Caro diário

Ricardo Piglia, vocês sabem, abre meu curso Contos Para o Próximo Milênio com suas essenciais “Teses sobre o conto” extraídas do livro Formas Breves (pra quem não leu: é o primeiro post deste site). Nele, o escritor argentino discorre sobre como todo conto encerra duas histórias, uma visível e outra invisível – e é mais ou menos em cima desta teoria que fundamentamos tudo o que viemos escrevendo aqui.

O que não se sabia com muita clareza é que, em Piglia, todo narrador encerra dois narradores: um visível e outro invisível. O visível, no caso da obra de Piglia, é Emilio Renzi, um nome tirado de seu próprio nome – Ricardo Emilio Piglia Renzi. Emilio Renzi seria o alter ego de Piglia, ou o contrário? No recém-lançado Anos de Formação – Os Diários de Emilio Renzi (Todavia), estão reunidos dez anos dos diários que Piglia manteve, desde que começou a escrever, ininterruptamente, até sua morte, em 2017. Dos 16 aos 73 anos, preencheu 327 cadernos idênticos (sobre eles há o documentário 327 Cuadernos) em que o protagonista é sempre Renzi, ora visto pela primeira ora pela terceira pessoa.

A formação do self, a distância entre protagonista, narrador e autor, a criação da persona literária (ou do eu-poético), a ética da confissão (em que o narrador pressupõe inventar histórias para si mesmo), a investigação da verdadeira matéria da realidade e a desconfiança sobre a própria impostura em apresentar-se ao público são alguns dos temas do autor de Nome Falso. O diário, para Piglia, é tanto a máquina que faz girar o romancista quanto o espelho em que o homem se constrói – e ele só se constrói à medida em que escreve e em que se descreve.

Não por acaso Piglia abre seu diário com uma citação de Proust: “A felicidade é a multiplicação possível de si mesmo” (À Sombra das Raparigas em Flor). Proust é um exemplo extremo de escritor que usou sua própria vida como plataforma para a ficção, produzindo autoficção (no Brasil tivemos Pedro Nava; hoje o expoente mundial deste subgênero é Karl Ove Knausgard). Em seu diário, Piglia coloca em crise o motivo básico para manter um caderno de registros: para quem um diário é escrito? Para si mesmo? Para a posteridade? Como ser honesto, transparente, verdadeiro? Até que ponto a confissão em si não é uma estratégia de invenção?

O grande cronista Antônio Maria também manteve um jornal durante alguns meses de 1957 – curiosamente, mesmo ano em que Piglia começa o seu diário -, e o resultado é assombroso no pacto de honestidade que trava com o leitor (saiu pela Civilização Brasileira). Ali estão infidelidades, inseguranças, bravatas e um travo de amargura inexistente nas leves crônicas que escreveu em sua curta e trepidante vida. Maria escrevia um diário sombrio e seco para compensar o bom humor e a doçura de suas crõnicas.

Para Piglia, o diário também era um laboratório de escrita, porque ali ele juntava citações, reflexões sobre os livros que estava lendo, anotava ideias para contos e romances, rabiscava teses que mais tarde se tornariam artigos e ensaios. No entanto, próximo da morte, ele notou que havia escrito uma espécie de autobiografia em progresso, um livro que reunia todas as suas vidas possíveis, reais ou imaginadas.

Este primeiro volume abre com uma nota em que Piglia reflete sobre como começou a escrever seu diário. Em seguida, no texto “Na soleira”, o Piglia velho revisita o Piglia criança, que teria sido visitado por Borges aos 3 anos de idade. (Borges e Ricardo Arlt serão os nomes mais citados ao longo dos diários. Ambos escritores nascidos em 1899, são diametralmente opostos dentro da literatura argentina, mas se encontram na escrita de Piglia.)

PROPOSTA

E é isso o que você vai fazer.

Seu conto vai ser escrito em forma de meu querido diário.

No início do estranho relato aí de cima Piglia comenta que “vivia duas vidas em duas cidades como se fosse dois sujeitos diferentes”: é aí que está a história secreta do conto dele. A história de um homem que passa, através de quartos de hotel, de um mundo a outro. Vamos pegar essa chave de interpretação como um mote para nosso conto.

“Não é raro encontrar um estranho duas vezes em duas cidades”, diz Piglia. Bem, pode não ser muito raro, mas também não é nada corriqueiro.

Assim, em seu conto você vai partir desta premissa: encontrar um estranho em duas cidades. Este é o conflito.

Para isso, você recorrerá a memórias e lembranças de coisas que realmente aconteceram com vocêO narrador é você mesmo, e a vida é a sua vida. Procure não justificar muito as coisas estranhas que você for contar.

Tente entender o que acontece na cabeça do(a) narrador (a) depois desses encontros estranhos. Mas nunca se desvie muito das ações.

Um diário é uma mistura de registro de coisas que aconteceram e das reflexões muito íntimas, transparentes e honestas da pessoa que está escrevendo.

Lembre do truque de Piglia: “Explicações eu não tenho (….) Eu estava dentro de um mundo cindido“.

forma do seu conto será a de um diário. Escreva de um modo objetivo, direto e claro, sem muita firula. Escreva um relato seco e sincero do que aconteceu a você. Você pode escrever em várias horas no mesmo dia, ou em vários dias da semana, ou meses, ou até mesmo anos…

Mas o texto vai ser sempre o de um diário, escrito na primeira pessoa.

Em no máximo 9 mil toques.

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