Desovando um presunto

Geovani Martins tá sempre rindo nas fotos

Uma morte matada, mesmo acidental ou deliberada, não importa quão eficiente seja o sujeito que a cometeu, ainda deixa o trabalho de esconder o corpo. Afinal, se não há corpo não há crime… Alguns métodos populares:

  • Corpo na caixa (pode ser uma geladeira, um sótão, debaixo da cama)
  • Jogar no mar ou meter sapatos de cimento;
  • Enrolar num tapete;
  • Chamar um profissional pra limpar a sujeira;
  • Enterrar com outro caixão em um cemitério;
  • Comer a evidência, ou usá-la para alimentar outras pessoas;
  • Mandar pros porcos;
  • Derreter com ácido;
  • Deixar em um porta-malas e jogar num rio ou lago;
  • Queimar.

Temas correlatos: “Enterre meu coração na curva do rio” (sobre pessoas que deixam instruções específicas para onde desovar o corpo), “Claro que ele está vivo” (quando alguém finge estar morto), “Morto à vista” (quando o morto fica na frente de todos mas ninguém se liga, ou quando ele é deixado deliberadamente para mandar uma mensagem para outra pessoa).

Claro que este é mais um tropo narrativo típico – você já deve ter visto em um monte de filmes e livros. Roubei daqui.

VIDA BANDIDA

Geovani Martins, o jovem de 29 anos vindo da Rocinha, do Vidigal e do Bangu, tematizou esse tópico em “Travessia”, conto de O Sol na Cabeça (Cia das Letras), seu livro de estreia. Narrado no discurso indireto livre, o conto retrata um dia na vida de Beto, um vapor sem noção que acaba matando sem querer um cliente noiado. O gerente da boca em que trabalha, puto da vida, o manda desovar o cadáver para não sujar a área. Então Beto faz todo um rolê até sumir com o fruto de sua lambança.

O texto acaba por narrar a derrocada de um sujeito que já está em um grau muito baixo: para quem sonhava em ser jogador de futebol ou piloto de avião, estar proscrito até entre os criminosos simboliza sua total falta de lugar na sociedade. Outra leitura para o conto é de uma alegoria para uma demissão corporativa: Beto, além de ser obrigado a limpar o que sujou, ainda é mandado embora do trabalho, sem nenhuma compensação. É a prova de que as leis do capitalismo funcionam até em uma empresa fora-da-lei.

O conto está sendo adaptado para o cinema. Vão abaixo este e também o conto “Rolézim”, que dá uma ideia de sua prosódia, rica em gírias, andamentos e expressões típicas do morro, na linha de João Antonio, Marques Rebelo, Orestes BarbosaAntônio Fraga, Paulo Lins e Plínio Marcos – todos grandes narradores da malandragem brasileira.

PROPOSTA

Bem, é isso o que você vai fazer. Ou mais ou menos. Geovani escreveu esta história baseada em um fato real que ocorreu perto dele. Você também vai fazer isso. Sim, baseado em um fato real acontecido com você ou com alguém que você conheça.

Como imagino que você não deva conviver com pessoas que precisam se livrar de cadáveres, podemos pensar em outro tipo de cadáver. Alguma coisa feia que deva ficar escondida. Algum crime. Algum pecado. Algum livro. Algum caderno. Alguma joia. Algum fruto de um roubo. Alguma coisa amaldiçoada. Algum objeto. Algum arquivo que precisa ser ocultado. Alguma imagem ou vídeo que precisa ser deletado. Algum rastro que precisa ser apagaro. Alguma mentira que precisa ser encoberta.

Mas é difícil se livrar dessa coisa. Vão acontecer vários obstáculos ao longo do caminho. Conviver com esse peso também traz outros significados a esta coisa que você quer esconder, ocultar, enterrar, fazer sumir.

Talvez mesmo fazendo com que a coisa suma você tenha outros tipos de problemas.

Então vai levar um dia inteiro para você se livrar dessa coisa.

Você pode escolher um dos métodos lá em cima para desaparecer com seu probleminha.

Você vai contar a sua história no discurso indireto livre. O personagem pode ser você ou pode ser outra pessoa, você decide.

Descreva com riqueza de pormenores o trajeto que seu personagem vai fazer, e as pessoas que encontra pelo caminho.

Em uns 8 mil toques.

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