por Bruno Vicentini
Era um fim de tarde e chovia forte quando Laurindo pulou do carro e buscou abrigo embaixo do toldo azul do Realeza Hotel, na Rua Piratininga, quase na esquina da Avenida Brasil. Não que Laurindo conhecesse esses nomes ou aquelas ruas. Ele vinha de longe, de uma cidade tão pequena que era quase outra coisa, e aquele era seu primeiro dia em Maringá. Nunca tinha andado de táxi, nem de ônibus intermunicipal. Tudo ao seu redor parecia novo e reluzente, inclusive a própria chuva. Uma senhora de vestido longo, ao perceber que ele carregava uma mala e que entraria no hotel, levantou-se e arremessou longe seu cigarro, apressando-se para entrar na recepção antes que Laurindo o fizesse, a fim de atendê-lo. De seu colo, pulou um gato de três cores. Seu nome era Mara. Era simpática, mas não sorria. Apresentou-se como a responsável pelo hotel. Laurindo pediu um quarto, o mais barato que Mara tivesse. Ela pegou a chave de um painel, que eram pregos batidos pela metade numa tábua, e lhe entregou.
O taxista que o trouxe até ali foi quem sugerira o hotel a Laurindo, depois de conversarem brevemente, logo que percebeu o rapaz perdido na rodoviária, com cara de abobalhado.
– Você vai gostar – disse quando já estavam no carro, – é bem localizado, limpo, tem preço justo. Eu sempre indico. Acho que um hotel como esse é bem o que você precisa – complementou sorrindo por entre os bigodes muito pretos, como se na verdade tivesse dito outra coisa, talvez uma piada, algo que Laurindo não compreendia. Já na porta, antes de se despedirem, o homem lhe entregou um cartão: Reginaldo Faixa-Preta.
Mara saiu de trás do balcão e pediu para um garoto que estava por ali para cuidar da frente, que ela já voltava. Fez então um sinal para que Laurindo a seguisse e foi lhe mostrando o saguão e a copa, explicando como as coisas do hotel funcionavam, a que horas serviam o café. Os dois subiram um lance de escadas. No segundo, cruzaram uma moça, que Mara, talvez por impulso, apresentou como se fosse também uma parte do hotel, dizendo apenas seu nome, sem dar qualquer explicação: – Essa é a Mariana.
Mais tarde, já deitado, Laurindo calculou, baseando-se no preço da diária, que tinha cinco dias para arrumar um emprego, antes que o dinheiro que seu padrinho lhe dera acabasse. Não imaginava que a quantia, tanto dinheiro quanto ele jamais tivera, fosse render tão pouco ali na cidade. Arrependeu-se de ter tomado o táxi, uma extravagância, devia ter procurado um hotel por conta própria. Havia culpado a chuva, mas admitiu pra si mesmo o medo de andar sozinho por aquelas ruas do centro profundo. De qualquer forma não importava mais. Esticou o braço esquerdo e alcançou na mala o seu pandeiro, que não tocou por julgar que já era tarde. Ficou apenas acariciando o couro do instrumento, como se fosse o de um animal de estimação. Ouviu por algum tempo a marcação caótica da chuva, que batia na janela de lata, sem qualquer ritmo. Quando finalmente adormeceu, tinha no rosto um sorriso estranho, como alguém que tivesse provado pela primeira vez a droga que acabaria com a sua vida. Dormiu um sono sem sonhos.
***
No seu segundo dia, acordou cedo, para aproveitar o café da manhã. Tinha sido alertado por Mara de que poderia comer o quanto quisesse, o que lhe pareceu uma boa oportunidade de economizar o dinheiro do almoço, pra quem sabe esticar a estadia, ganhar tempo. Não havia nenhum hóspede tomando café, o que dava a impressão de que o hotel estava vazio. Laurindo fez um sanduíche com salame e embrulhou com guardanapos, meteu no bolso. Depois, percorreu a Avenida Brasil inteira, de loja em loja, atrás de um emprego no comércio, subindo até os lados do Maringá Velho; em outras palavras: andou durante horas e não conseguiu nada, pois, caso contrário, não precisaria ter percorrido a avenida toda.
Quase no fim da tarde sentou-se, esgotado, num banco da Praça do Peladão. Tirou o sanduíche do bolso. Todas as lojas pediam experiência com vendas e Laurindo não tinha nenhuma. Seguindo a pista de uma vaga de emprego numa loja mais afastada, resolveu ligar para Reginaldo de um telefone público. O taxista conhecia o lugar, claro, podia levá-lo sim, já já estou aí. Combinaram um preço. Reginaldo chegou todo contente:
– E aí, gostou do hotel? O que tá achando da cidade? E a Mariana?
Laurindo assustou-se, engoliu seco, o Faixa-Preta percebeu. Tomou seu susto como uma confissão e riu com gosto, olhando para Laurindo pelo espelho retrovisor do carro:
– Garoto esperto!
A tal loja que tinha uma vaga era uma ótica, no fim da Avenida Rio Branco. O dono era um senhor velho, de boina e muletas, com as duas pernas amputadas na altura do joelho. Ainda assim, estava parado no batente da porta, apoiado pelos cotovelos, como se esperasse aquela visita. Parecia cansado de carregar o peso do próprio corpo por aí durante tantos anos. Laurindo lembrou-se de seu avô. Entraram juntos na loja. O dono, quando soube do que se tratava, dispensou o rapaz rapidamente, dizendo que ali naquela cidade ninguém chegava de táxi pra pedir emprego, ainda mais tão fora de hora.
Reginaldo, com seu faro de taxista antigo, previu que Laurindo não conseguiria nada ali e que a conversa com o velho seria curta, então ainda estava estacionado em frente à ótica, esperando. Levou o rapaz de volta, derrotado. Em frente ao Realeza, Mariana estava sentada na mesma cadeira de fios onde Mara estivera um dia antes. O taxista, quando a viu, assoviou e soprou-lhe um atrevimento. Laurindo sentiu o rosto corar. Atirou uma nota grande demais no banco do passageiro e saiu sem esperar o troco. Entrou no hotel de mãos dadas com o diabo, ignorando a simpatia de Mariana, que ainda tentou lhe cumprimentar, sorrindo. Ouviu Faixa-Preta batendo a porta do carro e iniciando uma conversa com Mariana, mas não quis ouvir mais nada. Subiu para o quarto quase correndo.
Encontrou, caído ao lado da mala, seu pandeiro, com o couro dilacerado, rasgado em vários pontos, por cortes curtos que pareciam feitos por garras de animal. Lembrou-se do gato malhado da véspera, o gato de três cores. Não entendia como aquilo tinha acontecido, a janela do quarto bem fechada, a porta também. Ninguém tinha entrado ali, aquele hotel maldito não tinha camareira. Aquele hotel maldito. Aquele gato maldito. Arremessou o instrumento na parede, chutou a própria mala. Atirou-se na cama.
Laurindo rolou de um lado para outro por muito tempo, antes de conseguir dormir. Pensava em desistir, em pagar a despesa daqueles dias e, com o restante do dinheiro, comprar uma passagem de volta para casa. O hotel estava inquieto. Deitado, ele ouvia ruídos, os mais variados ruídos vindos dos outros quartos, ruídos que na noite anterior a chuva tinha abafado e que Laurindo preferia não ter escutado.
***
Acordou tarde no terceiro dia, disposto a tirar satisfação com Mara sobre seu pandeiro destruído. Quando desceu, a encontrou na recepção, o que interpretou como um sinal de sorte. Como tinha imaginado, Mara negou que seu gato, Mel Gibson, pudesse ter feito aquilo. Segundo ela, Mel não subia as escadas, quase não entrava no hotel e jamais no quarto dos hóspedes. Laurindo não quis criar caso. Pediu para passar a régua, ia embora, aquele lugar não era pra ele, não tinha sido uma boa ideia. Ele pelo menos havia tentado. Relatou sua odisseia da véspera, atrás de trabalho. Mara olhou para ele e demorou um momento antes de dizer:
– Talvez eu tenha algo pra você aqui mesmo. Por que você não disse logo que chegou?
Explicou que precisava de alguém justamente para arrumar as camas, ajudar na limpeza. Um faz-tudo. O salário era pouco, não dava o mínimo, mas Mara dava hospedagem, ele podia dormir num quartinho no térreo. Era um começo. Laurindo aceitou sem pensar duas vezes. Mara fechou sua conta e disse que ele podia começar no dia seguinte, mandou ele descansar, tirar o resto do dia de folga. Mostrou o quartinho. Laurindo desceu a mala, recolheu do chão o que havia sobrado do pandeiro. Encontrou de novo Mariana na mesma cadeira e dessa vez conversaram a tarde toda, Dona Mara junto. No fim da tarde procurou um orelhão e ligou para Reginaldo. Agradeceu.
Na sua primeira noite no quartinho, Laurindo sonhou com um corcunda que tocava pandeiro nas feiras de domingo, sem saber que o corcunda era ele e que o sonho era uma premonição.
