por Américo Paim
Sábado, 16/08/1980 – Mar Grande
Digo que hoje foi quase perfeito, apesar de ser mais um encontro de formação do colégio. Já escrevi sobre eles aqui: meio que se repetem. A casa enorme e ventilada, os seminários, as orações, as brincadeiras nos intervalos e à noite. A diferença é que agora já tenho dezesseis e começo a ver algumas coisas de outra forma.
Esse meu jeito certinho e tímido não ajuda. Se não fosse por Dinho, não teria acontecido nada. Não sei como topei fugir com ele e os outros para bebermos escondidos na praça. E com o violão! Acho que foi porque as meninas também iriam.
Foi uma pequena aventura. Esperar os padres dormirem e escapar em silêncio. Tive medo de pular a janela do quarto. Saímos pelo gramado e usamos a falha da cerca de madeira que dá para o terreno baldio dos coqueiros. Corremos pela trilha até a praia. De lá para a vila.
Além de oito meninos, foram quatro meninas: Aninha, Clarice, Cíntia e Gina, a deusa mais linda do mundo. Olhei o tempo todo pra ela, mas acho que não notaram. Nem Dinho sabe dessa paixonite. É recente. Não vai dar em nada mesmo. Igual às outras, aliás.
E o que foi aquilo nas pedras do antigo cais? Ela sentou ao meu lado debaixo da lua cheia! Foi incrível ficarmos de papo e tocando violão aquele tempo todo. Será que dei muita bandeira? Devo ter ficado com cara de besta, que merda.
Vou desligar a lanterna e dormir. Dinho ronca alto, véi! Que cachaça.
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Sexta, 12/12/1980 – Salvador
Acabou o 3º ano! Comemoração com praia na Pituba e baba em Amaralina.
Agora é o vestibular! Tô confiante!
Hoje foi aniversário de Moisés e a festa no play do prédio dele foi massa. Som de primeira! Até nossos discos de rock pesado deixaram tocar.
Seria minha chance de explicar pra Gina aquela confusão no dia da prova de Física, mas ela não apareceu. Deve estar retada comigo, mas eu não tive nada a ver com a fofoca que espalharam que a gente tá namorando. Bem queria que fosse verdade.
E aquele sujeito com camisa azul piscina? Velho, que cara estranho. Tem uma frieza no olhar, coisa esquisita. Nem devia julgar, mas vi coisa do mal. É isso. Pode ser só impressão. É um amigo de faculdade do irmão do Sandro e é bom de papo, porque aquela conversa mole de levar a turma toda para a casa de praia da família dele no ano novo pegou as meninas. Sempre os caras mais velhos levando vantagem com elas. E a história de bebidas e umas coisas novas para experimentar? O que ele quis dizer? Ainda bem que me afastei logo. Não gravei o nome dele. E daí? Nem vou na festa mesmo.
Tenho é que arrumar um jeito de ficar de bem com Gina.
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Quarta, 17/10/1990 – Macaé
Se eu pudesse, apagaria esse dia.
Depois de um bom tempo preparando a apresentação do projeto, meu chefe me diz que mudou a prioridade do orçamento e ficou para o ano que vem. Velho, como assim? Por que não me preveniu? Deveria ter reclamado com ele, mas sou novo na empresa. Acho que ia me fritar ou pior, mandar embora, e ainda não é hora de sair daqui. Detesto a cidade, mas gosto do trabalho e arrumei até uma namorada. Até quando será bom?
Aquele telefonema de Dinho foi foda. Quem ia imaginar Cíntia com depressão? Entendo pouco disso, mas sei que não é legal. Será que poderia ajudar? Acho que tem uns três anos que acabou o namoro. Coitada, tão jovem e bonita, gente boa demais, família legal. Como foi se meter a namorar bandido, véi? Nada a ver! Como foi entrar nessa? É tão triste saber de coisas ruins com os amigos. Engraçado que achei que ele era estranho logo que vi. Acho que até escrevi no diário.
Isso me lembrou aquele verão de 1981. Tempo bom. Ninguém parecia ter problema. Era tão perfeito. A vida vai mudando de estação. Essa coisa com Cíntia me deu um medo. Tudo parece firme, mas é tão frágil.
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Domingo, 09/02/1992 – Salvador
Vou escrever logo antes que o sono me pegue.
A reunião com os amigos da escola no bar de Sandro em Itapuã foi show!
Parece que tá todo mundo bem. Que bom. Fiquei feliz de poder contar a eles que fui promovido a Coordenador. Nunca teve inveja entre nós. Dinho vai bem na residência de cirurgia, Sandro, nosso empreendedor, nem se fala e Tonho se firmando com o escritório de contabilidade. Moisés não apareceu, mas a vida dele tá legal. Podíamos marcar um desses com as meninas.
Cíntia está saindo da depressão. Ainda bem. Deve ser um desespero a pessoa se apaixonar por um criminoso e não conseguir sair disso. Será que sofreu muito quando prenderam o cara? E a morte na prisão? História foda aquela da gangue dos riquinhos. Pessoas com recursos e instrução que viraram traficantes e assaltantes. Os caras agrediam, furtavam e estupravam. Triste. Nem sei a razão, mas me sinto um pouco mal porque o lance dela com o tal Vampiro começou uns três anos depois daquela festa na casa de praia no verão do vestibular. Como teria impedido? Alguém poderia saber o que aquele cara era ou ia ser? Podia acontecer a qualquer pessoa. Quem controla isso? Quem pode julgar?
Me toquei que nunca realizei uma paixão assim. Estou com vinte e oito, mas só tive algumas platônicas, nada além. Trepadas e trepadas e só. Alguém me tirou do eixo? Só Gina, mas foi na hora errada. Era muito novo. Hoje sou mais confiante, tudo seria diferente.
Dinho me sacaneou com razão porque lhe perguntei se achava que eu deveria falar com ela. Depois de sumir no mundo, voltar a procurar? Pra que? Mas fiquei mexido quando soube do fim do noivado dela. Essa é a verdade. Pensando bem, não devo ligar porque essa história é sem futuro. Caducou. Já faz tanto tempo, nunca aconteceu nada e a vida seguiu.
Já escrevi demais. Vou dormir que é melhor.
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Terça, 11/06/1996 – São Paulo
Emprego novo! Ainda estou surpreso que a Ceman aceitou minhas condições. Já acho que devia ter pedido um salário maior. Deixa quieto. Acho que vou ficar muito tempo lá.
Agora é voltar pro Rio e fazer a mudança para São Paulo.
Kátia não vai gostar, mas já sabia que minha vida era de cigano. Me sinto meio covarde em usar isso para acabar tudo, mas já não estava mais legal. Acho que vai concordar comigo.
Tenho que comprar roupas novas para o frio.
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Sexta, 05/11/1999 – Zaventem
Estamos no quinto dia e esse curso de formação de gestores já me surpreendeu. Serão duas semanas boas. Só preciso estudar bem para não passar vergonha nas provas.
O lugar é sossegado, bonito, tem um friozinho legal e é perto de Bruxelas. Tem pessoas do mundo todo e estou gastando o inglês! Me sinto parte de algo que pode fazer a diferença.
Hoje teve aula com o professor César Moura, brasileiro, cara gente boa. Foi sobre gestão de pessoas. Ele conseguiu passar tudo muito bem. Sendo franco, o que vou me lembrar mesmo é das coincidências: ele é baiano, dono da empresa onde Cíntia trabalha e pai do atual namorado dela! Foi muito gentil por aceitar meu convite para um drinque após a aula. Conversamos muito sobre o trabalho dele e me deu dicas bem legais. O melhor foi ele ter lançado luz sobre algumas coisas daquela situação horrorosa com Cíntia.
O filho lhe contou que o tal Vampiro, além de tudo que fez com sua gangue, que lemos nos jornais, depois da relação encerrada ainda chantageou a família dela, ameaçando com sequestro e outras coisas mais. A mãe foi internada com esgotamento nervoso, pouco antes de Cíntia apresentar o quadro de depressão. Que inferno. Fiquei feliz por saber que ela melhorou e está namorando uma pessoa que parece ser do bem. Quando voltar a Salvador vou tentar contato com ela. Sinto vontade de dizer que não se condene tanto, se ela o faz. Teve coragem para realizar, sofreu o diabo, bateu no fundo do poço, mas voltou. Eu teria feito? Não sei.
Esse papo com o professor me fez voltar a pensar em como ainda quero viver uma paixão. Sair desse lugar acomodado. Me mover de verdade na direção de outra pessoa. Me sinto resolvido quanto a isso. Não tenho mais medo.
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Sexta, 18/01/2002 – Itacimirim
Um dia que ainda não sei definir, mas não vou esquecer.
Foi bom tirar esses dias para visitar meus pais em Salvador e a sugestão de amigos para conhecer a pousada Lagoa Clara, em Itacimirim foi ótima. Lugar bonito, simples, aconchegante. Ontem cheguei muito tarde de São Paulo e só deu tempo de ir dormir.
Dinho já tinha saído de Salvador para tomar café comigo. Eu o esperava a olhar umas crianças brincando com os pais na piscina e surgiram na minha frente Cíntia e seu namorado! Que coincidência boa! Hesitei um pouco, mas lhe contei sobre meu encontro na Bélgica, que ela, claro, já conhecia. Me deu mais detalhes sobre a história com Vampiro. Falava com emoção, mas equilibrada. Parece que está bem.
O grande momento foi a chegada de Dinho, acompanhado. De longe não reconheci a pessoa. Pensei ser a médica sobre quem ele vinha me falando muito, mas era Gina! O sacana não me contou nada e arrumou tudo na moita. Como ela pode continuar tão linda?
Depois da praia e das conversas atualizadas, pensei que íamos nos despedir, mas sorri feliz quando Gina olhou para mim e falou para todos que ficaria ali por todo o fim de semana.
