Nós que aqui estamos

Não costumamos usar muito a primeira pessoa do plural para contar uma história. É um oportunidade que não podemos desperdiçar. O uso da primeira pessoa do plural é interessante para criarmos uma despersonalização do narrador. Seria como se não pudéssemos definir quem está falando. Acabamos nos concentrando mais na narrativa do que na psicologia do personagem. É um recurso raro, usado em muito poucos contos, como uma forma de trazer mistério e indiferenciação ao agente da narrativa, flertando também com um certo espírito corporativista e com a linguagem neutra típica das teses e dos ensaios.

Em “A noite dos alcaravões” (Olhos de Cão Azul, Record), Gabriel García Márquez comete uma obra-prima do realismo fantástico ao usar um “nós” indistinto para personagens que sofreram uma provação horrível e nunca explicada: o acontecimento não só carece de justificativa como também é colocado sob suspeita, como se talvez não tivesse ocorrido de fato. Como GM não nomeia os personagens, lugar nem tempo, apenas estrutura o texto em ação pura, sem antes nem depois, ficamos impactados pela sensação de que algo terrível aconteceu, mas não sabemos exatamente o quê.

PROPOSTA

E é isso o que você vai fazer. Escrever um conto na primeira pessoa do plural, usando uma das seguintes alternativas:

  • um time de futebol de quinta divisão
  • uma equipe de advogados pilantras
  • um grupo de enfermeiras sádicas
  • uma trupe de artistas de circo
  • um monte de crianças surdo-mudas
  • meia-dúzia de policiais medrosos
  • um time de basquete cadeirante
  • um exército de militantes sem-terra
  • uma unidade de androides operários
  • um bando de freiras safadas
  • algum outro grupo excêntrico desse naipe

Escolhido o grupo, ele precisará enfrentar um conflito. Aí é com você. Defina um conflito que acabe por unir aquele grupo, dissolvendo as identidades individuais.

Pode ser poder, amor, dinheiro, sexo, fome, sede, emprego, conquista, viagem, mudança, ódio etc.

Lembre-se: um conflito objetivo (por exemplo, as freiras safadas querem muito violentar um padre, os policiais medrosos estão fugindo de manifestantes malucos, os sem-terra estão matando agroboys nazistas, as crianças surdo-mudas estão em um campeonato de videogames etc etc).

Em no máximo 8 mil toques.

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