NO PALCO DO SÃO LOURENÇO

1.

Quando Marcelo subiu ao palco do São Lourenço para o seu primeiro teste, eu já tinha assumido a direção do teatro há seis meses. Sentado na terceira fileira de poltronas, tendo ao meu lado Célia que conferia em sua prancheta a lista de candidatos para uma temporada de três peças de Sade, estava a um passo de me entediar. Aquele seria o meu segundo trabalho como diretor do SL, depois de um Ionesco relativamente exitoso, que embora não tenha sido um sucesso de bilheteria, acabou se tornando um fenômeno cult entre jovens estudantes de artes cênicas e cenografia, que nos meses seguintes foram me mandando e-mails e seus péssimos livros de poesia, e que amaram quando anunciamos que estávamos selecionando o elenco para a tríade Saló, A Perseguição e A Filosofia na Alcova. Era um trabalho ambicioso, já sabíamos disso então, mas na época havia uma força que me movia, algo muito parecido com ódio mas que não era ódio, e sim anterior ao ódio ou a qualquer sentimento humano que já tenha sido nomeado, e eu passava horas revisando os roteiros, cortando páginas, invertendo diálogos, fumando e vislumbrando em um ou outro acesso de inspiração possíveis saídas cênicas para aqueles textos, cenários minimalistas, compostos de luzes e sombras, objetos derretidos, enfim, era a esse tipo de delírio que eu precisava me entregar se pretendia dar continuidade a aura que se formou ao meu redor depois da montagem de O Rinoceronte. 

De modo que quando aquele rapaz magrelo e baixo, como se fosse um jornaleiro do século XIX, com seus cabelos de um amarelo aguado e a expressão inequívoca das pessoas que choram por qualquer bobagem, subiu ao palco e fez um monólogo de seis minutos, eu pedi para Célia que ela desenhasse um círculo ao lado do nome do rapaz porque você sabe, eu disse, esse é o tipo de pessoa que o público adora ver sendo torturada. 

2.

Três dias depois, pulei por cima de todos os outros selecionados, deixando para Célia a função de contatá-los, e liguei para Marcelo, marcando um encontro num restaurante para que eu lhe explicasse algumas coisas sobre as peças. Então corria o ano de dois mil e dezesseis e estávamos num inverno particularmente pernicioso; sentei numa mesa para dois ao lado do janelão, esperando por ele, depois de pedir ao garçom uma garrafa de vinho, e fiquei pensando de onde vinha essa vontade de ver coisas belas sendo destruídas.

Marcelo foi pontual. Apareceu metido num sobretudo azul-escuro e calçando alpargatas gastas. Estendeu a mão para mim com muito entusiasmo, o que fingi não perceber. Ele ficou desnorteado e o mandei sentar. Depois de encher sua taça de vinho, brindamos qualquer coisa — Sade, talvez. O ouvi falar que tinha se graduado ator na SP Escola de Teatro, ao que respondi, é mesmo?, mas que bela bosta, e era realmente prazeroso interrompê-lo a cada tentativa de fala, porque ver ele me obedecer agitava todos os demônios que em mim se amontoavam e pediam mais, de modo que eu contava histórias sem fim apenas para chateá-lo, apenas para ver os lábios tremendo, a cabeça balançando, concordando com tudo, como se eu não fosse um diretor de teatro mais insignificante do que a moeda que se encontra na rua, e sim uma espécie de rei ou ditador, cujos escravos e torturados eram os ideais daquele garoto triste. 

3.

No primeiro encontro com o elenco, numa madrugada no São Lourenço (todos nossos ensaios eram de madrugada), lhes expliquei o conceito de Artaud sobre a crueldade, a fórmula que demonstra que dizer  crueldade é o mesmo que dizer vida. 

A verdadeira crueldade não tem nada a ver com nós despedaçarmos os corpos uns dos outros, eu lhes dizia, e sim se trata de uma crueldade muito mais terrível. É a crueldade que as coisas exercem sobre nós. A crueldade que nos lembra que somos livres, e que o céu pode cair em nossas cabeças a qualquer momento. Antonin Artaud, falei, criou um teatro cuja espetacularidade era totalizante; o drama se desenrola não nos sentimentos, mas no estado espiritual dos atores, que, como num ritual, deve se deixar mostrar por meio de gestos e esquemas. Os signos valem muito mais que as palavras, e se queremos alcançar e expor o espírito dos textos de Marquês de Sade, é a esta concepção de teatro e dramaturgia que devemos nos entregar: a representação em transe. 

Ao ouvir essas palavras, os jovens atores se agitaram, animados, feito uma platéia de crianças diante de um palhaço, e nas veredas sensíveis do meu inconsciente as contradições e as vontades seguiam se debatendo, então acendi um cigarro e disse e aí, vamos começar?, e todos se levantaram e começaram a andar pelo tablado, como se esperassem que eu desse ordem de algum desses exercícios banais que as escolas de teatro inventam para deixar os atores amigáveis e inofensivos. Num gesto largo, fui até Marcelo, que andava em círculos curtos e lentos, peguei-o pelo braço e falei é o seguinte, vamos começar do começo, estar dócil é estar morto, e os textos de Sade são jorros quentes de vida, e a primeira face da revolução, ou da revelação, como preferirem, é o desespero. Quero quatro homens aqui, o restante pode ir sentar-se nas poltronas. 

Quatro garotos altos foram os selecionados e os pedi para que se posicionassem num semicírculo diante de Marcelo, que usava o mesmo sobretudo azul-escuro e a essa altura tremia. Marcelo, reclamei, você não vai fazer a cena com essa roupa, vai? Ele balançou a cabeça numa vaga negativa, olhando pro chão. Dois demônios pousaram nos meus ombros e minha vontade era começar a rir, mas em vez disso o observei tirando o casaco e pedi para que tirasse também a camisa branca que usava, o que ele obedeceu com uma hesitação que pareceu hilária, e só pra melhorar as coisas joguei para a plateia que havia se formado: o que vocês acham dele tirar as calças?, e todos riram, e eu disse pois é, Marcelo, são eles quem decidem, então ele tirou os jeans expondo pernas muito brancas e muito finas, e uma cueca larga que se assemelhava a uma fralda ou aos trajes de um faquir, e ao ver isso eu quase não resisti, a minha vontade era fazer com que ele engolisse cada uma das bitucas dos meus cigarros, mas preferi partir para uma abordagem mais realista com aquilo que eu tinha ao alcance da mão, e me dirigindo aos outros quatro garotos eu falei bem, como vocês já devem ter percebido, vamos fazer o Saló, creio que todos aqui deram uma olhada no livro e no roteiro, e como eles assentissem, eu apertei a nuca de Marcelo e o fiz dar um passo a frente, em direção aos seus carrascos, e falei pois então os senhores fiquem à vontade. 

4.

Foram explosões. Humilhação real sendo recebida com risadas. Vergões e carne. Vai ser um sucesso, lembro de ter pensado. Um sucesso. Algo tão próximo da tortura, minha obra-prima. 

5.

Depois da noite de estreia (um público inesperado, ficou gente pra fora, me contaram), no teatro da Aliança Francesa, fomos todos a pé jantar no Planeta’s. A meio caminho da Praça Roosevelt, deixei os atores irem na frente, muito animados com seus casacos e seus cigarros debaixo dos postes de luz que intensificavam a coloração rosada do cimento, e me encostei em Marcelo, que ia cabisbaixo, quase contra sua vontade, apartado do grupo. Usava o mesmo sobre-tudo, que agora servia também para cobrir hematomas. Uma casa vitoriana em estado de demolição, a oeste da praça, emprestava ao momento uma aura de atemporalidade, juntando passado e presente, isto é, uma situação muito favorável aos demônios, como se sabe. Olhe, eu lhe disse, você foi de grande importância pra estreia de hoje. Obrigado, ele sussurrou. Mas vou ter que dispensá-lo, falei, estou de olho num outro menino para o seu papel, e no elenco já tem gente demais, você sabe como é. O restaurante estava a menos de cinco metros; alguns dos atores inclusive tinham entrado pra pegar uma boa mesa. Sim, eu sei como é, disse Marcelo. E depois seguiu seu caminho, subindo a rua. 

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