CACHU, MACARRÃO COM SALSICHA E UIVOS

Silvia Argenta

Quarta-feira, 17 de abril de 2019

22h36 – Lu fala umas coisas que confesso que não entendo 🤔 Hoje comentou que o “biógrafo” dele está de parabéns. Biógrafo, a.k.a Deus, Alá, Buda… Nos delírios dele, disse que adora as “surpresas que o destino reservou para ele”. Como é que pode? Soa até clichê. Ele já fez algumas coisas interessantes na vida, mas nada de mais. Pulou de paraquedas, é chegado num MD, conhece alguns músicos famosos. Tenho dúvidas se isso preencheria um livro bom, só que ele é orgulhoso da vida que tem. Penso que a minha vida é muito mais instigante do que a dele e mesmo assim nunca me passou pela cabeça esse orgulho de ter uma biografia para inflar o ego. Será que ele tem a ambição mesmo de contratar alguém para escrever sobre ele, um reles pós-adolescente? Não acho saudável eu pensar isso no início de um namoro, mas só pode ser autoestima do homem hetero. Ou eu que sou crítica demais? Ou me falta amor próprio? Quem quer saber da minha vida? Sei lá…

***Amanhã vamos para Alfredo Wagner acampar juntos pela primeira vez. ❤️

Quinta-feira, 18 de abril de 2019

21h12 – Logo cedo, encontramos a Van e o Zé na rodoviária. Uma hora depois chegamos em AW. Não demorou muito e conseguimos uma carona até o parque. Viemos os quatro em cima da carroceria da camionete de um agricultor que mora perto. Depois de passarmos pela estrada de chão estreita e cheia de buracos e curvas, ele nos deixou na entrada do parque e caminhamos meia hora com as mochilas nas costas. O descampado onde montamos as barracas está cheio de gente por causa do feriado de páscoa. No jantar, o macarrão com salsicha enlatada do Lu, feito no fogãozinho a gás da Van, foi aprovado. 👌 #nhamnham

Sexta-feira, 19 de abril de 2019

20h19 – Cachu e macarrão com salsicha 🍝

Sábado, 20 de abril de 2019

21h30 – Cachu e macarrão com salsicha 🍝

Domingo, 21 de abril de 2019

22h02 – Passei uns dias sem anotar detalhes pois simplesmente deslumbrada com a natureza. 🌿 Aqui é muito alto, então faz bastante frio. Mesmo assim, nos esbaldamos com os banhos nas cachoeiras para esfriar o corpo quente das trilhas. Conhecemos vários estudantes de biologia, que estão fazendo pesquisas sobre a fauna das montanhas. 🤓 Em todas essas noites, ouvi bichos cheirando a barraca. Disseram que são os gatos-do-mato. Não abri o zíper da barraca por nada. Não posso nem imaginar o bafo quente deles em cima de mim. Fiquei encolhida no saco de dormir. E vou ficar mais encolhida ainda a partir de agora. Como amanhã é segunda, todos os universitários foram embora para as suas cidades. Só sobraram nós e uma barraca verde e pequena aparentemente sem dono. Só pode ser de criança ou anão. Vamos ficar mais uns dias, desde que não chova.

*** Lu estava tão lindo hoje ❤️

Segunda-feira, 22 de abril de 2019

21h53 – Fiquei chocaaaaada com o que vi hoje. A barraca pequena não é de criança nem de anão. Bem cedinho, ouvimos o barulho do zíper e enxergamos um homem de um metro e noventa. É um cara velho, de uns quarenta anos, bem alemãozão. Acho que de tão curiosos que estávamos, ele veio conversar. Entre um gole e outro de café, contou que largou a vida na Polônia para andar pelo mundo. Já está aqui em AW há um mês, conhecendo as plantas e os bichos. Caminha sozinho enfurnado no meio do mato e não fala português. Apesar do sotaque bem enrolado, conseguimos nos comunicar em inglês. Perguntei como ele dormia naquela barraca tão minúscula, e ele disse que fica em posição fetal em cima das suas roupas e não se mexe durante a noite toda. Cada um com suas esquisitices. 🤷‍♀️

O Zé, todo solícito como sempre, chamou o gringo para fazer uma trilha com a gente. E ele concordou! Crendiospai! Ele sumia fácil no meio das árvores por causa dos passos largos. Do nada, aparecia atrás da gente falando alto. Me assustei algumas vezes porque ele fez umas caretas bem freak. Me deu medo quando deu uma gargalhada, com aqueles dentes sujos à mostra e aquelas mãos gigantes. Todo molambento. Acho que nem toma banho. Estava eu lá reparando essa bizarrice toda quando um galho inteiro de uma árvore gigante caiu a dez metros na nossa frente. O barulho me assustou mais ainda. Podíamos ter nos machucado. Não sabíamos o que fazer com aquele monte de folha no meio da trilha. Pois o homem corajoso tirou um facão enferrujado de dentro da mochila e começou a cortar a árvore. Destroçava a madeira a cada facada. Até que cravou numa colmeia e um monte de abelha saiu voando para todas as direções. Saímos correndo. Uma delas picou o olho direito dele. O azul turquesa se transformou em vermelho. Ficamos preocupados e o Lu tentou colocar água, mas ele não deixou. Disse que não era nada, apesar de lacrimejar. Agora como explicar que em menos de um minuto a cor do olho voltou ao normal? Por pouco não desmaiei. Eu não estava preparada para tanta emoção. Nem para tanta excentricidade. No fim do dia, voltamos para o acampamento. Ele não quis jantar com a gente. Se recolheu cedo e ficou cantando na barraca umas músicas estranhas, quase uivando como um lobo. A gente deitou no gramado e ficou vendo as estrelas. Eram muitas estrelas. E a lua cheia. Com aquela cantoria: frio na espinha. 👀

Terça-feira, 23 de abril de 2019

22h44 – Ontem, antes de dormir, ouvi os gatos farejando em volta da barraca. Abracei o Lu, me borrando de medo. Depois, sonhei com o freak. As unhas sujas e grandes fincaram na pele dos meus braços. Ele era muito forte. Parecia um vampirão galego. Nem lembro o que mais aconteceu, mas acho que vi a lua cheia, escutei o uivo e senti o bafo quente dele na minha nuca. Não ando dormindo bem. Lu não está nem aí pro gringo e acha que estou impressionada. Para mim, a história dele não bate nada com nada. E a Van teve um sonho bem parecidooo 👻 Acho que exageramos… 🍄

Feio, hoje cheguei da trilha muerta com faruefa. O acampamento é bem roots. Número um e dois é no mato. Tomei um banho gelado bem rapidinho no chuveiro improvisado pelo Zé com um cano em cima de um galho. Logo depois encontrei o freak. Eu bem encasacada, e ele de camiseta. Um frio da porra! E um breu só. Quase me 💩. Voei. Socorro ficar sozinha com esse doido. Eu queria só me jogar na barraca, mas inventaram uma janta com o gringo. Nunca vi cabelo tão ensebado. Se bobear, tem até piolho ali. Contou que está aprendendo capoeira. Donde, meldeusss? Fiquei imaginando aquelas canelas brancas se remexendo no gingado. Como que ele veio parar aqui? Fala com quem? Para que viver assim? Foi se meter no rango, pegou a colher e colocou o molho quente da salsicha na palma da mão. Não queimou. Nada aconteceu. Isso não é de Deus. ✝️ Eu é que não vou dar trela para maluco. Cada vez mais, essas histórias dele não fazem sentido.

Quarta-feira, 24 de abril de 2019

20h18 – Acordamos com o barulho da chuva batendo na lona da barraca. Quando saímos, percebemos que nossas barracas estavam em outro lugar, mais protegidas do vento gelado que fez durante a noite. Ali já bateu um ruim geral porque ninguém notou nada. Como era possível mudar a posição delas com a gente dentro? E sem que acordássemos? Eu queria ficar mais, apesar do freak, mas as coisas já estavam ficando bem estranhas. Do lado da barraca do gringo, tinha um monte de lenha cortada, mas ontem estava tudo vazio. O que ele fez durante a noite? Só aí que o Lu confessou que nada disso cheirava bem. Arrumamos nossas coisas rápido, fechamos as mochilas e quando começamos o caminho de volta o gringo saiu da barraca. Nos despedimos meio de longe. Ainda bem. Fiquei toda arrepiada. Até corremos com medo de que ele nos seguisse. Na entrada do parque, foi fácil pegar uma carona. Chegamos em AW bem na hora que o ônibus estava saindo. Uma sorte danada. Ao meio-dia chegamos na rodoviária de Floripa. Assim que descemos do ônibus, demos de cara com quem? Com o gringo! Estava ele lá sentado numa banqueta de uma lanchonete comendo coxinha! Mas como se nenhum carro passou por nós na estrada? Ele caminhava tanto que acabou conhecendo algum atalho? Ele nem veio com a gente no mesmo ônibus! Nosso cagaço foi tão grande que fugimos do gringo. Mais uma vez. Pegamos nossas mochilas no bagageiro e vazamos em dois toques. Até me questionei se a gente não estava alucinando, mas tenho certeza de que era ele. Sérião, não dá para entender como alguém escolhe viver desse jeito.

Terça-feira, 30 de abril de 2019

23h45 – Lu passou a semana toda um porre. Muita ego trip para eu lidar. O desencanto foi rápido. Estou com um misto de culpa e libertação, mas é página virada. Definitivamente. Ele estava reclamando demais que eu não mudo de assunto, só que o gringo não sai da minha cabeça. Fiquei pensando que pode ter sido um lance meio 👽 ou um criminoso internacional se escondendo da 👮‍♀️. Lá no acampamento, tudo que eu queria era me livrar daquele doido polonês capoeirista solitário com uma vida sem sentido. Acho que fui injusta com ele. Agora a vida do freak parece bem mais interessante para mim do que a do Lu. Bom, ao mistério o lugar de mistério. Fica mais divertido assim.

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