Um envelope fora do lugar
Helô Mello
Camila acordou de ressaca. Tinham bebido muito na noite anterior, proporcional a briga que tiveram. Se olhou de relance no espelho, a caminho do banheiro, e achou melhor tomar um café forte antes de retomar a vida. Usava uma camiseta regata branca de algodão. Paulo gostava quando ela dormia assim. Com passos incertos foi caminhando para a cozinha, desviando dos cacos espalhados no chão. Mau sinal. As primeiras memórias se instalaram na sua frente, como as páginas de um foto-livro malcuidado.
Com o café entre as mãos, esparramou-se no sofá. A janela dava para o jardim, e espiou a horta onde Paulo cultivou cebolas, salsinha e hortelã, para o seu chá do final da tarde, ele costumava dizer. Os pés de alface já estavam no ponto para colher. Paulo se foi sem experimentar as folhas crocantes. Partiu no meio da noite. Não sabia dizer se era tristeza que sentia ou melancolia. Até se davam bem. Camila achava divertido o jeito dele, tão diferente dela.
Os passarinhos faziam uma algazarra no jardim. Foi quando viu o envelope. Olhou seu celular, mas não havia mensagens. Na sala, agora muda, só aquele papel dobrado, que um dia foi branco, amassado nas pontas, sobre a mesa, pedindo atenção.
Tinham começado bem a noite passada. Depois do jantar no Namaste, voltaram rindo e tropeçando pelas ruas de Gonçalves quase ate chegar na sua casa. Demoraram mais por conta da cachaça e das ladeiras. Ao chegar ainda tomaram umas cervejas.
O envelope parecia desafiá-la, e ela resistia. Não sabia bem por que, mas tinha uma desconfiança de que as coisas iam mudar ao abri-lo. Era um envelope que caberia no bolso, mas tinha alguma coisa volumosa dentro. Queria postergar a sua abertura, como se ele fosse o mensageiro de más notícias.
Decidiu tomar banho primeiro. Um banho longo, com água escorrendo, na tentativa de lavar os maus pressentimentos. Deixou a água encharcar os cabelos, descer pelo rosto. Reparou nas marcas de sol no corpo longilíneo, testemunha da sua ida ontem na cachoeira. Os turistas não conheciam a trilha das Bromélias, o que mantinha essa cachoeira mais deserta, ainda que distante.
O celular tocou. Devia ser Paulo avisando que estava chegando com um pão para o café. Saiu pingando pela sala atrás do celular, mas não deu tempo de atender. Caiu na caixa. Não era ele. Era Valeria, sua amiga, que deixou uma mensagem lembrando que esperava o casal no final da tarde no seu sítio. Nada dele. No chão, cacos dos copos, poças d’água e migalhas de acusações. Na horta, cebolas enterradas. Pensou que ficariam embaixo da terra por muito tempo. Seu pé de hortelã talvez secasse, assim como queria deixar o envelope murchar.
Colocou o vestido azul que Paulo gostava. Estava com ele quando se conheceram no mesmo restaurante que jantaram ontem. Eram muito diferentes, mas ela achava graça. Não ia mudar seu jeito por causa dele, ainda que algumas vezes ele tentava enquadrá-la. Fingia não compreender, ria de si mesma e a vida seguia. Ela ventania, ele sépia.
O envelope estava um pouco rasgado no canto. Devia estar naquela mochila que Paulo insistia carregar, cheia de coisas inúteis, além da sua câmera fotográfica. Nunca viu suas fotos. Analógicas, se mantinham negativos, espremidos em cilindros rebobinados, sem revelar o que elas contavam. Eram imagens capturadas e invisíveis, quase como ele. O dia de revelar os filmes e a sua vida nunca chegavam e os rolinhos se acumulavam, solitários, naquela mochila cada vez mais pesada.
Não tomou café e não quis almoçar. Ficou se preparando para o momento de abrir o envelope. Espiava, só pelo canto do olho, disfarçando, como se pudesse ser pega em flagrante. Quando a fome bateu, já era tarde, fez uns ovos e comeu junto com o pão integral e a geleia preferida dele. A vingança. Raspou o pote que estava pela metade. Reciclou o vidro, sem deixar pistas.
Tinha flashes de cenas incômodas, da discussão cinza, na noite anterior. Preferia ignorar. Mas a raiva insistia em se instalar. Paulo não estava mais lá, só o envelope se expandindo para além da mesa. Como se quisesse impor a sua presença. Mal se conheceram e foram morar juntos. Não era a primeira vez que dividia sua casa. Chico ficou um tempo morando com ela e Valeria, sua amiga, nesse mesmo lugar. Formaram um trio cachoeira, brincavam: cheio de pedras e quedas d’agua no percurso. Valeria se mudou quando conheceu Alberto e Chico arrumou um freela e voltou para o Rio em seguida.
Há uma semana atrás Chico mandou uma mensagem que iria passar um tempo em Gonçalves. Talvez por uns dias, quem sabe mais. Estava sem serviço. Trabalhava o necessário para poder fazer nada por uns meses. Tinha bons amigos, talento para escrita e conexões. Era fácil fazer bicos de revisor ou de Ghostwriter. Chico, como ela, não exigia fidelidade nas relações, era bem aberto a outras vivências. Paulo não poderia compreender essa proposta. Foi tropeçando nas pedras de Gonçalves, na volta para casa da noite anterior, que ela contou da volta de Chico. As mãos dadas se largaram e voaram longe, se agitaram. As palavras despedaçavam a relação, que ficava esquecida pelo caminho.
O que haveria no envelope? As imagens remendadas da noite de ontem? Paulo não era de escrever. Olhou novamente a horta. Rompeu de uma vez o lacre do envelope sujo. Duas fotos preto e branco, antigas e amassadas, insistiam em fazer algum sentido. Às vezes as palavras demoram para ingressar na realidade. Às vezes, a ausência demora a converter-se em palavras, assim como aquele par de imagens. Precisaria decantar as fotos e a relação, mas de alguma maneira sabia que ele não iria voltar. Paulo esperava que ela o procurasse, mas isso não ia acontecer. Chico estava voltando. Eram a favor do poliamor e de deixar a vida fluir, como na cachoeira, nunca se mergulha na mesma água. As alfaces estavam frescas. Faria uma linda salada.
