PANELA DE PRESSÃO

Silvia Argenta

Tânia abre os olhos e enxerga o teto branco. Se assusta porque a sensação é de que vai cair em cima dela. A primeira reação é de proteger o rosto com os braços e encolher o corpo. Espera alguns segundos, mas nada acontece. Quando a respiração desacelera, se dá conta de que a construção está firme. Seu coração é que está despedaçado. Não reconhece o quarto. Um papel na prancheta ao seu lado tem a anotação de que sua pressão está normal. Um lençol verde desbotado e puído cobre seu corpo. Ela o levanta e só então entende por que está ali.

No início do namoro, há dez anos, ela tentava convencer Joel para que ele a deixasse trabalhar. Conseguiu um emprego como vendedora numa loja de roupas infantis do bairro. Sempre gostou de crianças. Seria perfeito ajudar a pagar as despesas da casa, afinal o companheiro ainda não tinha nada fixo. Quando ela lhe deu a notícia com os olhos brilhando, ele a puxou pelo cabelo preto e comprido e disse que não aceitaria a humilhação. Ela se espantou com a impulsividade dele, mas não reagiu. Concordou que era melhor ficar em casa mesmo. Apesar de a cabeça dela ter ficado dolorida por dias, entendeu que se ele estava com esse ciúme bobo era porque gostava dela.

Após um ano, Joel conseguiu passar para o concurso da polícia. Emprego estável e salário fixo. Agora sim ele garantiria o sustento da família, que enfim podia crescer. A vida como dona de casa já estava monótona para Tânia, e uma criança daria um ânimo para o relacionamento. A comemoração seria um jantar na pizzaria. Ela se preparou durante toda a tarde. Passou leave-in nos cachos, hidratante na pele, batom para realçar o vermelho da boca. Investiu no perfume. Apertou dez vezes na válvula do spray do Thaty. Saiu do quarto com uma blusinha amarela e minissaia preta, segurando uma pequena bolsa de mão. Só faltava colocar o sapato de salto. Assim que ela apareceu na sala, ele reclamou da saia curta, do batom forte e do cabelo solto. Mandou que ela voltasse para o quarto e trocasse de roupa. Ela respondeu que estava se sentindo bem, mas ele insistiu. A pressão funcionou. Só saíram quando ela fez um rabo de cavalo e colocou uma calça e um tênis. Ela mal conseguiu engolir a pizza.

Ao menos o plano para ter filhos era consenso. Ela se programou. Contava os dias na tabelinha, fazia ginástica pela aula na televisão e comia feijão, rúcula e abóbora. Joel achava um exagero todas essas regras e depois de várias tentativas frustradas começou a chamá-la de seca e inútil. Ela ouvia essas palavras enquanto estava sentada na cadeira da cozinha, onde normalmente ocorriam as discussões. Cada vez que ele falava algo, suas costas curvavam e seus dedos se entrelaçavam mais. Apesar de discordar, não respondia nada. Seu olhar ficava fixo no chão. Como não reagia, ele a atacava verbalmente com mais frequência. Quando ele saía para trabalhar, ela se jogava na cama e chorava abraçada no travesseiro até pegar no sono. Chorou tanto até que assimilou que o problema era dela. Defeituosa e sem valor, decidiu aceitar que sua vida se resumiria à sua casa e ao seu marido.

Ele passou a ficar mais tempo na rua. Dizia que pegava plantões extras para dar conta de pagar as despesas dela. Reclamava que ela comia demais. Chegava em casa estressado e mal humorado, até mesmo quando trazia algum chocolate de presente. Não foram raras as vezes em que ele a obrigou a transar, o que a deixava com manchas roxas nos braços de tanto se debaterem. Ela sentia cheiro de outras mulheres nas roupas do marido, mas a essa altura não se importava mais. Era a válvula de escape dele. Ela só queria cuidar da casa e das plantas. Preferia ficar longe da luz, como as suas samambaias. Nem visitava sua mãe e o resto da família porque ele trocou a fechadura do portão para que ela não circulasse pelo bairro. Ela entendia que essas restrições eram para protegê-la, já que ele prendia bandidos e eles podiam querer revidar algum dia. Ela se sentia segura quando ele falava isso. Até se apaixonava de novo quando demonstrava que se importava com ela. Ele tem virtudes: é protetor e não bebe, pensava ela, tentando se agarrar nas migalhas para sobreviver na pequena fortaleza que ele criou.

No dia em que completaram dez anos juntos, ela descobriu que estava grávida. Foi uma surpresa. Ele aparentou ter ficado feliz, mas mal acompanhou a gestação. A barriga aumentava e ele se distanciava cada vez mais. Ela não dividia sua alegria em gerar uma criança. Continha qualquer tipo de felicidade para não desagradar o marido. A euforia logo virou um fardo. Numa tarde, ela decidiu ir ao posto de saúde para fazer o pré-natal. Pulou o muro com a ajuda de uma cadeira e foi na consulta. Tudo certo com o bebê. Quando voltou, ele estava em casa e perguntou por qual motivo ela queria escapar dele. Ela mentiu, explicando que só foi ver o médico porque tinha sentido pontadas e enjoos. Ele não se convenceu e a chamou de vagabunda, puta e piranha por abrir as pernas para um homem e por não ter procurado uma médica. Era só médico homem que tinha disponível na emergência, ela disse. Mal terminou de falar a frase, e ele cravou a sola da botina na barriga de cinco meses. Ela caiu desacordada no pátio de ardósia. Como ele desconfiava que não era o pai da criança, deixou Tânia deitada e foi para a rua. Não tinha coragem de enfrentar a realidade, seja ela qual fosse.

Ela ficou estirada até de noite, quando acordou, se levantou e foi para o banheiro. Sentiu uma tontura, mas nada que a abalasse. Enquanto tomava banho, passou a mão pela barriga e notou a cor esverdeada. Pelo espelho, viu o hematoma no olho direito. Nem se lembrava de outra coisa que não o coice e o rosto de ódio dele. Pensou em ligar para a mãe. Desistiu porque Joel poderia se irritar. Não comeu nada e se deitou na cama. Queria dormir, só que não conseguiu. Nunca imaginou que alguém pudesse ter tanta raiva dela. Suas mãos tremiam, e ela buscava entender o que tinha feito de tão errado. Chorou porque sabia que o marido estava tentando proteger a família. Não devia ter saído de casa sem avisar, se penitenciou.

Joel não dormiu em casa. No dia seguinte, apareceu de farda quando ela colocava o feijão para cozinhar. Entregou a ela um buquê de rosas sem dizer uma palavra. Ela o abraçou e perguntou se ele tinha passado a noite trabalhando. Ele espremeu os olhos, cerrou as mãos, soltou todo o ar dos pulmões e a empurrou. Bufou alguma coisa do tipo ‘vadia, não confia em mim’ e a puxou novamente com tanta força que rasgou seu vestido. Bateu várias vezes no rosto e na barriga dela. Ela tentava se proteger apoiada na parede até que despencou. As rosas e as folhas verdes se espalharam pelo chão da cozinha e foram arrastadas junto com ela até o pátio. Ela gritava de dor e implorava para ele parar. Mesmo assim ele chicoteou suas pernas com a mangueira azul, que em pouco tempo ficou manchada de vermelho. Ele caiu de joelhos e depois se estirou ao lado dela, chorando copiosamente. Os dois ficaram deitados mirando o céu encoberto. Os olhos sem brilho dela nem lacrimejavam mais. Seu corpo estava anestesiado. O sangue escorria de suas pernas e se infiltrava na ardósia enquanto o vento empurrava as nuvens cinzentas. Entre elas, um leve raio de sol apareceu e a cegou por um instante. Ela então girou o tronco, se aproximou dele, puxou a pistola da cintura e atirou nem sabe dizer para qual direção. Descarregou a arma. Quando a polícia chegou, Tânia estava abraçada ao marido com as mãos apoiadas no rosto frígido dele. Na cozinha, a panela de pressão apitava.

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