Faria parecer um acidente

por Bruno Vicentini

Era noite de espetáculo. Miro estava ajudando Sara, sua mulher, a vestir o traje do número de acrobacia que os dois faziam juntos, uma malha verde e rosa, com lantejoulas, que tinha nas costas um zíper difícil de alcançar, e foi aí que se deu conta. Minutos antes o dono do circo, um gordo chamado Almir, havia entrado no camarim dos artistas, uma tenda pequena, nos fundos da principal:

– Viu, vocês dois, se apressem aí, a ordem mudou, vocês vão entrar depois da Cássia – disse, agitado, apontando para a malabarista. – E você, Cássia, você já vai entrar agora, depois dos Platiplantos.

A trupe dos palhaços – Os Platiplantos – abria o show. A esquete que apresentavam já havia começado. Sara e Miro eram trapezistas voadores, um número bastante perigoso, feito sem rede de segurança, e costumavam ser a penúltima atração, logo antes do grand finale: a apresentação dos motoqueiros, anunciada como A Roda da Morte. Miro até quis argumentar, dizer que aquela alteração na ordem de entrada, assim, de última hora, não era justa, mas algo enrolou sua língua. Acabou só gaguejando:

– Quê?! A-Almir…

– Não, é isso mesmo, se apronta, se aquece aí, faz o que precisar. A arena lotou, a divulgação deu certo.

A noite não era de estreia, apesar de ser a primeira vez que eles se apresentavam naquela cidade – uma cidade um pouco maior do que estavam acostumados. Nas noites anteriores, as apresentações tinham sido mornas, discretas, quase um ensaio. Almir então procurou uma agência, que contratou influenciadores locais para chamar as pessoas pro circo. Pelo jeito tinha funcionado. Miro se lembrava de que, antigamente, a propaganda do circo era toda feita por uma kombi de som, que desfilava pelas ruas principais da cidade em que estivessem, fosse ela qual fosse, do tamanho que fosse, com uma jovem Sara pendurada em barras de ferro presas no teto do carro, acenando para as pessoas. Lá de cima ela fazia poses e exibia todo seu carisma e sua flexibilidade, jogava beijos e confete. Os pais ficavam malucos para levar seus filhos ao circo.

Miro ouviu risadas e aplausos, vindos da tenda principal. Um som potente, que se ergueu em etapas, feito uma onda. Terminou de subir o zíper da mulher e girou nos calcanhares:

– Não esquenta, eu vou falar com ele – disse. Sentiu que Sara o seguia com os olhos.

Ele havia perdido o ensejo de confrontar o patrão. Depois, quando anteviu o que aconteceria consigo durante sua parte do espetáculo, perdeu também o interesse. Saiu em busca de Almir, é verdade, mas apenas para que não tivesse de questionar Sara a respeito da certeza que agora lhe acompanhava, tão evidente quanto um cheiro de cigarro impregnado na camisa, mas ainda assim algo que ele não conseguiria explicar, mesmo que quisesse – uma certeza de sentido oculto, misteriosa, como um desejo de mulher grávida. Levou aquele sentimento para passear pelos bastidores do circo. Os Platiplantos saíam pela passagem dos fundos do picadeiro, alguns já tirando a maquiagem, resolutos. Um deles levava um vira-latas no colo. Cumprimentaram-se. Miro enfiou a cabeça pela cortina que tampava a passagem e espiou para dentro. Comprovou que o circo estava mesmo lotado e percebeu uma eletricidade no ar, uma estática, algo muito diferente da atmosfera das noites anteriores. Respirou fundo e sentiu os cheiros do circo: serragem, pólvora, pipoca doce. Batata frita. Gasolina. Se alguém lhe perguntasse, diria que havia virado trapezista apenas para viver perto daquele cheiro. Sorveu-o como se o fizesse pela última vez.

Talvez Almir estivesse na bilheteria, conferindo os valores das entradas, empolgado, rindo à toa, alheio a qualquer desfecho macabro que se desenhasse para o espetáculo que dirigia. Miro começou a contornar a tenda, por fora, em direção à entrada principal. Seria possível que estivesse enganado? Tinha certeza de que não estava. No meio do trajeto, encontrou três garotos, um em cima do ombro do outro, os três em cima de um caixote de madeira. Revezavam-se para espiar fragmentos do espetáculo por uma fresta na lona.

– Ei, molecada. Chega aqui.

Os garotos se assustaram e quiseram sair correndo, tropeçando uns nos outros e também na caixa em que estavam montados.

– Calma! Vocês querem ver? Eu coloco vocês pra dentro. Aqui, ligeiro, entrem aqui pelos fundos.

Um deles havia parado para escutar o que Miro dizia. Os outros dois, percebendo que o amigo ficara para trás, aos poucos foram também parando e voltando, desconfiados:

– É sério?

– Claro. Aqui. Depois que entrarem, é só ir contornando pela esquerda, tem um caminho ali, vocês vão ver, no final tem um espaço onde dá pra ver o show bem de perto. Mas andem logo.

– Valeu, tio.

Os três entraram e Miro continuou seu percurso, circundando a arena. Lembrava-se de como uma apresentação de circo havia mudado sua vida, quando ele era uma criança. Era certo que algo parecido estava prestes a acontecer àqueles três garotos, mas Miro duvidava que, ao final, algum deles fosse querer se tornar um trapezista. Encontrou a bilheteria vazia, com uma placa antiga: Fechado. Nem sinal do patrão. Continuou rodeando o circo, para chegar ao camarim pelo outro lado, onde havia uma área usada como estacionamento. Cumprimentou Paulino, o jovem cigano que cuidava dos carros e que lhe convidou para dividir um mate, prosear um pouco, mas Miro agradeceu. Já não havia muito tempo, o número de Cássia logo terminaria, era preciso se apressar.

De volta ao camarim, encontrou Sara terminando a maquiagem. A mulher, depois de tantos anos, continuava bonita. Teve uma última oportunidade para confrontá-la, para dizer a ela que sabia de tudo, de seu plano desgraçado, e que além do mais ela se safaria, faria aquilo parecer um acidente. Mas ele não se sentia disposto a ter aquela conversa, uma maluquice. A confiança recíproca, uma construção de anos, fundamental para o sucesso do número, já não mais existia, havia tombado de forma definitiva, como um caminho de dominós. Ela percebeu que ele a observava e sorriu para ele pelo espelho, que era emoldurado por lâmpadas incandescentes, algumas queimadas. Ele sorriu de volta.

Almir entrou correndo, derrapando na serragem:

– Porra, finalmente! Onde você tava, caralho?!

– Eu? Fui dar uma volta.

– Volta?! Que volta?

– Uma volta em volta do circo.

– Agora? Bom, deixa pra lá. Você tá pronto? O locutor já vai anunciar vocês.

– Sim, estou pronto. Estou tão pronto quanto alguém pode estar pronto.

***

– Merda pra você.

– Merda.

Sara e Miro entraram no picadeiro de mãos dadas, sob uma saraivada de aplausos e um show de luzes que piscavam, coloridas. Fizeram, ainda juntos, uma mesura exagerada ao público, que lotava as arquibancadas. Miro então subiu a longa escada do lado esquerdo da arena, como uma criança assustada que engatinhasse para cima, enquanto Sara fazia o mesmo do outro lado. Lá no alto, já um ponto minúsculo aos olhos do público, ele meteu os braços, até a altura dos cotovelos, num galão azul de fertilizante cheio de pó de arroz. Bateu uma mão na outra para tirar o excesso. Olhou para Sara, do lado oposto. A mulher havia parado de sorrir e fez um sinal para ele, o sinal de sempre. Miro segurou firme na barra do trapézio e lançou-se no ar frio da noite.

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