Silvia Argenta
Valquíria sonhava em se casar. Era ideia fixa. Fazia de tudo para conhecer o par perfeito que a levasse para o altar, naquele estilo tradicional mesmo: vestido de noiva branco, buquê gigante para jogar para as mulheres, fraque para o noivo, Lamborghini na porta da igreja antiga e bem conservada, festão para os convidados. Queria causar e impressionar a high society ilhoa, tão acostumada aos provincianismos. Imaginava os comentários e as fotos nas colunas sociais. Não cogitava outro caminho. Teimosa que só, ninguém conseguia convencê-la para aproveitar a vida antes de se casar. Com as roupas, os cabelos e a maquiagem sempre no lugar, a cada semana ela marcava um encontro com um homem diferente. Os olhos já estavam aguçados em detectar qualidades e defeitos dos pretendentes. Conheceu vários, até que escolheu o mais forte deles.
Em apenas dois meses, planejou tudo detalhadamente. No grande dia, ela amanheceu com conjuntivite e a maquiadora mal conseguiu disfarçar. Foi praga da Marcinha. Cogitou em mudar a data, mas seria inviável. Por causa da garoa que caiu no final da tarde, nenhum dos convidados viu a Lamborghini, que estacionou colada na porta da igreja. Mesmo tão próxima, a noiva ficou toda molhada porque se esqueceram de segurar o guarda-chuva enquanto subia a pequena escada. As quatro cerimonialistas ajudaram a carregar o véu, que ficou encharcado. Com cinco metros, o véu devia entrar se arrastando pelo corredor central da igreja, mas acabou virando uma gosma de tecido que não dava nem para identificar as rendas e espalhou mais água pelo tapete vermelho. Uma prima pegou uma toalha não se sabe de onde e tentou secar a noiva. Pelo menos o rímel era à prova d’água.
Menos da metade da igreja estava ocupada. A maioria dos convidados preferiu ficar em casa, já que a previsão do tempo anunciada no dia anterior não era animadora. Valquíria disfarçou muito bem a frustração. Passou a vida toda treinando cara de paisagem. Sabia como fazer. Subiu no altar, ouviu o padre, o noivo disse sim. Ela não chorou. Nem de alegria nem de tristeza. Trocaram as alianças de forma protocolar. Sorriso para as fotos. Só pensava nas madames comentando o fiasco da família Vitulia. A garoa virou chuva. Se na igreja o quórum já estava baixo, na festa então não tem nem como explicar tamanho fiasco. O cerimonial juntou os poucos convidados num canto do salão para fazer volume para as filmagens. Os recém-casados dançaram uma valsa, ensaiada exaustivamente numa escola de dança, e em uma hora já não havia mais ninguém.
Os noivos se sentaram derrotados. Abriram um champanhe e comeram alguns petiscos para compensar a decepção. A chuva ficou forte e os pingos grandes batiam nos vidros das janelas. Valquíria nem conseguia mais enxergar pelo olho com conjuntivite, que estava inchado. Começou a se sentir desconfortável e quente. Pediu para o marido abrir os botões de cima nas costas do vestido. Mesmo assim, o rosto ficou vermelho em segundos. No pescoço, apareceram pintas enormes que estouravam igual pipoca. As mãos ficaram mais arredondadas e foram tomadas por manchas disformes. Coçou um braço no outro na tentativa de parar aquela sensação. A vontade era de esfregar o corpo todo. Jogou longe o sapato de salto porque seus pés pareciam que tinham virado cascos. Remexeu tanto que o restante dos botões do vestido se abriu. Não parou de se movimentar até que a garganta fechou. Não conseguia respirar. O olho sem conjuntivite arregalou. Ela caiu dura no chão e apontou para a mesa: o camarão!
O marido novato já teve de colocar em prática a parte do juramento que fala ‘na saúde e na doença’. Não imaginava que seria tão cedo. Pegou a esposa no colo, saiu correndo pelo salão vazio e a jogou dentro do carro. O que era chuva forte virou tempestade. As paletas do vidro do carro nunca trabalharam tanto. Apesar de eles não conseguirem ver quase nada além do capô, atravessaram a 401 em poucos minutos e logo chegaram ao Hospital Universitário. O pessoal da emergência colocou Valquíria na maca e todos entraram rapidamente. Na correria, o enfermeiro rasgou a roupa com as mãos e tirou a aliança e os brincos dela. Os botões e as lantejoulas voaram pelo corredor e o vestido de noiva ficou abandonado no piso. Enquanto entravam na sala de reanimação, o médico aplicou algo na veia da paciente. Ela emboletou. E depois respirou. Numa tacada só, inspirou todo o oxigênio do cômodo.
Passou algum tempo tentando se recuperar deitada na maca. Sozinha, não conseguia descansar por causa do barulho do granizo que batia no telhado de eternit e do assobio do vento que entrava no quarto entre as frestas da janela. Estava conectada a várias máquinas de monitoramento e seus apitos de bipes ensurdecedores. Bela lua de mel. A camisola rosa em nada contrastava com a pele irritada. O corpo todo estava inchado. Olhos, boca, pés, mãos. Tinha dificuldade para respirar e se sentia sufocada fechada naquele quarto. O ar puro faria bem. Arrancou todos os fios e foi para o corredor. A madrugada vazia do hospital não a amedrontou. Vestiu o protetor de pés que encontrou num carrinho e chegou até a porta de serviço.
Grogue de tantos antialérgicos, saiu correndo pela parte de trás do hospital em direção ao campus da UFSC. Nem tinha se dado conta de que o granizo caía e então se protegeu embaixo das árvores do bosque. Estava ensopada de novo. Por entre os troncos grossos, distinguiu na escuridão dois olhos grandes e vermelhos e acima um imenso par de chifres. Viu o minotauro e pensou no marido. Passou a mão no anelar esquerdo, mas não encontrou nada. E então a previsão do tempo se confirmou: o ciclone chegou à cidade. A pequena floresta logo sentiu o impacto da ventania. Folhas e galhos caíram no chão muito rápido. Ela correu de novo, assustada com o que tinha acabado de ver e com a força da natureza. Teve a impressão de ser seguida pelo homem-touro-olhudo. Ao atravessar a rua, conseguiu se desvencilhar das caixas, cadeiras e tudo mais que estava voando.
Se abrigou no centro de ciências físicas e matemáticas em busca de alguma lógica. Chão de azulejos vermelhos, paredes brancas porosas, janelas com grades, pé direito baixo. Assim que chegou, o cheiro do Dior se confundiu com o do mofo. Mas logo em seguida o vento invadiu a construção, e ela não sentiu mais nada. A ventania encanou numa velocidade impressionante, assobiou nos corredores e tirou todas as teias de aranha que encontrou pelo caminho. A recém-esposa se apressou e tentou fugir. A cada quina que virava, não conseguia enxergar o fim do corredor, ora curvo ora reto. Não importava se ia à esquerda ou à direita. Nunca chegava a lugar algum. Andava em círculos já sem esperança. Se viu aprisionada no labirinto até que ouviu os passos dos cascos batendo no chão. Ninguém nunca soube se ela encontrou a saída muito menos o seu paradeiro. Há quem diga que quando anda à noite pelos corredores do CFM escuta a voz de Valquíria perguntando: cadê minha aliança?
