Um dia vou, um dia

Um dia vou, um dia

Helô Mello

7 de janeiro de 1960

Estou de mãos dadas com meu pai. Sou pequena e não me recordo bem quantos anos tenho. São breve sopros de memória que me remetem a esse dia, um cheiro verde de maresia, da casa que a minha avó alugou em São Vicente para passarmos as férias. Estou de maiot, cabelos molhados e pés descalços. Ao meu lado está a boia largada na areia, em formato de canoa, com um furo no centro, como a dos índios, imaginava. Me sentia solta e protegida no mar, depois da arrebentação. O mar desses tempos era tão ameno como a minha infância naquele verão. Dessa temporada o registro foi esse dia que irradiou todos os outros, um dia que durou as férias todas.

9 de abril de 1968

Aos 11 anos sou a mais alta da classe por isso sempre fico na fileira de trás para tirar a foto. Só não gosto porque a minha melhor amiga, bem mais baixa, fica sempre na frente, sentada no chão, de pernas cruzadas. Queria ficar ao seu lado, nunca me separar dela, imaginava que poderíamos ser irmãs. Conto a ela todos os meus segredos. Compartilhamos a borracha e os lápis de cor com os quais desenhamos o nosso mundo. Escondo os medos no fundo da gaveta da cômoda, junto com os gritos dos meus pais que escuto do travesseiro escuro. De manhã parece que a noite foi só um pesadelo que as nuvens levaram.

5 de junho de 1968

A varanda ficou opaca depois que o meu pai se mudou de casa. Me balanço na rede entre as minhas bonecas e a solidão. A samambaia que aparece ao lado da rede ainda está verde. Ela secou depois de uns meses, quando minha mãe entrou em depressão e não conseguia mais sair da cama. Foi a última vez que vi o meu pai antes dele se perder. Por isso nesse dia me sinto importante. Acho que ele veio só para me ver.

7 de novembro de 1971

Minha mãe e eu nos mudamos para esse apartamento. Sem notícias do meu pai, sem rede nem varanda, e sem amiga para me acompanhar na nova escola, a vida ficou cinza. Me sinto tão deslocada como essa foto que colei torta nesse diário. No meu quarto sumiram as bonecas e agora tenho uma mesa para estudar. Guardei o que restou dos meus lápis de cor na caixa de bombons que minha tia me deu de aniversário e que comi numa tarde sozinha. Nunca mais desenhei.

8 de agosto de 1975

Moro no meu próprio conto. Os personagens são vestígios de fotos 3 x4 dos meus colegas de classe. O cenário e as frases de efeito escaparam das revistas Casa Claudia que a minha mãe coleciona e guarda arrumadas por data na estante acima da sua escrivaninha. Convivemos no meu mundo esparramados ou amontoados. Na minha história subimos montanhas, me grudo no rio, desproporcional ao meu tamanho,

invadimos salas coloridas com ideias de decoração que nunca teremos. A frase “Tudo que você precisa saber” rompe em diagonal a página sem fazer sentido com a imagem que se avizinha. Gosto de morar nesse caos. Na prateleira de casa as revistas, comportadas, voltaram para o seu cativeiro, e me divirto sabendo que agora elas estão tão esburacadas como as minhas ideias.

2 de janeiro de 1980

Recortei, rasguei e remontei o que sobrou de mim. Os remendos formam uma nova Gabriela, a que gostaria de ser. Arranquei minha mãe que morava ao meu lado. Nessa fotomontagem só cabe eu, despedaçada. Os olhos, de tão separados, veem mundos de ângulos diferentes, tornando difícil conciliar uma única visão. O sorriso, desproporcional, ocupa quase toda a cabeça. A ponta do nariz, que desponta atrás dos dentes, é da criança que fui, na praia, quando sentia o cheiro das cores. Partes do meu corpo resgatei das fotos abandonadas na caixa, junto com os toquinhos de lápis de cor, que achei quando fui jogá-los no lixo. A cor azul aparece no vestido que, mesmo picado, insiste em contar que pode haver outras estampas. No fundo grudei a serra da Mantiqueira, no município de Gonçalves, que conheci no ano passado. Imagino que um dia vou morar nessas montanhas.

Vivo passeando no meu diário imagético, nessas páginas mofadas e comidas de traça, tão esquecido como eu. Um dia vou, um dia.

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