levariam para a graça e o esquecimento. Peregrinações. Caminho da Fé. Trilha Inca. Santiago da Compostela. Jerusalém. Cisjordânia. Roma. Rezar a missa do Santo Padre.
Cronometrando o tempo até sua partida, aproveitou a folga e a certeza para pedir outra Austral. No balcão do bar, porém, não encontrou ninguém, a não ser dois rapazes que a primeira vista lhe pareceram peruanos, que bebiam pisco sours e trocavam palavras retiradas de dois livros pesados. Eram rapazes sujos, vestindo jaquetas de couro desbotado, calças jeans pretas e coturnos militares, que pararam de falar no instante em que ele colou no balcão, limitando-se a olhá-lo em silêncio. A princípio, achou estranho que não os tivesse visto chegar, mas mais estranho ainda era o velho bartender do hotel ter desaparecido à boca da noite.
Ignorando os olhares dos peruanos, circulou o balcão, abriu o freezer, tirou uma garrafa e deixou três mil pesos sobre a bancada. Os rapazes pareceram segurar o riso, mas quando ele olhou, baixaram os olhos para os livros.
De volta à mesa, a noite havia se apossado do parque e a paz de antes parecia tão inalcançável quanto um bom sonho. As luzes da Calle Vitacura já estavam acesas, e mariposas circulavam as lâmpadas redondas dos postes. Agora só conseguia pensar no destino do Velho Velásquez. Trinta e três tiros. A idade do Cristo crucificado. Sobrou pouco pra ser enterrado. Naquele tempo as cartas vinham em envelopes de papel azul-escuro e brasões carimbados, ou, no mínimo, guardanapos de seda. Pensou que de fato as coisas estavam mudando, e era do seu interesse assistir às mudanças de fora. Mas isso não o tranquilizou. Tentou a cerveja, sem resultado, e rezar parecia um erro.
Com o olhar de volta ao salão, constatou que os dois peruanos tinham desaparecido, mas que a camareira, uma senhora miúda que falava sozinha enquanto carregava o carrinho de toalhas para lá e pra cá, se aproximava da varanda, e o que era pior, trazendo um envelope. Aceitou com resignação sua sina de destinatário quando ela lhe entregou a carta e voltou para a penumbra, apressada.
Acendeu um Belmont. O envelope era de papel pardo, lembrava os embrulhos e recados da Alemanha Oriental. Dentro, uma passagem para o Brasil, em seu nome, marcada para as dez horas da manhã seguinte.
Deixou-a cair na mesa. O envelope ainda trazia outro papel. Uma mensagem curta, impessoal. O barulho do tráfego se intensificou três andares abaixo. Acenderam as luzes do salão e ele ficou pensando na expressão ali escrita. Como era curiosa, essa coisa de não aceitar não como resposta.

