por Américo Paim
Aquele não era apenas mais um momento de humilhação. Era quando se via mais baixa, sentia suas forças sumirem, como a escorrerem por um ralo infinito.
– O que está esperando? – sua voz era seca e alta.
– Nada… é que está um pouco quente ainda – a voz lutando para sair.
– Como assim? Acha que tenho o dia todo, sua besta?
Marisa tentou controlar o tremor das mãos e provou o chá sob o olhar severo do pai. O calor lhe queimou a língua, mas escondeu a dor. Ele levou a xícara branca à boca, mal encostou no líquido e disse, cínico e com olhar de desprezo, que estava quente demais. Levantaram-se e ele a abraçou por trás, pela cintura, prensando-a contra a pedra da pia.
– Faça seu trabalho. Nada de televisão, leitura e outras bobagens. Quero meu jantar bem feito. Não essa porcaria de agora, entendeu?
A fala pausada trouxe o medo de sempre. Ele a bolinou, vestiu o paletó e bateu a porta, sem olhar para trás. Ela correu ao quarto, trancou a porta e se deixou escorrer pela mesma até o chão, em choro intenso.
Quando cansava, adormecia ali mesmo, na sarjeta de seu quarto. Como suas noites eram de sono ruim, apreensiva com o que ele podia fazer, o dormir tranquilo era durante o dia. Quando acordava, ia para limpeza, arrumação e cozinha. O apartamento de três quartos parecia imenso depois da morte da mãe, há oito anos. Ela agora contava dezoito anos, alguns deles de abusos e tortura. As poucas boas lembranças eram com a mãe viva. Sua morte mudou Atílio, seu pai, para pior. Já era grosso e impaciente, mas a perda dela lhe levou o resto de equilíbrio. Por causa do trabalho dele, Marisa foi morar com a avó materna, mas ela também morreu logo, quando a menina tinha treze anos. Ela voltou para o pai. Ali começou seu calvário.
Ele era um homem alto e forte, de traços rudes e pele sofrida. Ela, mirrada, muito branca da mãe, cabelos encaracolados e olhos bonitos. A convivência foi tranquila no início. Ele lhe disse que ela teria que ajudar nas tarefas domésticas. Logo ela já fazia tudo. As coisas seguiam normais. Ele só estressava se fosse contrariado. Com o tempo, mudou: chantagem emocional, pedidos mais agressivos e enfim imposições e ameaças. Depois, a manipulação, o alcoolismo e a brutalidade física trouxeram a perigosa mudança de patamar. Criticava a filha todo o tempo. Tudo era motivo. Poeira em um canto da sala, o sal da comida, lâmpadas queimadas, as roupas que ela usava, o som da tevê e até a tristeza em seu rosto. Minou sua autoestima até extingui-la. De forma lenta, constante e impiedosa, ele a engoliu e ela passou a fazer tudo o que ele queria. Assim foi a vida entre os seus quatorze e dezesseis anos. Ao fim desse período, por causa de vagas lembranças, percebeu que ela era uma continuação da mãe.
Aos dezessete anos, o mais baixo nível de degradação. Uma noite de sexta-feira, ele chegou bêbado e mais agressivo. Ela buscou distância e silêncio seguros, ensinados pelo terror, mas ele a chamou no quarto. Mandou despi-lo pois ele não conseguia. Ela tentou negar, mas a ponte havia sido atravessada e detonada. Ela não existia. Tirou seus sapatos e meias, começou a chorar. Recebeu um tapa. Lhe desceu as calças, implorou para parar. Outro tapa. E outro. Ao tirar a camisa, a empurrou sobre a cama, jogou-se sobre ela e consumou a violência. Ao final, disse-lhe ao ouvido, bem devagar, que não contasse a ninguém ou sofreria as consequências. Falou que fez aquilo para protegê-la de homens ruins. Foi a primeira vez de muitas.
Insegurança, traumas e medos a impediam que travasse contato normal com outras pessoas. Vista como uma diferente, era evitada. Estava no penúltimo ano do ensino médio, não tinha amigos, mal conhecia a vida. A única exceção era uma vizinha que, com pouco mais que sua idade, tinha vida oposta, livre. Foi isso que a atraiu em Lisete. O mundo real. Se conheceram naquele ano, ao acaso, no elevador. Descobriram-se vizinhas de corredor. Passaram a se falar e encontrar. Conversavam do mundo e de sofrimento. Ela achava a amiga inteligente, dinâmica e bonita. Passou a lhe copiar. Em breve, de forma natural, fazia quase tudo que ela pedia. Não sabia, mas agora tinha uma senhora.
A conta de tudo isso veio naquela semana crucial, na terça-feira à tarde, quando a amiga chegou da faculdade de Administração e se encontraram no apartamento dela.
– E então, criatura, guardou macarronada para mim?
– Poxa, não deu. Ele comeu tudo ontem à noite. Parecia um monstro.
– Você me prometeu. Assim eu fico triste – o tom era de brincadeira, mas nem tanto.
– Me desculpe! – falou tensa. Posso fazer agora. Vai tomar banho?
– Vou, mas você tem que ser rápida – comandou.
– Volto já! – falou entre alívio e alegria, saindo para o apartamento.
Quando retornou, as portas estavam encostadas, a principal e a do banheiro. Ouviu o barulho da água do chuveiro caindo e sentiu o sabonete perfumado. A amiga lhe gritou para ir até lá. Quando entrou, o vapor da água quente dominava tudo. Sem lhe dar chances, Lisete saiu nua do box e começou os carinhos ousados, tirando a roupa da amiga, que resistira da vez anterior, mas agora não. Fizeram ali mesmo. Ao final, foram à mesa, em roupões.
– Sei que gostou – falou incisiva. Eu falei que comigo seria diferente. Agora já sabe o que é bom. Não é como o papaizinho – a ironia ignorava os sentimentos da amiga.
– Fiquei com um pouco de vergonha – disse em voz baixa.
– E a minha comida? Não posso demorar, esqueceu? – falou enquanto lixava as próprias unhas, sem olhar para ela ou dar atenção ao seu comentário.
– É mesmo – correu para a cozinha.
Na quarta-feira elas não se viram ou falaram, apesar de muitas mensagens de Marisa.
Quinta-feira, tão logo ele saiu, ela foi ver Lisete. Precisava falar. A amiga estava à mesa do café. Não tinha muito tempo para conversar, tampouco foi festiva à sua chegada.
– Apareceu. O que veio me contar dessa vez?
– Nada. Eu queria… – começou, mas o choro tomou conta.
– Para com isso, menina! Já disse que não adianta.
– Eu não aguento mais! – gritou. A amiga se levantou e foi ao seu encontro.
– O que houve?
– Nada diferente. Só não suporto mais. Chega!
– Já me falou essa reza antes. Vai embora de lá!
– Não posso! Só quando receber minha herança.
A fala mudou a reação de Lisete, que foi hábil em não mostrar no rosto.
– Herança? Nunca me contou isso – falou puxando a amiga para sentar no sofá.
– Minha avó deixou dinheiro para mim, mas só ganho quando fizer vinte e um. Ou por grande necessidade.
– Ah, então está longe ainda – falou sem interesse.
– Pois é! Ainda mais três anos desse inferno. Ele podia morrer! – falou como se não fosse ela. Não notou a expressão curiosa no rosto da amiga.
– E de que lhe adiantaria ele morrer?
– Está na cláusula de grande necessidade. A falta do provedor – no caso ele. Foi o que li na Internet e no documento que peguei no cofre. Outro dia ele cantou a senha na minha frente, quando abriu para guardar uma pasta, cheio de cachaça.
A vizinha ouviu silenciosa e fez de conta que ignorou. Ordenou que lhe massageasse os pés, o que foi feito. Lhe mandou preparar o almoço e fazer café. Em troca, lhe deu uns tolos beijos. Almoçaram, Marisa foi embora e Lisete foi para a faculdade, pensando na novidade.
À noite, Atílio chegou aos costumes. Ela atenuou com o ensopadinho de carne que ele gostava. Tudo foi bem até a sobremesa, quando implicou com o doce de leite. Com um tapa, jogou o prato longe e a empurrou no sofá. Ela só conseguia chorar. Tirou o cinto e lhe bateu na barriga, nas pernas, nos braços. Rasgou suas roupas e serviu-se de seu corpo como quis. Bateu-lhe no rosto para que parasse o choro. Levantou-se e mandou que limpasse a bagunça enquanto ele tomava banho. Ela fez tudo, mas o ódio era palpável.
Na manhã de sexta-feira, Marisa foi ver Lisete, que a recebeu com sorrisos. Relatou mais uma vez sobre os abusos, mas foi abordada com outra linha de conversa.
– Precisa sair disso.
– Como? Ninguém vai acreditar em mim e ele vai me matar.
– Improvável.
– Por que? – disse curiosa.
– Ué, você vale grana, minha filha. Acha que ele quer perder isso?
– Mas é meu dinheiro. Nada é dele.
– Vai conseguir um jeito de tirar todo de você. Ele domina sua mente – falou fria.
– Então estou condenada para sempre – choramingou.
– Não. Precisa de outras opções no cardápio e eu tenho a receita certa.
– Que conversa é essa? – falou desconfiada.
– Você me disse que ele gosta de comer tudo, mas sofre do fígado e dos rins, não é?
– Sim, mas tá aí, firme e forte. O que quer dizer?
Lisete foi até o armário sobre a pia e voltou com um frasco contendo um picadinho cru de cor verde e outro vidro com um líquido opaco. Estava sorrindo.
– Misture esse verde na salada dele. Sirva com um pouco de azeite. Ele vai começar a se sentir mal em pouco tempo. Vai lhe pedir água e você vai dar leite com esse outro dissolvido, dizendo que é melhor. Use luvas pra mexer nisso tudo e jogue fora com as embalagens onde ninguém possa encontrar.
– O que é? – falou assustada.
– Um cogumelo.
– Como você tem isso?
– É outra história. Tenho uns amigos de olhinho rasgado. Você pergunta demais. Vá e não discuta. Não quer resolver? Faça amanhã.
Sábado, na hora do almoço, Atílio ficou animado com a mesa posta. Tudo que ele mais gostava no cardápio. Tomou duas cervejas e sentou-se. Como sempre, obrigou Marisa a provar a comida na frente dele. Ela o fez usando uma parte segura do prato. Ele comeu com gosto. Em pouco tempo começou a queixar-se de dores no abdômen e pediu algo para beber. Foi atendido. Logo foi parar no hospital, complicado, com muitas dores. Assim que teve chance, Marisa saiu de lá e foi ver Lisete. Ela a recebeu calma e indiferente.
– Então?
– Acho que é o fim do pesadelo – falou ainda hesitando.
– Demorou.
– Eu não entendi uma coisa. Sempre achei que todos os cogumelos eram comestíveis.
– Alguns apenas uma vez – riu sarcástica.
– E aquele outro líquido?
– Cerbera. Pra limpar a autópsia – falou caminhando para a cozinha. Quer suco de tamarindo? Fiz agora.
