O homem vencedor não dorme nunca

Fábio Kalvan

Chegou a nossa vez, só precisamos aproveitar a janela de oportunidade, ter um bom planejamento estratégico, pensar e agir com calma, que o resultado é certo. Porque não basta a chance se você não sabe usá-la. Como diria nosso finado pai, o velho Brites, não adianta o cavalo passar encilhado se a pessoa não sabe montar. Vamos mostrar que montamos muito bem.

Para isso aquele curso do Sebrae foi importantíssimo. Abriu nossas mentes para o mundo, para o novo, para o diferente e desde então adotamos como lema uma frase que o professor sempre repetia: “o negócio é empreender”. É assim, sempre de olho aberto e orelha em pé, alerta para as possibilidades de alavancar o empreendimento. O homem vencedor não dorme nunca.

Tudo bem que não podemos reclamar do nosso segmento, afinal as pessoas continuam a morrer e precisam ser enterradas. Ou cremadas. Vão precisar de caixão, de flores, de preparação do corpo. Além disso, é um ramo comercial tranquilo, até um pouco meditativo, e os mortos são os melhores clientes, não se queixam de nada. Às vezes é a família que reclama de tudo, ainda mais se o falecido deixa muito herdeiro e pouca herança. Fora isso, tudo é paz. O porém é que nos últimos tempos os óbitos não têm ocorrido na, digamos assim, quantidade ideal. Parece que antes as pessoas morriam mais. Seja como for, o fato é que a firma vinha fechando no vermelho, especialmente depois que o velho Brites se tornou ele mesmo cliente da própria empresa. Foi quando assumimos o controle da Arevalos Serviços Fúnebres, agora rebatizada de Irmãos Arevalos.

Complica que aqui a concorrência tem sido desleal: o passamento acontece em Ponta Porã, Amambai ou outra cidade mas o cidadão acaba no Paraguai, por causa do preço. Sabe como é, poder não pode, mas a família dá um jeito de levar seus mortos para o lado de lá. Já nós não podemos oferecer nossos serviços em Pedro Juan Caballero, a burocracia seria grande e sairia caro demais. É o custo Brasil, fazer o quê? Mas não há de ser nada. Tudo muda, nós mudamos e os resultados começam a surgir a partir do novo plano de incremento de nosso leque de serviços. Podemos dizer com segurança: um novo tempo se avizinha para a Arevalos, faremos história e seremos notícia.

Isso desde aquele dia em que apareceu um pacote compacto, semelhante a um tijolo embrulhado em papel pardo e envolto com fita adesiva, bem na hora em que entregávamos um cliente no velório municipal de Aral Moreira. Aloísio, nosso motorista, esperto nesses assuntos, assegurou que era coisa boa.

– Erva? De tereré?

– Lógico que não, chefe

Demos um jeito da família não perceber e nunca descobrimos o autor. Mas quem quer que tenha sido, não importa mais, nos deu uma grande ideia. Nossa heureca. Poderíamos agregar valor aos nossos serviços e otimizar os custos dos traslados aproveitando para transportar encomendas. Uma sinergia da boa. Por que não? Temos veículo, temos espaço, cumprimos horário. O rabecão espanta tanto assaltantes quanto policiais, portanto a entrega é garantida. Foi um achado tão valioso que resolvemos dar um passo adiante. Para que só transportar se poderíamos distribuir? Seria ainda mais valor agregado. Daí que nosso networking nos fez chegar a um pequeno produtor de Capitán Bado, produção artesanal, orgânica e premium, sem as porcarias misturadas vendidas por aí. Vamos até Coronel Sapucaia, passamos a fronteira, trazemos o produto para cá e distribuímos. Porém em quantidade reduzida, sem a escala de um PCC, com quem aliás não queremos concorrência. Nosso escopo é outro, um nicho específico com freguesia exigente e fidelizada.

No início tivemos algumas dúvidas, que desapareceram tão logo vimos o balanço contábil ficar azul. Além disso, que mal há? É produto natural, ancestral até, de qualidade, sem aditivos ou conservantes, que apazigua e acalma. Se já cuidamos dos mortos, por que não fornecer paz e tranquilidade aos vivos, que enfrentam lutas bem mais duras no dia a dia? Sabemos das críticas que sofremos, fruto da inveja e da incompetência alheias. Os inovadores incomodam, revolucionam e vencem. Ford e Bill Gates que o digam, por isso estamos tranquilos.

Até então a distribuição se limitava a cidades próximas, Maracaju, Dourados, Campo Grande quando muito. Contudo, agora a aposta é grande, pois chegou um pedido graúdo de Brasília. É o tal salto quântico de que tanto falava o professor. Se tudo der certo (e dará), passaremos para outro patamar, outra escala, e seremos distintos. Seremos únicos. Dessa vez não levamos corpo algum. Nem poderíamos, porque não sobraria espaço para o que interessa. Foram necessários dois caixões dos grandes, de obeso, com o fundo reforçado. Se não fosse assim teríamos que esconder os pacotes pelas portas, debaixo dos bancos, no motor, essas coisas de amador. As urnas partiram lacradas e caso alguém queira fiscalizar, é só mostrar a declaração médica que providenciamos neste mesmo computador: “doença infectocontagiosa”, “risco de contaminação”, “lacre obrigatório”. Ninguém vai chegar perto.

Organizamos a logística com rigor, planejamos o percurso e preparamos o carro nos mínimos detalhes. O único contratempo foi o Aloísio, que quebrou o pé numa pelada. Paciência, os imprevistos são provas que o destino coloca para testar os verdadeiramente preparados. Agimos rápido e chamamos o Ramãozinho, rapaz novo, dedicado, embora um pouco assustadiço. Confiamos nele e no futuro que tem pela frente. Tudo pronto, ele partiu essa madrugada no volante do rabecão e até já mandou mensagem quando parou para almoçar em Campo Grande. Tudo correndo bem conforme o planejado. E a uma hora dessa ele deve estar entrando em Goiás. Dorme em Goiânia para fazer a entrega amanhã cedinho. Praticamente um Just-in-time.

Dizem que os filhos dilapidam o que os pais construíram. Provaremos que nem sempre é assim. E provaremos para essa brasileirada que somos capazes, que o povo da fronteira tem valor. Que sabemos inovar, empreender e progredir. Honraremos o nome de nosso pai, que a tudo assiste, esteja onde estiver.

https://g1.globo.com/go/goias/noticia/2020/06/15/pm-encontra-300-kg-de-maconha-escondidos-dentro-de-caixoes-funerarios-em-jatai.ghtml

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