Bichos e cores

por Américo Paim

Bichos e cores


por Américo Paim

Era uma vez dois meninos, entrando na adolescência, ali na Cidade Baixa, nas redondezas da Igreja do Bomfim, já seguindo para a Ribeira. Se conheceram batendo baba na rua, os dois com doze anos. Altino, forte para a idade, era de média altura, cabelo crespo e pele morena. Um boa praça, alto astral, mas que ninguém bulisse com ele porque virava bicho e rápido. Edésio era mais alto e quieto, porém simpático também. Diziam que era sonso. Tinha o cabelo mais para liso e um quase bigode que acreditava impor algum respeito. A amizade deles era só coisa do futebol e encontros à toa.

Edésio, dado aos estudos, era mais recluso e morava com os pais em padrão confortável. Sua criação era rígida. Altino morava com a mãe em uma casa simples, branca, preta e marrom, mas só ficava lá se não tivesse jeito ou quando sua mãe o prendia para umas misteriosas sessões fechadas. Coisa de mãe, dizia se perguntassem. Falavam que ele sofria com umas dores de cabeça estranhas e frequentes. A vida deles foi essa até os dezoito anos, depois, sumiram da vista um do outro.

Dez anos depois, o acaso os reuniu. Altino foi a uma entrevista de emprego com um Supervisor na fábrica de embalagens plásticas. Quando entrou na sala hesitou diante daquele jovem com óculos de aro de metal e jeito inteligente, mas o reconheceu: era Edésio. Esboçou sorrir, mas convidado a sentar-se, preferiu focar na conversa. Ao final, ouviu de forma clara e objetiva:

– Não pense que não sei quem você é. Fico satisfeito em dar uma oportunidade a um colega de infância, mas aqui na empresa somos muito profissionais e é isso que cobro da minha equipe. Fui claro?

– Sim, muito – respondeu impressionado.

Nos primeiros dois anos na São Vicente Embalagens Ltda., Altino foi muito bem. Compensava a falta de melhor base de estudos com disposição para aprender. Conquistou espaço rápido, mas com o chefe era tudo formal. Curioso sobre Edésio, descobriu que ele vivia sozinho há anos, desde a morte dos pais em um acidente estranho na fazenda da família. Era discreto e calado, mas justo. Altino acreditou nisso.

Em um mês de agosto, a empresa contratou uma engenheira para desenvolvimento de projetos. Lourdes era jovem, alta, bonita, inteligente, de expressões e gestos delicados. Chamou a atenção sem demora. Onde chegava, o ambiente ficava luminoso, colorido. Edésio a conheceu nas reuniões de planejamento estratégico e se encantou. Em pouco tempo ele mudou, mais falante, sorrindo. A atração não era mútua, mas ele não se incomodou. Se aproximou dela aos poucos e se planejou para algo mais.

Um dia, após uma reunião, ele pediu que ela permanecesse na sala. Sem perder tempo, a convidou para jantar naquela noite. Estava confiante, mas despreparado para a negativa que veio. Ela foi gentil, mas se fez definitiva. Não queria nada além da relação profissional. Ele não digeriu bem. Ficou ali com olho de peixe morto. A partir disso, ficou seco e até rude com todos.

Na semana seguinte, no refeitório, procurou por ela, seguindo seus passos desde o dia do não. Estava sozinha em uma mesa de dois lugares. Imaginou ir até lá, mas assistiu estupefato a chegada de Altino, que se sentou de frente para a moça e os dois sorriam fácil, leve, como íntimos. Aquilo o fulminou. Como era possível aquilo? O que ela via nele? Não conseguiu terminar seu prato de frango e a semana também pareceu sem fim. Passou a acompanhar ainda mais de perto a rotina dela. Dentro dele o que no começo pareceu ciúme, foi piorando. Agora monitorava os passos dos dois, não só os dela. Logo constatou que eles estavam juntos e o caldo entornou. Uma nuvem negra sobre sua cabeça.

Ele começou a retaliar. Tudo o que Altino realizava passou a ser criticado. Começou de forma profissional, como se estivesse mais rigoroso. Disfarçou atacando outros integrantes de sua equipe, mas logo ficou claro que era um alvo só. As cobranças ganharam cores de ilogicidade e o quadro passou a surreal. Ele parecia um cão raivoso. O antigo amigo de infância resolveu pesquisar. Conversou aqui e ali, observou isso e aquilo e chegou ao ponto certo: Lourdes. Então, era pessoal. Tentou se equilibrar, mas a tensão só aumentava e o limite chegou quando Edésio chamou sua atenção aos gritos em uma situação na oficina de pintura, na frente de diversas pessoas. Ele partiu para cima, como um touro bravo. Contido por alguns colegas, ouviu a sentença:

– Você está despedido, seu incompetente! – o grito veio com um sorriso realizado.

– Não é justo! É perseguição! – tentando se desvencilhar dos que o seguravam.

– Você é muito ruim! Eu devia ter resolvido isso antes!

– Pensa que vai ficar assim? – os olhos esbugalhados, vermelho. Sua cabeça doía.

De repente as luzes da oficina começaram a piscar, muitas latas se moveram nas prateleiras e três delas despencaram parando aos pés de Edésio, diante dos olhares assustados de todos. Após segundos de paralisação, o chefe as chutou e voltou a falar.

– Está me ameaçando? Com todas essas testemunhas? – falou, agora com medo.

Altino se soltou dos colegas. Respirou e caminhou em direção a ele. O clima era insuportável. A um metro de distância, parou. Falou lento e claro, dedo em riste:

– Você vai matar um macaco, um cachorro e uma aranha. Quando isso acontecer, três pedras vão marcar o seu fim. É o que digo que vai ser – as luzes pararam de piscar e tudo ficou parado. Nem um vento. Daria para ouvir zumbido de muriçoca.

O silêncio pesou e um sentimento de terror encheu o ar. Edésio tentou rir, mas parou logo, ao ver a expressão do rosto dele e o medo nos dos outros. Saiu dali atordoado. Altino deixou a empresa e Lourdes fez o mesmo, não muito depois. A vida continuou, mas o incidente deu o que falar por algum tempo.

Dali a seis meses, Edésio estava no quintal de casa e viu uma manga madura. Como não tinha uma haste, jogou uma pedra. Não acertou, mas algo foi atingido e tombou. Era um mico preto, que caiu morto. Na hora lembrou do episódio na fábrica. Achou tudo estranho, mas em alguns dias esqueceu.

Semanas depois, em reunião com a Diretoria, no fim do dia, o trabalho de sua equipe foi questionado de forma dura. Saiu dali enfurecido, pegou suas coisas e foi para o pátio de estacionamento. Entrou no seu carro. Suava muito. Afrouxou a gravata, xingou alto. Ligou o motor, engatou a ré e saiu sem olhar para trás. Sentiu o solavanco, como um quebra-molas. Saltou para conferir. Havia atropelado um cachorro branco. Estava morto. Xingou com mais raiva ainda. Manobrou e foi embora, sem ligar para o bicho. Pouco depois, refletindo em um sinal fechado, a fala de Altino lhe voltou. Aumentou o medo.

Por causa da aranha, o bicho que faltava, veio o pânico. Ao mesmo tempo que se julgava capaz de controlar isso, tinha medo de matar até sem querer. Sua casa virou uma bolha de limpeza – não poderiam surgir teias. Seu rendimento no trabalho caiu. Vivia isolado. Começou a fazer terapia. A saúde física se deteriorou. Apareceram dores estranhas e mal estar. Ia ao médico, fazia exames e nada. A empresa lhe deu ultimato: tirasse férias e procurasse ajuda.

No fim do seu primeiro dia sem trabalhar, dentro de casa, foi tomar banho. O jato de água quente na cabeça lhe acalmando, como o azul claro dos azulejos do banheiro. Foi quando achou ter ouvido um ruído. Fechou a torneira. Vinha do ralo. Antes que pudesse entender, a tampa voou e saiu de lá uma enorme aranha marrom! Tentou fugir, mas ela estava entre ele e a porta. Em desespero, achando ser atacado, pisou no bicho com violência, matando-o. Abriu a porta, mas ao sair escorregou e caiu de costas, batendo a cabeça com muita força na quina do rodapé do box. Seu corpo foi encontrado na manhã seguinte na posição em que caiu, sobre uma enorme poça vermelha. A tampa do ralo no lugar e nenhum sinal de que ali esteve uma aranha. Atrás de onde sua cabeça jazia, no rodapé, os azulejos recortados tinham três cores diferentes: preto, branco e marrom.

Altino e Lourdes? Estão casados desde pouco tempo depois que ele saiu da fábrica. Vivem muito bem e montaram um negócio de tintas.

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