Precisa de alguma coisa?

por Américo Paim

Havia pouca gente no amplo escritório naquela hora do sábado, perto do almoço. As horas extras tinham sido reduzidas, mas era fechamento de mês. A luz entrava plena pelos janelões, batendo às costas das pessoas nas mesas dispostas como carteiras de escola, voltadas para a sala onde ficava o chefe, à direita da porta de entrada.

De sua sala, Manfredo Moraes, com quarenta e muitos, alto, aparência de fim de festa e fora de forma, olhava sua equipe. O Sérgio Lima em sua pose tradicional, óculos de leitura presos acima da testa como uma passadeira, olhos vermelhos matinais, mangas de camisa dobradas até os cotovelos e a expressão aflita diante do computador e da papelada dispersa de forma desorganizada como só ele. Hélia Arruda parecia uma pintura, impecável em seus trajes neutros, coque bem centralizado e unhas perfeitas. Só era sem graça, sem sal mesmo. Uma máquina eficiente e só. E tinha o Genival Santos com seu olhar perdido que não se sabia se era ressaca ou leseira. As roupas amarrotadas e a barba que sempre poderia estar melhor feita. O rosto com rugas profundas denunciava o tempo gasto em tantas outras lidas.

Não estavam lá o Raimundo Silva, sempre jovial e engraçadinho, que o chefe achava que não iria durar muito na empresa e o Gerson Coelho, seu preferido, jovem, bonito, inteligente e muito eficaz. Seria seu sucessor, claro. Eles não haviam sido escalados, mas Lisete Cruz, programadora de logística, dinâmica e atraente, mas a seu ver muito limitada, já deveria ter chegado. Estava bem atrasada. Manfredo imaginava que desculpa ela daria. Desde que viesse, tudo bem. Tinha seus planos para ela.

Como toda manhã, o mensageiro do prédio entrou. Naquela manhã ele foi direto à sala da chefia e lhe entregou um envelope de carta, branco, tamanho normal, lacrado com cola. Não havia remetente, nada escrito. Quem trouxe foi um rapaz de moto que ele não conhecia e recomendou que fosse entregue em mãos. Só isso.

Curioso, Manfredo examinou, cheirou o envelope e o colocou contra a luz. Sem pistas. Pôs o mesmo sobre sua mesa e olhou em volta. Todos concentrados no trabalho. Abriu com cuidado. Era uma carta digitada, não manuscrita, em apenas uma folha, frente e verso. Papel branco comum, um A4 dobrado sem muita precisão. Não havia marcas, manchas, data ou nomes e o texto começava com abordagem clara e direta.

Ele entendeu logo que o conteúdo não abriria seu apetite. No primeiro parágrafo, um aviso que Lisete não viria trabalhar. Naquele dia ou em qualquer outro. Estava cansada de tudo e em especial dele, de seu desprezo, maus tratos, abusos e promessas vãs. Chegara ao limite. Ele lia e olhava para a sala. Ninguém agia estranho. Pensou muitas coisas. Talvez fosse porque a ignorasse fora do escritório há mais de dez dias, mas andava cheio das pressões dela por atenção. Chatice aquilo. Ele só queria umas transadinhas aqui e ali. Exagerou nas declarações de amor, é certo, mas no princípio estava empolgado mesmo, o que durou até o terceiro encontro, no máximo. O que ela queria mais?

Só no segundo parágrafo atentou que o texto estava na terceira pessoa. Veio uma desconfiança e se agitou na cadeira velha, que rangia junto com seus dentes. Passou a mão sobre os cabelos engordurados e não foi para pentear. Não entendeu porque não era ela escrevendo. Era sozinha. Quem poderia saber do caso deles? Ou era uma pegadinha? Não é tão esperta assim, pensou. Voltou a olhar em volta. A carta trazia em detalhes os primeiros encontros, nos motéis, no depósito da garagem, no apartamento dela. Lá estavam juras de amor que ele nem lembrava que tinha feito. Não tudo aquilo. Tinha sobre o amor dela, sua entrega e a crença depositada nele. Que mulher apressada, pensou. Se apaixonou fácil. Deu uma risada de quem se acha, mas a sequência do texto mudou seu humor.

O terceiro parágrafo foi o das ofensas. Palavrões à vontade. Ele lia com riso falso, nervoso. Se impressionou com a parte em que o chamava de dissimulado! Achou absurdo. Entendia que ela bem gostava das trepadas e vivia elogiando. Aquele despeito e a raiva eram bem exagerados, avaliou. Não se sentindo confortável com aquela leitura, foi até a copa e a caminho checou se o pessoal o observava. Nada. Bebeu água e reparou que suava. Mesmo assim, levou um café para sua sala. A xícara tremia no pires, mas o ruído não superava o das pessoas digitando ou ao telefone.

No quarto parágrafo, a coisa desandou e ele se ajeitou na cadeira. Ela conhecia o Osvaldo! Na academia em que malhava ela ouviu quando ele contou aos amigos as histórias do Fedinho com uma gostosa no trabalho dele e entendeu de vez porque ele mencionou uma vadia tatuada. Engoliu seco quando no texto foi chamado de desgraçado e filho da puta. Lembrou que só havia falado com o amigo umas duas vezes sobre Lisete. Aquele sacana sempre foi fofoqueiro, refletiu. A essa altura, folgou a gravata e o suor escorria, gotas eventuais molhavam o papel. Sentiu um aperto no peito e o estômago falou. Foi à copa. Já nem olhava mais a sala. Bebeu um copo com água lá e retornou à sua sala com mais dois.

Retomou a carta e a coisa piorou: ela já tinha outra pessoa há mais de um mês. Manfredo fez as contas e concluiu: era corno. Indignado, levantou-se e coçou a cabeça, gesto de instinto. Com o papel na mão, andou de um lado a outro. Agora a equipe o olhava. A cada linha o deboche com a pobreza do seu desempenho na cama e elogios às peripécias sexuais do novo amante. Tinha mais. Com o atual não havia fingimento, mas com ele, várias vezes. Os palavrões de Manfredo já eram ouvidos no salão e as pessoas se entreolhavam.    

O texto mudou de tom e agora o orientava a ações. Ele deveria ir à primeira gaveta da mesa de Lisete. Com medo de não o fazer, abriu a porta da sala em rompante de cólera e foi até lá, onde encontrou um envelope. Abriu e leu ali mesmo. Era a carta de demissão dela. Gritou se alguém sabia onde ela estava. Irritado, não esperou resposta. Voltou à sua sala, para a carta. Sérgio e Hélia se olharam. Genival, de pé em um canto, sorriu discreto.

A devastação continuava. No fim do mês anterior, quando fizeram hora extra noite adentro no escritório e transaram na sala da copiadora, foi tudo gravado por um celular plantado lá um pouco antes. Agora ele deveria ir à segunda gaveta da mesa dela e pegar um pen drive. Descontrolado, correu lá de novo, para espanto das pessoas. Ele já não estava mais com a gravata e a camisa branca, agora fora da calça, era uma enorme mancha de suor. Mal respirava e atravessou o salão de volta xingando. O pen drive tinha um post it com letras coladas: “assista, Manfraco”. Vadia, pensou e depois gritou, já sem se lembrar onde estava.

O filme, curto e editado, fechava com ela olhando sonsa para a câmera. Desmontado, voltou às últimas linhas: uma lista com as várias manobras estranhas dele com notas fiscais frias e acordos escusos com fornecedores. Cópias das provas e as exigências para o silêncio estavam na terceira gaveta da mesa dela, em uma caixa. Voltou ao salão. As pessoas o encaravam. Abriu a gaveta, sentou-se na cadeira dela e boquiaberto leu ali mesmo o bilhete com a chantagem e uma nota à parte para que abrisse a quarta gaveta, o que fez, encontrando a cópia de uma carta que seria enviada a sua esposa, caso não cumprisse as instruções. Mas havia outro envelope junto, lacrado, com seu nome. Abriu e arregalou os olhos quando contemplou uma foto de Lisete e Gerson em um beijo, ambos mostrando o dedo do meio para a câmera. Junto a isso, a carta de demissão do seu favorito, uma facada definitiva.  

Quase rastejou de volta à sala. Sentou-se esgotado, sem rota de fuga. Pouco depois, a porta da sua sala abriu. Era a Hélia. Cheia de dedos, com voz pausada, lhe informou que eles iam almoçar e perguntou se precisava de alguma coisa. Ele começou a gargalhar alto e bater na mesa, sem parar. Ainda foi encontrado assim quando o atendimento médico chegou.

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