O TRAMBOLHO AZUL

Silvia Argenta

Vó Zaga era uma exceção no conjunto habitacional onde morava. Vivia sozinha no 302G e recebia a pensão do ex-marido, falecido há dez anos. Nos outros apartamentos, as famílias eram numerosas e agitavam o condomínio do subúrbio, formado por prédios de altura mediana pintados de branco e dispostos lado a lado. Apesar de tanta gente, não se via ninguém nas sacadas, já que elas eram ocupadas pelos varais de chão. Nada de varal de corda porque o síndico não deixava. Não sabemos como ela dava conta de trabalhar e ainda seguir as regras do condomínio, mas o fato é que toda semana, sem falta, nossos uniformes estavam lavados.

Para juntar mais uma grana, pegou um bico de lavadeira há dois anos. Adotou um método de identificação dos doze jogadores, fazendo marcações das iniciais do nome e sobrenome nas etiquetas das roupas. Assim, nós sabíamos o que pertencia a quem. Com tudo organizado, ela colocava no carrinho de feira as camisas, shorts e meias dobrados. Depois, atravessava o condomínio e a rua, sempre às quartas, para nos entregar os uniformes vermelhos na quadra de futsal. Quando dava tempo, levava até bolo de aipim, que comíamos depois do jogo.

O cheiro de amaciante não durava um minuto. Antes de o juiz apitar o início da partida, pontualmente às 19 horas, o pequeno Manoel Tobias já estava impregnado com nossa catinga de suor. No aquecimento mesmo, dava para notar a pizza que manchava o poliéster embaixo dos nossos braços. O time, os Secadores, apesar de campeão na temporada passada, tinha dinheiro para muito pouco. Não investimos em técnico e decidimos que valia a pena contratar uma pessoa para cuidar de nossas roupas. E vó Zaga fazia isso como ninguém. Nem reclamava do cecê dos jovens de vinte anos. Dizia que se a gente jogasse na lama seu trabalho seria muito pior.

Era segunda-feira quando Vó Zaga nos mandou um áudio no grupo de whats. Não sabia o que fazer porque sua máquina de lavar roupa estragou e não conseguiu nenhum técnico para ir até sua casa. Esfregou todo o uniforme à mão, mas o dia chuvoso não colaborou para secar a roupa. Fizemos um sorteio entre os doze jogadores. Nós três, Cadu atacante, Vandré goleiro e Matias reserva, acabamos escolhidos para resolver o pepino. Na quarta todos os uniformes deveriam estar impecáveis para a grande final. Tínhamos chance de subir para a terceira divisão.

Chegamos de noite ao 302G e logo sentimos cheiro de cachorro molhado. Sem a máquina, a força dos braços setentões de vó Zaga não foi suficiente para torcer muito bem as roupas. Ela estava arqueada em cima do tanque lavando as últimas meias e só parava o serviço para puxar o cabelo branco para trás com a mão ensaboada. A parte da frente do seu vestido florido de viscose estava ensopada. Reclamou até de torcicolo de tão nervosa. A chuva encharcou a sacada, então as peças vermelhas estavam por todo o pequeno apartamento, penduradas atrás da geladeira, nas cadeiras, na cabeceira da cama e no varão do box. Embaixo do varal de chão bem no meio da sala, entre o sofá e a televisão, se formou uma poça com a água que escorria das camisas lavadas.

Pedimos a bença, fomos até a área de serviço e tentamos mexer na máquina de um botão e abertura superior, que deve ter feito sucesso há trinta anos, quando foi lançada. Parecia ter sido fabricada sob medida para caber no cômodo. Afastamos o trambolho azul para tirar a carcaça e checar as engrenagens com o alicate que já estava ali à nossa espera. Não entendíamos nada daquilo e depois de uma hora demos os braços a torcer. Tínhamos de achar alguma solução. Percebendo nosso esforço, ela nos ofereceu suco Tang de uva diluído, servido nos copos de requeijão. Só nessa pausa que ela nos disse que de tarde havia interfonado para o síndico, dono de uma empresa de conserto de eletrodomésticos, mas ele contou que tinha fechado o negócio e não podia fazer nada. Resolvemos interfonar de novo. Ele ficou no maior caô enrolando, talvez para valorizar o passe, até que se convenceu de que poderia fazer o frila, depois de tanto insistirmos na importância do título que podíamos ganhar.

Em menos de dez minutos, entrou no apartamento, deitou atrás da máquina, molhou o chão todo, se molhou todo, aquela confusão que todo técnico consegue fazer. Deu o diagnóstico: correia, coisa fácil. Vó Zaga se assustou com o valor do conserto, mas não tinha outra coisa a fazer. Sem dinheiro para comprar uma máquina nova, deu um cheque da Caixa Econômica ao síndico, que prometeu que no dia seguinte compraria a nova peça e a instalaria. Tudo resolvido, voltamos para nossas casas focados no jogo da final.

Na terça, Vó Zaga esperou pelo síndico até o meio-dia e nada de ele aparecer. Nos mandou um áudio se desculpando, mas as roupas ainda não tinham secado. Chovia bastante. Ela estava preocupada porque não podíamos jogar sem os uniformes. Era contra as regras da Federação Suburbana de Futsal. A final seria no dia seguinte, então fomos de tarde até o apartamento dela para buscar as roupas e levá-las numa lavanderia, mesmo sem termos dinheiro para pagar. Precisávamos dar um jeito. Mas antes tínhamos de meter uma prensa no síndico.

Assim que chegamos ao condomínio, fomos ao apartamento dele para cobrar o porquê deixou a senhorinha na mão. Tocamos a campainha e ninguém atendeu. O jardineiro, integrante da nossa torcida organizada, nos avisou que o malandro tinha ido viajar com a família. Saiu bem cedo. Como o apartamento era no térreo, vimos pela janela que a máquina de lavar roupa dele era igualzinha à da Vó Zaga. I-gual-zi-nha. O trambolho azul era inconfundível. Não tinha erro. Ficamos de butuca esperando acalmar o movimento do condomínio. Mais tarde, não havia mais pessoas circulando, tinha parado de chover, já era noite, hora de por o plano ninja em prática.

Com a desenvoltura de contorcionistas, entramos no apartamento do síndico pela janela basculante da área de serviço, que estava só encostada. Encontramos a chave da porta de entrada em cima da geladeira. Com isso, podíamos continuar a saga. Fomos para o abraço. Desinstalamos o trambolho do infeliz, deixamos a mangueira dele para ele não desconfiar de nada e checamos se havia roupa dentro. Tiramos a máquina pela porta e a escondemos no meio de uns arbustos rente ao muro de trás do prédio. O porteiro percebeu a movimentação e foi dar um confere. Saímos em debandada, cada um em uma direção, mas ele não se importou e voltou para a guarita.

Nos reunimos de novo, fomos até o 302G e falamos para vó Zaga que íamos consertar a máquina dela no jardim do condomínio porque tinha mais espaço. Ela concordou. Tudo certo para a troca dos trambolhos. Difícil foi subirmos três andares com aquele troço. Precisamos revezar quem carregava a parte de trás, mais pesada. Os braços tremiam e tínhamos medo de rolar escada abaixo e nos machucarmos, fora o prejuízo com o aparelho. Enfim conseguimos chegar ao terceiro andar e instalar o trambolho. Fizemos as ligações na tomada e na mangueira. Voltamos para a casa do síndico, ajeitamos a instalação e aproveitamos para tomar um guaraná. Enchemos a garrafa do refrigerante com água, fechamos a porta do apartamento por dentro, deixamos a chave em cima da geladeira e saímos pela basculante. O plano para economizar com a lavanderia foi um sucesso. Gênios.

O trambolho do térreo estava em boas mãos, afinal o síndico já sabia a peça que precisava trocar. O trambolho do 302G voltou a funcionar. Era onze da noite de terça quando vó Zaga recolheu as roupas espalhadas pelo apartamento e jogou tudo de volta para lavar. Ela estranhou que a máquina estava diferente porque a centrífuga torceu os uniformes como não via há muito tempo. Passou a noite batendo roupa e estendendo na sacada tanto no varal de chão quanto no varal de corda. O síndico não estava ali mesmo. Na quarta, fez um dia de rachar e as roupas secaram rapidinho. Logo cedo ela ligou para o banco e sustou o cheque que havia entregado para o vacilão. Arrumou os uniformes e nos entregou de noite na quadra de futsal. Dessa vez, vó Zaga trouxe para gente um bolo de chocolate e ficou para ver o jogo. Agora era torcer.

Deixe um comentário