Hoje vemos o acontecido como uma espécie de disparate, algo que fugia ao padrão daqueles dias e serviu, parece, para introduzir um elemento fantástico à memória dos duros anos da corporação; mas quando os reforços chegaram ao Parque da Luz naquela sinistra noite de mil novecentos e oitenta e oito que preferíamos ter esquecido, nos encontraram amedrontados, chorosos, machucados, famintos e fracos, enfim, numa condição que tem muito pouco a ver, ou nada a ver, com a imagem que construímos quando pensamos num grupo de policiais.
Claro que nós sabíamos da fama de Nilo Müller antes da noite em questão — e é importante que digamos assim: a noite em questão —, sua conturbada viagem de Berlim, no verão que antecedeu em dois anos a queda do muro, ao agreste brasileiro, onde conta-se que degolou seis homens e incendiou um mercado, até chegar ao Rio de Janeiro, e finalmente, São Paulo, esta cidade que mais se parece com um hospício, e foi perfeita para que ele recrutasse ex-seminaristas e os incitasse a cometer atos terroristas, mas nem imaginávamos quão complexo aquele alemão de dois metros de altura poderia ser, e que a nós seria preferível passar uma noite na jaula dos tigres do zoológico do que com aquele homem.
Olhando em retrospecto, num desses encontros com a turma do passado, quando estamos à mesa dum bar ou numa pizzaria, agora que os distintivos todos estão bem guardados e nossas panças se esquentam por dentro da camisa de flanela, nunca conseguimos chegar a um acordo sobre como tudo aquilo começou.
O certo é que os protestos em frente à delegacia tinham iniciado pela manhã, com uns poucos e pacíficos manifestantes jovens que traziam placas e tambores, e foi só quando o sol baixou, enredando a luz pela trama de plátanos e fios de tensão e tornando laranja o segundo que precede o anoitecer, que o grupo de Müller, então chamado de Canzoada II, que constava nos inquéritos ter esse nome em referência a uma ação terrorista que ele organizara em Berlim no final dos anos setenta, a Wolfsrudel, a palavra em alemão para matilha, que as coisas passaram a se complicar.
Na primeira hora da noite, incendiaram uma viatura; a televisão que ficava pregada acima da cabeça do Delegado Affonso — que Deus o tenha —, não noticiava outra coisa que não fosse o escândalo cujo no centro estávamos nós, quatro policiais que, por uma ou outra operação bem sucedida, tínhamos ganhado certa notoriedade um par de meses antes, mas que não tínhamos nem metade da valentia e da esperteza que os jornais inventaram para nós na época.
A delegacia estava um caos de gente entrando e saindo, fumaça, papéis, armas, pagers, cinzeiros, rádios-patrulha, quando Affonso pediu que um tenente nos localizasse e nos levasse até sua sala, e o coitado do tenente nos encontrou à janela da sala de interrogatório, no momento exato em que observávamos um rapaz loiro pichar no muro a insígnia da Canzoada II: a cabeça de um cão com orelhas longas e xizes no lugar dos olhos, e ao dizer que o delegado aguardava por nós, nos deu um susto tão grande que sentimos como se tivesse nos pisado o rabo.
— É o seguinte — começou Affonso quando nos tinha frente a sua mesa, à sombra dum crucifixo enorme pregado na parede —, recebi na rádio da polícia uma mensagem de Müller. Depois de uma sequência de latidos, ele falou que estará aqui em meia hora, para negociar. Mas eu não vou negociar. Vocês vão dar um jeito nele.
Por mais que no final dos anos oitenta a moda fossem as metralhadoras, como uzis e ak-47’s, na noite em questão, vá saber o motivo, todos nós escolhemos modelos de revólveres da Taurus, talvez porque estar com aquelas armas, velhas conhecidas, ao alcance da mão no coldre, nos transmitisse uma ideia maior de segurança, como se todos os elementos que compunham aquele mundo e quem nós éramos não estivessem prestes a mudar, ou então mudariam, e os revólveres, os quatro modelos diferentes, seriam marcas de um mundo anterior, por onde nós tínhamos passado.
Estávamos no subsolo e algum de nós, digamos o Péricles, que sempre foi o mais metódico, registrava a ocorrência e o horário de nossa saída na tabuleta pregada na parte interna do armário, quando o mesmo tenente de antes, ao modo de um arcanjo em dia de anunciação, parou a meio caminho da escada e disse:
— Vocês quatro, novidades. Delegado Affonso falou que, seja lá o que você forem fazer, façam à paisana. Entendido?
Imaginamos então que Affonso buscava com isso evitar manchetes sensacionalistas na manhã seguinte, e nem nos passou pela cabeça, naquele momento em que trocávamos as fardas por paletós de tweed, camisetas e calças jeans, que paisana significava anonimato, e que se Nilo Müller por acaso nos assassinasse, o que de fato não era impossível, entraríamos na conta como civis inocentes e quem sabe isso aceleraria o processo de sua prisão e até pena de morte, cuja alteração da lei era propriedade na agenda de Affonso, naquele papo de limpar as ruas.
Já estava bem escuro quando saímos pela porta dos fundos da unidade e arrancamos com o Ford Escort preto do Sebastião, o Sebas, o único que ia para a delegacia com veículo próprio, e fizemos um balão para embicar no meio do protesto; estávamos todos nervosos, manchando as camisas de suor, e o estouro do escapamento causou um mau-estar que nem mesmo o crucifixo pendurado no retrovisor conseguiu dissolver.
O caso é que antes de chegarmos ao cerne do conflito, parados no sinal vermelho de um dos cruzamentos, avistamos Müller do outro lado da rua, gigante e magro, com os cabelos dourados penteados para trás, as mãos metidas em seu blusão de camurça e um cigarro nos lábios, como se estivesse ali a passeio, apenas esperando o cigarro terminar para voltar a uma sessão de cinema.
Sebas fez que ia encostar, abriu o vidro, e antes que o assassino alemão pudesse falar alguma coisa, se bem que é possível que ele tenha dito algo, tipo “perdeu o cu na minha cara?”, com o sotaque que até hoje ressoa feito lenda nas delegacias do país e dá ritmo aos pesadelos de quem integrou a corporação naqueles anos finais da ditadura, dois de nós, creio que Cabeção e eu, saímos com armas em punho, metemos um saco em sua cabeça e algemamos as mãos nas costas.
Com Müller meio desmaiado no banco traseiro, Sebas jogou o carro na multidão, que nos recebeu a garrafadas e gritos, deu um cavalo de pau e arrancou em direção ao centro da cidade.
Hoje compreendemos que fomos tomados por uma certa pretensão heroica na noite em questão, e foi ela que nos arruinou, porque em vez de estourarmos os miolos daquele psicopata quando tivemos a chance, seguimos rumo à Praça da Luz, afinal, tínhamos todo o tempo do mundo, e uma boa história não cairia mal à imprensa; pensamos em condecorações, prêmios, promoções, bônus, viagens, mas só o que conseguimos foi uma estranha história para relembrar quando os garçons começam a virar as cadeiras de ponta cabeça sobre as mesas da pizzaria.
Àquela hora, o parque era habitado apenas por vultos de seres subterrâneos, pessoas renegadas pela sociedade e que vivem às sombras de árvores noturnas, cantando clientes e negociações de todo tipo — mas ainda elas pareciam ausentes quando Sebas estacionou o Ford ao pé de uma corticeira, na zona mais escura, e nós saímos com nossas lanternas empurrando Müller para uma clareira entre as árvores que se abria para uma trilha até o lago e nos pareceu o lugar mais secreto e silencioso da cidade.
Quando finalmente tiramos o saco da cabeça de Müller — com ele ajoelhado a nossa frente, e nós quatro formando um semicírculo —, ele estava de olhos muito abertos e sorria. Todos tomamos um susto, e de repente foi como se percebêssemos outra vez como éramos medrosos. Passado um segundo, ele esticou o pescoço, mirou a lua cheia entre as copas das árvores e soltou um uivo.
A manchete do dia seguinte, a maldita manchete que nos tirou a licença para porte de armas e nos trancou numa espiral de escritórios e almoxarifados, era mais ou menos assim:
NILO MÜLLER E CANZOADA II FAZEM MAIS UMA VÍTIMA
ENQUANTO QUATRO POLICIAIS LEVAM CACHORRO PARA PASSEIO
Ao amanhecer, quando os reforços que tínhamos acionado pela radiopatrulha em algum ponto da noite em questão chegaram, fomos encontrados sentados sobre o cascalho com um pastor alemão baleado aos nossos pés.
Só muito mais tarde soubemos que enquanto o Ford Escort preto avançava pelas ruas noturnas, Nilo Müller, acompanhado de dois ex-seminaristas de menos de vinte anos, entrou pelos fundos da delegacia, foi até o gabinete principal e assassinou o Delegado Affonso com vinte e quatro tiros.
