Fábulas fabulosas

Liudmila Petruchévskaya finalmente foi traduzida para português brasileiro: seu Era Uma Vez Uma Mulher Que Tentou Matar o Bebê da Vizinha acaba de sair pela Cia das Letras. (Talvez o fato de seu filho ser um performer que mora no Brasil tenha ajudado.) Petruchévskaya só começou a publicar aos 50 anos e hoje é a autora mais famosa da Rússia. Suas obras vagam entre a autoficção e a ficção fantástica, passando pela fantasia mais desbragada. Mas o que nos interessa aqui é sua leitura muito especial dos contos de fada.

Tzvetan Todorov, um dos principais ensaístas literários do século 20, formulou a famosa teoria dos gêneros. Estruturalista e formalista, ele propôs uma gradação do realismo ao fantástico, passando pelo maravilhoso e o estranho com base em aspectos muito rígidos. Nem todos os autores seguem essas suas “regras”, nem é preciso segui-las para escrever, porém são uma interessante base para refletir e conduzir nosso olhar sobre o que forma a matéria do real para uma narrativa.

Para Todorov, no real maravilhoso, parente do realismo mágico e da ficção científica, “as coisas são como são“. Coelhos voam, ursos transam com humanos, relógios dão lições de moral, agulhas e linhas conversam – e nada é justificado. Não existe, no maravilhoso, aquela “hesitação” típica do realismo fantástico, em que estranhamos se aquilo que acontece é real ou imaginado. Nesse universo habitam os mitos, as lendas, os contos de fada, as parábolas e as fábulas. Aqui tem um pdf com o obrigatório Introdução à Literatura Fantástica.

Estudioso do formalismo russo, Italo Calvino foi um dos primeiros a perceber a complexidade dos contos de fada, demonstrando que de infantis eles não têm nada. Seu foco foram as lendas de seu país, coletadas no clássico Fábulas Italianas (aqui tem um pdf do livro). Reescritas de um modo “limpo”, sem arcaísmos, com uma prosa moderna, demonstram a sua atualidade, em especial no diálogo com os arquétipos psicanalíticos. Abaixo selecionei algumas.

Muitos escritores beberam na fonte das fábulas. Temos aí Millôr Fernandes, cujas Fábulas Fabulosas pervertem a moral da história introduzindo ensinamentos anarquistas e paradoxais às lendas que criou. Millôr traduziu do guatemalteco Augusto Monterroso (autor do mais famoso microconto da história, “Quando despertou, o dinossauro ainda estava lá”) A Ovelha Negra e Outras Fábulas (Cosac Naify), que também vai nessa pegada de usar a estrutura da fábula para criar novos simbolismos. Aí embaixo também segue uma fábula monterrosiana.

E o que seria a estrutura da fábula? Além do ‘era uma vez‘ de praxe, situando a narrativa em algum lugar e épocas indeterminados, a fábula segue alguns preceitos básicos. Os personagens são quase sempre unidimensionais; o acaso, arbitrário, pode acudir o enredo; o enredo é enredado em um sem-número de peripécias e reviravoltas; os personagens são alegóricos, isto é, representam determinados temperamentos, virtudes, vícios ou qualidades; há sempre velhinhos sábios, velhinhas malucas, crianças insensatas, animais inteligentes, feiticeiros e bruxos malignos, reis ou rainhas déspotas ou generosos, poções mágicas, tesouros encantados; muitas vezes o enredo se estrutura em uma jornada; cometem-se arbitrariedades e violências grotescas e injustificáveis…

Enfim: fora o Todorov, quem quiser estudar a fundo os contos de fada precisa ler tanto seu amigo, Vladimir Propp, em A Morfologia dos Contos de Fada, quanto o incontornável A Psicanálise dos Contos de Fada, trabalho pioneiro do psicólogo Bruno Bettelheim. Propp identificou as 31 etapas da jornada (assunto vastamente copiado em oficinas de escrita criativa). Seguindo o caminho aberto por Jung na interpretação dos símbolos, Bettelheim estudou os arquétipos dos contos de fada – trabalho que o aproximou de mitólogos como Joseph Campbell (o teórico por trás de Star Wars).

Outro que mergulhou no real maravilhoso, em especial nas parábolas judaicas, foi Kafka. Ele também usou a estrutura simples das fábulas para criar histórias terríveis, como o “Cavaleiro do balde” abaixo (Blumfeld, Um Solteirão de Mais Idade e Outras Histórias, Civilização Brasileira). O estranho conto, um dos favoritos de Calvino, ilustra sua tese sobre a Leveza, o que nos dá outra chave para a entrada no mundo da fábula: o fraseado é sempre ligeiro, busca a velocidade no desenvolvimento das situações e a síntese nas descrições de personagens e lugares. Neste conto de Kafka, no entanto, além das cores sombrias e dos onipresentes temas da opressão e da injustiça, existe um mistério que jamais é esclarecido e também a criação de um símbolo novo: o balde vazio – que pode significar carência, fome, privação, desejo ou busca.

TÁ RUSSO

Chegamos enfim a Petruchévskaya. O que faz de sua escrita algo tão original? Ela estrutura sua literatura sobre a contação, observando seus personagens de cima (terceira pessoa panorâmica), porém fazendo sutis rasantes sobre sua psicologia (discurso indireto livre). Sua prosa é saborosa e divertida, flerta com o humor, ainda que foque no horror. Seus contos quase sempre trazem pequenos ensinamentos, porém pervertidos. Só que seus temas, embora universais e atemporais – como a guerra, a fome, o exílio, a perseguição política e religiosa, a inveja, a avareza – trazem um inconfundível toque contemporâneo. Impossível não ler em seus contos analogias de um Rússia dominada pela peso estatal comunista e depois mergulhada no banditismo capitalista pós-Perestroika. Há até mesmo contos de fada distópicos, como a obra-prima “Higiene”.

PROPOSTA

E é isso o que você vai fazer: escrever um conto de fadas contemporâneo. Procure se ater à narrativa, ou seja, encadear séries de situações. Não é preciso usar o “era uma vez”, mas use-o para ver como automaticamente vão surgir várias historinhas…

Narre na terceira pessoa. Pode ser o discurso indireto livre.

Você vai lidar com a contação. Mas pode abrir aqui e ali sua narrativa para cenas ou trocas de diálogos.

Conte em uma época não especificada. Porém, ambiente sua história em sua cidade, dando raros detalhes muito específicos. Não economize nas pulsões de sexo e de violência. Não economize nas peripécias.

Alguém terá poderes mágicos. Algum objeto será perdido. Alguém sofrerá de uma doença. Algum animal terá um papel importante na trama. Alguém estará em busca de algo.

Busque criar um clima de horror e suspense.

Em uns 8 mil toques.

Deixe um comentário