OS DIÁRIOS E AS NOITES

10/03/2017 às 13h37pm

Perdi o voo para Buenos Aires. Estava marcado para nove horas da manhã, e o próximo avião com destino  à capital argentina só sai às dez da noite. Mesmo com quarenta graus de febre, optei por esperar aqui mesmo, ou fui obrigado pelas circunstâncias a esperar, já que duzentos reais para gastar num táxi de ida e num táxi de volta não é algo de que disponho nesse momento. 

Fui até a farmácia do próprio aeroporto e comprei quatro cartelas de antitérmicos noturnos (apesar do horário), idênticos aos que tomei ontem para conseguir dormir. Depois de seis cápsulas, quando o torpor começou a bater, me estiquei da maneira que pude entre duas poltronas azuis de plástico e fiquei absorvido pela incidência da luz dos janelões na porcelana do piso. 

O que mais me interessa nos aeroportos é que os compreendam como um espaço de liberdade íntima; deitam no chão, andam com toalhas ao redor dos ombros, falam alto e coisas assim, feito fazem na praia. 

Acho que isso só reforça a ideia, um pouco arrogante, talvez, de que as pessoas viajam para fugir de si mesmas. Acredito que haja um paralelo entre o modo que agimos num espaço transitório e o modo que escrevemos num diário. Sabemos que nada aqui (no aeroporto e no diário) é durável, e abrimos mão de qualquer responsabilidade ou postura que temos que ter com a ideia de quem somos. 

Pelo menos é essa sensação de desprendimento, essa confissão sem fé, que me atrai nessas notas e que, no entanto, se distancia daquela consciência que obtemos ao nos aventurar por um diário na infância. Quando somos crianças, o diário não é só um depositário de impressões e testemunhos, um lugar para onde voltar quando a memória falha, mas é também interlocutor, de modo que sempre começamos com meu querido diário; um interlocutor surdo que possui a fidelidade dum amigo imaginário, que no caso somos nós mesmos. 

Quero anotar aqui que fiz tudo ao meu alcance para embarcar. O despacho de malas já estava encerrado, e ainda assim tentei passar pelo corredor entre o aeroporto e a pista de embarque com minha mala de rodinhas e a passagem no bolso da jaqueta. A um palmo do chão em razão da febre, fiz o caminho sem pensar, e só parei quando dois funcionários me agarraram os braços e me conduziram, gentilmente, até aqui. O preço de remarcar a viagem para o voo da noite foi abusivo, o que só aumentou minha necessidade de ficar mais de dez horas vagando por esse espaço asséptico feito um fantasma. Tenho tentado evitar o banheiro. Quem sabe não tomo um chope, isso sempre nos anima. 

10/03/2017 às 23h01pm

Finalmente no ar. Estou sentado na poltrona 16A, à janela. A esta hora não se vê quase nada, às vezes recortes rajados de nuvens negras se descortinando alguns metros abaixo, mas isso se tiver sorte. Os remédios controlaram não só a febre, como também o medo que sinto de voar. Escrevo estas notas para me manter acordado e registrar alguns acontecimentos. 

Quando a sala de espera foi liberada, desci dois lances de escada e encontrei o lugar cheio de gente, em especial estrangeiros. Ao me acomodar num canto com um copinho plástico cheio d’água na mão e a cabeça num baile onde a música eram os antitérmicos e as cervejas envelhecidas, percebi uma funcionária da cruz vermelha, e só depois de observar a insígnia em sua blusa, que em meu delírio pendia em movimentos imperceptíveis e ritmados, minha visão delineou a mulher ao seu lado, vestida com uma burca preta, que talvez tenha sido o motivo de eu não tê-la visto antes, confundindo-a com essas zonas escuras que espreitam tudo, mas o fato é que eu a vi, e sua imagem, por alguma razão, aumentou em pelo menos vinte graus a minha febre, porque tive que sentar, e foi encolhido numa cadeira de plástico azul (idêntica àquelas onde dormi mais cedo), que eu percebi que as mãos da mulher, a única parte de seu corpo que se deixava mostrar, além dos olhos, eram marcadas por diversas queimaduras, crateras de pele que, embora já cicatrizadas, pareciam janelas para os seus nervos e músculos. Sem saber muito o que fazer, tirei a Canon EOS da sacola, porque uma foto era a única interferência possível naquele momento. Não sei se por efeito dos remédios, ou por esta distração que me acompanha desde tempos imemoriais, esqueci de conferir a configuração da câmera e seguido ao clic o flash estourou no ambiente, atraindo todos os olhares para mim, inclusive os olhos da mulher que eu fotografava, e antes que a funcionária da cruz vermelha viesse em minha direção e destroçasse a câmera (eu imaginei que isso poderia acontecer), movi a lente para outro canto da sala de espera e disparei uma segunda foto, e uma terceira — como um turista bobo.

Agora a mulher de burca está sentada duas fileiras atrás de mim, e posso sentir seus olhos alfinetados na minha nuca. Acho que só ela compreende o que aconteceu. Por sinal, esse voo está esquisito. Não me lembro da última vez que viajei de noite, mas não creio que seja esse o fator determinante para que quase todos os passageiros estejam viajando de roupas pretas, inclusive eu mesmo. Não roupas pretas comuns, mas sobretudos pretos e botas, como se estivéssemos indo a uma conferência sobre psicanálise no início dos anos quarenta. Ao meu lado, um sujeito que não me parece brasileiro, viaja muito quieto (recusou o serviço de bordo) e está bem concentrado no livro que lê, uma edição bonita, antiga, talvez dos setenta, a época de ouro da editoração, que tem na capa uma estrela de Davi e o curioso título ¿Por qué Dios se olvidó de los judíos? 

Isso tudo me lembra um outro voo (que talvez tenha acontecido anos mais tarde, mas que diferença faz?), que tentarei esboçar a estranheza aqui: 

Embarque: Curitiba 

Pouso: São Paulo 

Horário: 10h30am

Encontrei meu lugar e vi que o passageiro ao meu lado estava vestido com roupas de comandante aéreo. Arrisquei uma piada. Se você está aqui, então quem está pilotando o avião, perguntei. Ele não entendeu, ou não achou graça, e me ignorou, virando o rosto para o outro lado. Esse seu movimento, o de virar o rosto para o outro lado, expôs o restante dos passageiros: eram todos funcionários das linhas aéreas. Aeromoças, comandantes, comissários e até mesmo o rapaz que fica na pista com um colete laranja, protetores auriculares e sinalizadores estavam lá. Fiquei com medo de ter entrado no avião errado, um avião interno da companhia, mas se fosse o caso não fazia sentido que ainda não tivessem me avisado. Depois fiquei pensando que talvez todos aqueles profissionais estivessem ali porque o comandante que de fato estava pilotando a aeronave era um iniciante, e aquele era o seu primeiro voo comercial. Essa possibilidade revirou meu estômago (eu ainda tinha medo de avião, ou já não tinha? o fato é que revirou) e, assustado, fui ao banheiro. A visão de uma ou outra pessoa vestida como civil entre a tripulação me acalmou um pouco, mas bastou entrar no banheiro para que essa calma despencasse. Na pia, um líquido escuro, bem escuro, balançava pra lá e pra cá, no ritmo das pequenas turbulências. Considerei estar sonhando. Depois vomitei, o que me fez descartar a hipótese. Querido diário, será que um dia vou esquecer aquele líquido? No fim, o comandante fez um pouso primoroso, quase não se sentiu o impacto. Não sei se era seu primeiro voo, mas se era, estava de parabéns. 

O apito e a voz rouca da comissária de bordo anunciam que estamos quase chegando. 

11/03/2017 às 11h16am

Em Buenos Aires. 

Me hospedei numa mansarda na calle Defensa, em Montserrat, e da janela de meu quarto — um quarto pequeno, porém com duas janelas e um tipo de varanda que serpenteia todo o andar, onde há plantas tropicais e alguns gatos — consigo ver a mancha da Casa Rosada e a Plaza de Mayo se estendendo como uma pequena planície. Quem toca a pousada (que é como chamarei este lugar), é um casal de jovens portenhos que viajaram para tudo que é canto e cursam filosofia na UBA. No hall de entrada há uma biblioteca caseira, com edições argentinas de livros como Os Miseráveis e Viagem ao Fim da Noite. 

É quase meio dia, e já estou um pouco melhor, depois de uma noite de insônia, em que fui cozinhado pela febre. Nos raros momentos de lucidez pensei sobre você, diário. Um diário, ao menos na infância, pressupõe um segredo, algo que não pode ser lido. Desse modo, creio que forçamos perversões morais para escrever nesse espaço, porque só a ocorrência de um acontecimento reprovável pode dar sentido ao diário. Isso me lembra a catequese, naquela fase do curso que somos obrigados a nos confessar, mesmo sendo crianças, e toda diversão consistia em inventar histórias mirabolantes para o padre. Como escrevi ontem, parafraseando Julio Ramón Ribeyro, o diário é uma espécie de confissão sem fé, e acrescento: com muitos pecados. 

À minha frente tenho uma xícara de café preto e um pratinho com duas medialunas curtidas na manteiga. O café da manhã é organizado no corredor que fica imediatamente abaixo do meu quarto, onde posso chegar descendo os degraus de uma escada de ferro retorcido. Essa construção lembra muito alguns lugares em que estive em Botafogo, acho que por esse estilo mercantil, as arcadas, o gesso, as sacadas e essa cara de palacete. 

Pregada a uma pilastra, a televisão passa o noticiário local. A notícia é que o aeroporto, não o que eu estava, e sim o Aeroparque, teve que interromper as atividades. 

O motivo: infestação de morcegos nas tubulações. 

11/03/2017 às 23h56pm

 Acabo de voltar de uma primeira incursão à cidade. Meio bêbado, confesso. Mas comprei uma boina de veludo azul costurada à mão. E uma garrafa de uísque para presentear. Sem nem um segundo deixar de pensar nessas zonas escuras que espreitam tudo. Vultos. Rebarbas de uma história de violência e morte. Violência e morte, tão próximas desse nosso continente. 

28/12/2019 às 10h12am

Caraíva, Bahia.

Chegamos ontem, depois de uma viagem de cincos dia num ônibus clandestino que saiu de uma esquina do Brás. Aportamos em Porto Seguro, anteontem, no meio da noite, e só graças a uma mulher acompanhada de suas duas crianças conseguimos um lugar para dormir. Não resisti à tentação de bolar um com o papel da bíblia que encontrei na cômoda — pelo menos demos umas risadas. J. e eu nos tornamos feras em palavras cruzadas, a cada nova parada avançávamos um nível de dificuldade nos caderninhos. A viagem foi conturbada e interessante. Muitas pessoas viajavam com sacos de grãos e outros produtos que pretendiam vender na Bahia durante a temporada. Por duas vezes, quando a polícia federal nos revistou, um par de rapazes pediu para que nós usássemos os relógios de ouro falso que eles traziam numa maleta. Nas paradas, eles nos deram vinte reais como sinal de agradecimento. O suficiente para comprar mais palavras cruzadas, salgados e cervejas. Nem preciso dizer que a viagem foi entediante. Num ônibus normal, teria durado três dias, mas o ônibus que estávamos, guiado por uma índia braba chamada Sônia, ao adentrar o estado baiano, parou em cada uma das cidades, tirando todas as malas do bagageiro (o que era bem desesperador) para alcançar um pacote lá atrás, o que demorava tempo suficiente para nós descermos e esticar as pernas pela cidade; cidades onde no geral só havia casinhas germinadas e placas de trânsito, lugares esquecidos pelo tempo e por todos. 

Em Monte Pascoal, fomos informados que teríamos que trocar de ônibus. Ficamos andando pela cidade e almoçamos num restaurante minúsculo que a cozinheira nos disse ser o único da cidade (que era composta por mais ou menos seis quarteirões). Já estava na hora de eu me aposentar, mas se eu parar de cozinhar acho que o pessoal aqui morre de fome, disse ela. Creio que o que ela quis dizer é que ela representa um tipo de relógio pra cidade. Na calçada, em frente ao restaurante, uma menina de uns dezesseis anos brincava de um jogo que pratiquei muito quando era criança: cinco marias. Ela usava cinco bonequinhas costuradas com sabugo de milho e tinha os olhos perdidos por detrás dos óculos de armação grossa. Suas roupas eram curtas e estavam sujas. Em algum momento do almoço uma mulher entrou, e ao falar, reparei que tinha todos os dentes quebrados. Creio que era uma da tarde, e às três uma fila enorme se formou em frente a rodoviária, esperando pelo ônibus que cumpriria o trajeto até Caraíva e outras cidades. Por sorte embarcamos, muita gente ficou para trás, balançando o dedo do meio e jogando pedras na traseira do veículo em meio à poeira. Sentimento: angústia. 

02/01/2019

Na praia.

Não vou escrever aqui como foi o réveillon. Tivemos uma fogueira, dedadas de MD, carne de arraia na brasa, cachaça, música e uma bola de fogo sobre a lama do mangue. Só. Que eu tenha acordado M. com o barulho de meu vômito, isso não importa, embora diga muito sobre nossa amizade. 

Enfim. Não é sobre isso que quero escrever. Preciso escrever sobre ontem, querido diário. O primeiro dia do ano. 

Nós todos sentamos num quiosque numa praia chamada Espelho. A visão para o mar era imediata, e o vento tornava tudo agradável. Estávamos lá depois de uns dez quilômetros caminhando, de modo que nos encontrávamos naquele estado em que o cansaço se confunde com o êxtase. Pedimos pastéis e cervejas. 

Fazia tempo que eu não me sentia tão bem. No horizonte não havia sequer uma embarcação. Só o nada, e nada mais. Adivinhei alguém descendo os degraus de madeira com o nosso pedido. A brisa marítima enchia os pulmões, me virei para a mesa e vi o rosto da funcionária do quiosque, que contra o sol me pareceu infinitamente bonita, uma sinalização de paz, ao menos por um instante, nessa vida que flagela o espírito. 

Claro que a paz durou pouco. Bastou eu olhar para as suas mãos. Mãos cheias de queimaduras que expunham seus nervos e seus músculos, mãos assustadoramente familiares, que abriam a cerveja à minha frente. 

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