O Danúbio Azul da Mooca

No fim do primeiro tempo, estávamos perdendo de dois a zero. A partida vinha dominada. O nosso time, o Danúbio Azul da Mooca, enfrentava o Nove de Julho da Casa Verde, pela final da Copa Kaiser. A partida acontecia num campo neutro, o Palmeirinha, na Zona Sul. Mas o árbitro, em várias oportunidades, vinha nos prejudicando, apitou faltas que não existiram, marcou até um pênalti mandrake pro Nove. Entramos no vestiário como prisioneiros, cada qual arrastando o próprio desempenho no jogo como se fosse uma bola de ferro amarrada na canela, arrasados. Borracha, nosso treinador, entrou atrás, furioso:

– É o seguinte, agora no segundo tempo todo mundo vai ser expulso. Fechou? Não quero que ninguém mais jogue. É pra bater. Esses filhos da puta compraram o juiz. Filhos da puta. Vamos melar esse campeonato.

– Tá maluco, Borracha? Bebeu? – disse um de nós, com o que ainda lhe restava de bom humor.

– Quem manda nessa porra desse time? Quem não for expulso pode dar adeus, não joga nunca mais. Tão garfando a gente na maior, não vamos deixar quieto, não. É pra todo mundo tomar vermelho. Quem não quiser não precisa nem voltar.

Percebemos que o Borracha estava mesmo falando sério. Na verdade todos nós tínhamos medo dele, medo profundo. Instalou-se no vestiário uma nuvem negra, uma preocupação. Uma ordem como aquela não era coisa simples de cumprir. É claro que o jogo na várzea é muito mais pegado, mais intenso que o profissional, nossas canelas sabiam muito bem disso. Não era raro um supercílio aberto por uma cotovelada, ou alguém sair de campo na maca, vitimado por uma entrada que podia até ser violenta, sim, mas que também nunca era covarde. O embate na várzea é franco. Não podíamos simplesmente esculachar os adversários, ainda mais um time como aquele, de tanta tradição, que vinha de tão longe, uma quebrada que ficava do outro lado da cidade, com outras lideranças, por vezes desconhecidas, que caso conhecêssemos temeríamos tanto quanto temíamos o Borracha, ou ainda mais.

Como já tinha dado o papo e não tinha mais nada a dizer, além do que já havia dito – quebrem esses malditos –, Borracha saiu logo do vestiário. Ficamos ali, olhando um para o outro, cada qual imaginando o que faria quando voltasse ao gramado. Pensávamos em como cumprir aquela ordem sem criar um problema maior, uma briga generalizada entre as torcidas, por exemplo. Ou então uma represália posterior, alguém do Casa Verde que viesse cobrar a pedra de uma agressão gratuita, quisesse vingar aquela covardia, caso a percebesse. Por outro lado, ignorar uma ordem direta do Borracha era decretar o fim do time, ou até mesmo algo pior. Não parecia haver solução.

Quando soou o apito, reiniciando a partida, não estávamos mais com a cara de absoluta derrota de quando entramos no vestiário, mas parecia que tínhamos visto uma assombração. Alguns de nós, sobretudo os zagueiros, estavam ainda mais assustados, empalidecidos. Buscaram algumas faltas e, como o árbitro parecia mesmo comprado, houve até um cartão amarelo, nos primeiros minutos. Mas Borracha não estava nem perto de satisfeito. Berrava, nos ameaçava de maneira velada na beira do gramado:

– Vai, caralho! Seus pé de rato! Lembra do que eu falei!

O primeiro vermelho veio num escanteio que o Nove de Julho cobrou. Nosso goleiro, à guisa de afastar a bola com um soco, acabou esmurrando o ponta esquerda do Nove, que subiu pra cabecear. Foi em cheio. O soco foi tão forte que o cara bateu no chão já desacordado. Teve que ser substituído. Houve um princípio de confusão, nosso capitão puxou o goleiro pra longe. O árbitro correu já com a mão no bolso da camisa: vermelho, direto. Borracha pulava, babava, exultante.

Só que depois disso, talvez em choque pela queda do seu ponta, o Nove de Julho tirou o pé. Começaram a dar brecha, mesmo com um jogador a mais. Nós não esperávamos por isso, quase não soubemos lidar, eles tinham dominado facilmente o jogo até aquele momento. Pouco depois da substituição, que trouxe a campo nosso goleiro reserva e tirou um volante, armamos um contra-ataque rápido. O goleiro deles, que até então não tinha tido trabalho nenhum, foi surpreendido com um chute forte de fora da área. Um gol cristalino, incontestável. Nossa comemoração foi discreta, meio abobalhada. Borracha, na beira do campo, também comemorou, mas dessa vez não pulava nem babava.

O gol fez com que nos distraíssemos brevemente do propósito de agredir os adversários. Quem levou o segundo cartão vermelho foi o lateral esquerdo, em geral um bom jogador, um cordeirinho, mas que naquele dia era quem estava mais próximo do Borracha e de sua virulência, pela qual com certeza foi contaminado. Entrou de carrinho no adversário, por trás, a sola da chuteira levantada. O juiz nem precisava de tanto pra puxar o vermelhão. Dois a menos. O Nove, que àquela altura havia quase parado de jogar, começou a nos bater de volta.

Quando pensamos naquele dia, em retrospecto, temos dificuldade em estabelecer um consenso a respeito do momento exato em que percebemos que dava pra ganhar. Alguns de nós dizem que foi no momento do empate, que veio numa bola cruzada, cheia de veneno, a cabeçada fatal do centroavante, no canto, sem chance pro goleiro, uma cena linda, uma pintura. Mas a verdade é que, mesmo antes do empate, o time todo já tinha vislumbrado a possibilidade da virada – só não queríamos acreditar. As duas torcidas fervilhavam em gritos de guerra, fumaça, sinalizadores. Era um absurdo, jogávamos com dois a menos, tínhamos sido dominados durante todo o primeiro tempo, mas estava acontecendo, dava pra virar, íamos virar. Borracha continuava gritando, espumava. Começou a sacrificar as substituições, sabotava o próprio time, tirava os jogadores que estavam melhores, colocava gente fora de posição, berrava, cobrava obediência ao projeto de brutalidade que havia proposto. Há quem diga, hoje, que foi o jeito que ele encontrou de nos injetar ânimo, energia, a fim de que vencêssemos a peleja. Outros insistem que ele queria mesmo era ver a partida interrompida por falta de jogadores em campo, que aquela seria sua forma de fazer uma espécie de denúncia, de expor aquele escândalo, de desmoralizar o campeonato.

O fato é que, perto do fim da partida, perto demais para que o Nove de Julho da Casa Verde pensasse em ensaiar qualquer recuperação, marcamos novamente. Não vimos Borracha comemorar. Estava lívido. O jogo quase virou pancadaria, as torcidas invadiram. O autor do último gol saiu do gramado nos ombros dos torcedores, aclamado como um santo. Nós, o Danúbio Azul da Mooca, vencemos a partida e levamos pra casa a taça da Copa Kaiser de 2011. Porém, contrariando uma tradição de trinta e oito anos, naquele ano ninguém ergueu a taça, porque, de acordo com o regulamento, a taça seria erguida pelo técnico da equipe vencedora, que não foi encontrado, sumiu na confusão que se instaurou depois da nossa vitória. Borracha nunca mais voltou, para nos dar as respostas de que precisávamos.

Deixe um comentário