Vermelho era sua cor

Foram três diárias do estacionamento de frente para a praia em Ubatuba que Chico teve que pagar para retirar o C3 branco de Carolina e leva-lo de volta a São Paulo. A gasolina era suficiente e ainda sobrava. Ela deixou o carro e entregou as chaves junto com o documento ao moço da guarita. Ele estranhou, mas pegou.

Chico desceu para o litoral no mesmo dia que o corpo de Carolina foi encontrado. Do vestido vermelho de malha e mangas compridas, havia sobrado praticamente só a parte do torso, bastante para identificar que a mulher de meia idade, cabelos castanhos claros na altura do ombro, descalça e unhas pintadas de preto que foi encontrada junto às pedras pelos pescadores era Carolina. Vermelho era sua cor.

Junto à chave do carro, estava a da casa de Carolina. Chico não hesitou em entrar no apartamento da Martim Francisco em que Carolina morava há uns 6 ou 7 anos. De aluguel. Teria, sim, toda a formalidade de família. Os irmãos vão querer ver o apartamento, eles que decidirão o que fazer com os móveis, como encerrar o contrato na imobiliária. Antes que o computador fosse parar na polícia ou com um dos irmãos, Chico decidiu usar a senha que ele tinha. Sempre a digitava na hora de mudar a música conectada nas festas de sexta depois do bar do Juarez: Astrologia1 – assim, com A maiúsculo. Carolina era pisciana, do 14 de março. Nasceu no mesmo dia que Marielle morreu.

O computador estava praticamente vazio de arquivos. A conta no Spotify desativada. Restava a pasta “Documentos” e o ícone pro site do Dropbox. Na primeira, o único arquivo solto, não salvo em subpastas, tinha o título “Nem tudo são flores”.

É solitária a vida da mulher de 40 anos. Aos 30, Carolina já sentia que cada vez menos conseguia criar laços. Nunca foi de muitos namorados. Mas, a cada paquera, atravessava três desertos até achar outro. E se a travessia fosse de 40 dias, já se considerava sortuda – era assim que ela tentava fazer piada com a sua solteirice não convicta. Os paqueras que a deixavam – na maioria das vezes sem nenhum motivo aparente, só por não ser ela a pessoa com quem eles queriam estar: “e já estão transando no dia seguinte”, era a frase que ela mais dizia e que aparece ali no Word que ela tomou o cuidado de colocar em Times New Roman 12, justificado.

Chico passou a mão na testa, como se limpasse o suor. Mas era dia frio, e bateu os dedos na cintura. Carolina poderia se matar por qualquer motivo, menos por causa de homem. E nem era por um específico. Carolina teve uma época muito porra louca quando se separou de Tales. Não sabia parar de correr atrás dele nem quando levava um tombo e esfolava até a cara. Foi aos poucos se centrando, testou diversos empregos e começou a transar muito, também. Dizia a um, nessas palavras mesmo, que se ele não quisesse transar com ela naquela noite, que ela acionaria o outro match do Tinder. E não ficava nem na ameaça, nem na promessa. Carolina, além da agenda cheia de sobrenomes Fulano “Happn” ou Ciclano “Tinder”, mantinha a conversa ativa com vários deles. Naqueles que não dava “like”, tirava print. Fez um catálogo de “tipos” de aplicativo: o da foto com a mãe no perfil; o dono de bulldog francês; o de camisa polo e óculos espelhado – todos com descrições correspondentes à tipologia da imagem.

Carolina, que não sabia calcular nem conta de bar, colocou ali no Word, em números, quantas parcelas não conseguiria pagar se quisesse comprar o apartamento; quais países queria conhecer, mas não conseguiria chegar; o tempo que seu óvulo poderia durar congelado versus o quanto o ato que lhe custou de economia em negronis no Barouche.

Carolina nunca quis ser o tal do padrão, mas sabia que era muito infeliz por saber exatamente como não era. Nem loira odonto, nem de cabelo assimétrico produtora cultural. Nem a mulher que mantém assiduidade na academia, nem as executivas de unha francesinha que tomam café no prédio comercial da rua Minas Gerais. Aos finais de semana, sentia solitude quando se deitava na rede para ler os livros novos da Todavia. Mas nas noites de segunda, quando fechava o computador e procurava outra luz que não a da tela, se sentia abandonada pelo mundo.

Por um tempo, Carolina achou que o mundo pudesse, de fato, estar chegando ao fim. Não do fim da História. Mas como em Melancolia. E quando quase se sentia feliz como Kirsten Dunst, se lembrava que nem a alegria de se vestir de branco a qual sucedia o desgosto de um divórcio ela tinha dado à família. Aliás, da família, Carolina queria pouco saber. Eles a ajudavam, sim. Se davam bem até. Ligavam-se muito. Mas eles, todos eles, os pais e os irmãos, lhe tolhiam a subjetividade. Não foi só uma vez que ela chegou respirando fundo no Juarez, com a mão direita apertando o peito, dizendo que não aguentava mais. No arquivo desabafo, ela não disse que não aguentava mais, mas que sabia que nunca poderia cultivar uma personalidade agradável – pra família?

Personalidade, uma personalidade. Com quantos homens, empregos, cifras e livros se molda alguém aceitável. Dois dias depois o órgão de cultura que Carolina trabalhava foi fechado pelo atual governo e todos os funcionários exonerados. Eles foram avisados de que haveria duras represálias, das quais a prisão seria a menor delas, se houvesse contestação pública.

Deixe um comentário