ALÉM-FRONTEIRAS

Silvia Argenta

A casa da fazenda do Horizonte parecia de boneca. Era linda e acolhedora, além de bastante peculiar. Dois andares, madeira branca, janelas e portas pintadas de azul escuro. A varanda com alpendre talhado acomodava os casacos e as botas sujas de lama. O jardim era cheio de lírios amarelos enfileirados que contrastavam com a grama verde bem aparada. Era rodeada pelas araucárias, que anunciavam a chegada do vento com o barulho dos galhos se batendo nas alturas. Depois da cerca branca, tudo que se via eram os campos, daquelas paisagens iguais às dos rótulos de requeijão. O inusitado era que bem no meio da casa foi demarcada a fronteira. Os moradores passavam o dia no vai-e-vem entre dois estados. Cozinhavam em Santa Catarina e dormiam no Paraná.

Zely estava costurando lençóis novos no lado paranaense da casa quando o carteiro chegou. Com vinte e três anos e solteira, já tinha virado assunto na região porque ainda não havia se casado. Povo adorava falar da vida alheia. A questão era que nenhum homem tinha despertado seu interesse. Simples assim. Atravessou o jardim para receber as correspondências e sentiu nas pernas a brisa gelada típica dos campos palmenses. Apesar de março ainda ser oficialmente o verão, por essas bandas o calor não se firmava. Mas dessa vez sentiu uma quentura comparada ao do Saara quando viu que uma das cartas era endereçada a ela. Seu rosto enrubesceu. Virou o envelope para identificar o remetente e não tinha nada escrito.

Ela estava sozinha em casa. Os pais e os irmãos lidavam com outras atividades da fazenda, dando comida aos porcos, manejando as cabeças de gado ou checando a plantação de maçãs. Ofereceu um pedaço de bolo de fubá ao carteiro, que aceitou. Enquanto esperava o homem comer, foi para a sala, em terras catarinenses, apoiou os papéis na mesa e deixou a sua carta em cima. Ficou de pé por uns instantes, admirando o envelope e tentando imaginar do que se tratava. Não queria ficar solteira para sempre, mas também não iria aceitar qualquer galanteio. O carteiro terminou o bolo, entrou no seu carro preto e se despediu, agradecendo a hospitalidade. Sem esperar mais nenhum segundo, ela pegou a tesoura de costura e cortou milimetricamente a lateral do envelope, com todo o cuidado para não estragar a carta.

Abriu. Ao se deparar com as duas folhas com as letras mais lindas que já tinha visto na vida, seus olhos castanhos nem piscaram. Era Zico, lá da Itália, declarando um amor que nunca havia imaginado. Os dois se conheceram no colégio e não se falavam havia anos. Soube pelo pessoal da igreja que ele era um dos pracinhas da região que tinham ido para a Europa lutar na Segunda Guerra Mundial. Era galã. Alto, olhar sedutor, cabelo raspado na nuca, braços musculosos. Nunca se esqueceu da beleza dele, mas também jamais alimentou qualquer tipo de esperança. Tanto que nunca cogitou que houvesse algum sentimento da parte dele.

Zely não acreditou quando leu que ele relutou com seu coração e pensamentos para escrever a carta. Não era possível. Colocou a mão sobre o peito para tentar conter a emoção. De nada adiantou. Explodiu de alegria ao saber que ele a amava desde a infância, que nunca se esqueceu de sua fisionomia e que sonhava com ela. Como pode alguém além-fronteiras nutrir tanta admiração desse jeito? Continuou. Ele explicou que a vida militar o impedia de prever o que iria acontecer. Não, não. Depois de uma declaração dessa, não havia a possibilidade de dar espaço para outro homem. Agora com as mãos trêmulas, queria ler tudo rápido para saber como essa história iria terminar. Ele finalizou o texto dizendo que esperava uma carta em terras europeias, escrita pelas mãos carinhosas dela. Ela suspirou e foi até a janela. Viu os lírios mais amarelos e a grama mais verde do que nunca. Voltou para a mesa, sentou-se na cadeira e releu a carta para checar se havia entendido certo mesmo. Sim, era verdade.

Passou o dia sem conseguir fazer mais nada na casa. Flutuava, andando sem parar entre solo paranaense e catarinense. No final da tarde, os passos pesados no piso de madeira da varanda indicaram que os pais e os irmãos haviam chegado. Eufórica, abriu a porta com a carta na mão para contar a novidade. Todos comemoraram, afinal o Zico, além de bonito, era de uma boa família. Mesmo com ele fora do Brasil, ninguém cogitava qualquer imprevisto. Estavam todos certos de que enfim a filha mais velha iria se casar.

Durante a noite mal dormida de tanta excitação, no lado paranaense da casa, pensou no que iria dizer ao Zico. Se levantou várias vezes para pentear os cabelos castanhos e encaracolados. Seu reflexo no espelho da penteadeira era iluminado pela pequena chama da vela, com uma luz que a fazia oscilar entre o imaginário e o real. Nos poucos momentos em que dormiu, passou pela fronteira do inconsciente e se viu na Itália com o futuro marido.

No outro dia, logo após o café da manhã, atravessou o limite dos estados e se preparou para escrever a carta, dispondo um bloco de papel e uma caneta em cima da mesa de jantar. Fez alguns rascunhos para soltar o pulso e poder rabiscar as palavras inadequadas. Gastou algumas folhas até chegar ao texto que iria mandar. Queria que ele entendesse que ela estava solteira e disposta a esperar pelo seu retorno assim que possível. Passou a carta a limpo e, na mesma tarde, o irmão de Zely foi até a cidade de Palmas deixar o envelope no correio.

Um mês se passou e nada da resposta de Zico. Já era abril. Apesar da guerra, sabia que as cartas estavam sendo transportadas de avião sem problemas. O governo até estimulava que as pessoas enviassem mensagens aos pracinhas para dar apoio afetivo e psicológico. Então por que não chegava a carta? Bom, havia a possibilidade de ela ter sido extraviada, afinal eram tantas triagens. Ou ainda ele teria se desencantado com alguma palavra mal colocada e decidiu não se comunicar mais. Não fosse isso, ele só podia ter morrido. Como saber?

Maio chegou, mas a carta com a resposta não. Zely lembrou-se de uma moça, da família do dono do correio, que gostava do Zico. Começou a pensar nas hipóteses de como essa menina ficou sabendo e deu um sumiço na carta. A garota devia ir todos os dias no correio ou pediu para o dono queimar ou era amiga da pessoa encarregada pelas cartas dos pracinhas. Tudo poderia ser motivo. Claro, só ela para boicotar. Essa era a única explicação. Pensou em escrever outra carta para o amado e pedir para ele responder para a agência do correio de outra cidade, em Porto União. Seria mais garantido. Mas desistiu. Na verdade, ele é que devia ter desistido de tudo.

Fazia frio demais em junho. O vento chacoalhava os galhos das araucárias e uivava pelas frestas da casa de madeira. Zely foi até o quarto, na região paranaense, buscar um cobertor para cobrir as pernas. Entrou no território catarinense, foi até a cozinha e se sentou do lado do fogão a lenha. Esfregava as mãos nos joelhos na tentativa de esquentá-los. Só parava ao pegar a espátula de ferro para espalhar o punhado de pinhões, que estalavam na chapa do fogão. Desânimo total. Atravessar as estremas da casa era fácil. Difícil era transpor as fronteiras com um oceano de distância.

Ouviu um barulho do lado de fora da casa. Sentada, afastou a cortina e viu pela janela um carro preto entrando na fazenda. Tirou o cobertor, vestiu o capote e encarou o vento forte e congelante dos campos para buscar as correspondências. Ainda tinha esperança de que chegasse a tão aguardada carta. Arqueou a coluna e atravessou o jardim de lírios pálidos e grama marrom, cansados de lutar com o granizo e a baixa temperatura. De cabeça baixa, protegida pelo capuz, esperou que o carteiro lhe entregasse os papéis. Seu corpo tremia. Percebeu a demora e levantou o olhar. Só então se deu conta de que não existiam mais fronteiras. A carta já não lhe importava mais.

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