Calunguinhas

por Américo Paim

Nós três sentamos e ouvimos as ideias do chefe, Seu Antônio Comprido, sujeito alto, forte e mandão, com voz de boiada, sempre com a camisa do clube, listrada em vermelho e branco. O plano veio à cabeça dele após longa conversa com o técnico e os jogadores, ainda no vestiário, depois que o time venceu a semifinal. Foi isso que nos contou naquele salão grande, sujo e escuro, cheio de cacareco, nos fundos do depósito antigo, quase no muro que dá para a rua do canal. Estávamos nervosos com o assunto e o ambiente e até ouvimos uns barulhos estranhos, mas achamos ser coisa de ratos, o que não seria surpresa naquela bagunça.

Começou dizendo que nos escolheu porque éramos de confiança. A tarefa era difícil e tínhamos que guardar segredo. Não era para falar nem com a mulher. Nem dormindo! Contou toda a história do Canelito Futebol Clube, desde a fundação em 1950, trinta anos antes. Falou que o time era o orgulho de Pedra Velha, ele era o vigésimo presidente e que tinha ouvido de uma cigana no Bairro Alto que aquele seria, enfim, o ano do acesso à quarta divisão! Ele sentia isso e agora só faltava a grande final.

Ouvimos que ele confiava no trabalho do técnico Edson Galo Doido e no talento do time, que achava arrumadinho. Acontece que viu nos jogadores e do treinador uma grande preocupação: o craque do outro time jogava muito, um monstro. O time teria que fazer tudo certo, mas o adversário, o Esportivo Rio do Norte, lá de Serra Quente, tinha o Mingo. Se aquele cara jogasse o que sabia, já era. Um de nós até começou a contar sobre as histórias que ouviu de um jogo dele, mas Seu Antônio cortou, bruto. Nunca esqueceremos o olhar frio e maldoso que ele nos lançou ao dizer que o cabra não podia entrar em campo. Nem todos entendemos do mesmo jeito, mas bateu muito medo.

Após todos os detalhes, saímos e fomos trocar uma ideia sobre tudo aquilo. A grana era boa e quase nenhum risco. A concentração na véspera do jogo só começaria às 20:00h, segundo foi apurado. A gente levaria o rapaz pra um bar. Sabendo que ele era chegado a um rabo de saia, ia ter uma criatura filhote de demônio pra encher a caveira dele de planos e cachaça e sair dali pra um canto combinado. Quando chegassem lá, teria mais birita e umas pílulas pra dormir. Ele só ia sair inteiro bem depois da hora do jogo no domingo.

Um de nós iria à casa do cara como portador de uma mensagem bem escrita propondo uma conversa de contrato de futebol em uma entrevista que aconteceria no bar. O outro seria o empresário no bar, acompanhado da tal maravilhosa e o terceiro cuidaria dos detalhes da casa em que os pombinhos iriam terminar a noite, dos comprimidos e do transporte. Tudo isso em Serra Quente, onde seria a final. Tudo acordado, tiramos no palitinho a parte de cada um. Teve alguma confusão, mas no fim nos entendemos.

Na manhã do sábado, véspera do jogo, em um carro que o chefão arranjou, saímos de Pedra Velha no horário combinado. Nos oitenta quilômetros de estrada de terra correu tudo bem e chegamos até cedo. Nos hospedamos na pensão reservada. Cada um saiu para os preparativos de sua parte e nos encontraríamos para almoçar dali a uma hora. O que seria o mensageiro pegou o bilhete que já estava pronto e lhe foi passado em mãos pela secretária do chefe e seguiu para o endereço que ela deu. O falso empresário foi ao bar onde aconteceria o encontro para estudar o lugar e saber de alguma bonitona disposta a uma grana fácil. O outro foi ao local onde aconteceria o fim da noitada para plantar as bebidas e os remedinhos.

Com tudo resolvido, fomos almoçar. Dona Alexandrina, proprietária da pensão, uma senhora baixinha, silenciosa e simpática, informou que o encanamento da cozinha estava em reforma e nos indicou um restaurante ali perto, que era do irmão dela, dizendo que era ótimo. Fomos andando. O local estava cheio e animado. Tinha tempo sobrando, então abrimos os trabalhos com umas branquinhas, seguidas de cervejas, uma atrás da outra. Lá pelas quatro da tarde, já bem alegrinhos, chegou à nossa mesa o dono, Seu Arquimedes, sujeito suado, conversador e divertido. Não conseguíamos parar de rir com as histórias do homem. E tome cerveja. Ninguém conferia o relógio. De uma hora pra outra, apareceram três mulheres, cheias de conversa. Ele nos apresentou às moças. Nossa única ação foi descer mais cerveja. Elas ficavam se insinuando e logo ninguém pensava em nada que não fosse sair dali com as moças para terminar a história com chave de ouro. A bebedeira continuou firme e só lembramos até aí.

Acordamos quase ao mesmo tempo, todos no chão. O calor e a dor de cabeça de ressaca eram grandes. Um de nós reconheceu o lugar: o cafofo em que o jogador deveria terminar a noite! Nos perguntamos como fomos parar ali. Estávamos ferrados. Nenhum de nós tinha a menor ideia de que horas eram – nossos relógios não estavam conosco. Abrimos a porta da pequena casa no meio do nada e pela posição do sol já era pelo menos meio da tarde. Resolvemos sair logo e tentar uma carona para voltar à pensão. Soubemos que era domingo pelo motorista da caminhonete cheia de galinhas em gaiolas que nos ajudou. Chegamos a nosso destino quase às 17:00h. Dona Alexandrina nos olhava como que desconfiada. Havia uma mensagem deixada pelo chefe. Ele tinha passado lá por volta de 15:00h. O conteúdo era claro: esperava que nossa tarefa tivesse sido realizada. O carro ainda estava lá. Nosso pensamento foi um só: vazar enquanto dava. Depois a gente se acertava com o homem. Naquela hora não dava pra falar com ele.

Tomamos o rumo de Pedra Velha. Como vacilamos assim? Fizemos tudo certo até o restaurante. Bebemos demais, isso era certo, mas o que aconteceu? A polícia rodoviária nos parou na estrada e ao abrirmos o porta-luvas para pegar os documentos do carro, encontramos, surpresos, nossos relógios. Junto com eles, um bilhete escrito com uma letra bonita dizendo que o que quase fizemos teria sido uma vergonha. Continuamos na ignorância, mas agora estávamos ainda mais preocupados. Alguém mais sabia do plano.

Cada um foi para sua casa ruminar a situação e combinamos voltar ao clube na manhã seguinte, o que foi feito. Chegamos por volta de 10:00h da segunda-feira e fomos direto à presidência. Estranhamos a sala de espera vazia. Decidimos sentar e esperar. Uns dez minutos depois, chegou o Edmundo, supervisor de futebol. Ele nos olhou com surpresa. Disse que achava que o chefão não ia dar as caras por lá e que era muita coragem nossa aparecer ali. Informou também que Vanessa, a secretária de nariz fino e olhar curioso, tinha ido embora. Não trabalhava mais no clube. Sem entendermos nada e muito estressados, perguntamos o que tinha acontecido. Ele contou tudo que ouviu da moça, mais cedo naquele dia.

Vanessa trabalhava no clube há quatro meses. Antes de vir para cá, morava em Serra Quente, onde sua mãe viúva tinha uma pensão e seu tio um restaurante. Seu irmão também morava lá, sozinho. Há umas semanas ela começou um caso com um homem que trabalhava no clube, mas não iria contar quem era ele. Às vezes se encontravam no salão do antigo depósito. Estavam lá quando Seu Antônio chegou com três homens e os quatro tramaram um plano para o jogo final. Escutaram tudo. O amante tentou fazer com que ela não vazasse o que ouviram, mas ela ameaçou revelar sua identidade e ele recuou. Quando o presidente lhe passou um bilhete para ser entregue a nós, ela não teve dúvidas. Abriu, leu o conteúdo, rasgou e o substituiu por outro que escreveu contando ao jogador do time, que era o seu irmão, tudo que estava para acontecer. Ele acionou a mãe e o tio, que bolaram a artimanha de embebedar e dopar os três homens até que o jogo tivesse acabado.

Nesse ponto final da história lembramos do barulho estranho no salão e alguém falou que, tudo explicado e reparando bem, a moça tinha até uma cara de calunga. Ninguém riu.

A final? Ah, foi 5×1 pro outro time. Mingo fez três gols e acabou com o jogo.

Deixe um comentário