Era uma vez um homem

Era uma vez um homem Helô Mello

Era uma vez um homem, não muito velho. Mas o suficiente para se cansar com facilidade da mulher ao seu lado e perder a paciência com a filha que corria na sala.

A poeira encobria o cenário e ele achava que iria ficar alérgico a qualquer momento, com tantos fungos ao seu redor, única coisa em movimento. A mulher, Anita, era sua esposa. Um dia se amaram. Mas não naquela página. Estavam juntos há anos. No começo foram apaixonados. Ele, Antônio, o sedutor, queria conquistar o coração de Anita. Moça não muito bonita e rica e ele, bem, ele, não era lá de se jogar fora, mas vivia sem dinheiro, fazendo uns bicos para se sustentar. Gostava mesmo de tirar fotografias, mas isso não enche barriga. Ele sabia bem.

Quando se apaixonou por ela porem, não foi por interesse, como costumavam dizer no bar do Nico. Também não foi amor à primeira vista, vamos ser honestos. Ele tinha curiosidade ao ver aquela moça, andar mole, um pouco arrastado, talvez pelo excesso de peso, mas com certa graça. Cabelos eram longos, pretos, um pouco emaranhados. Sempre de roupa escura. Não andava muito arrumada, mas nas suas vestes soltas via um certo estilo. Algo escondido, insinuado. Tinha um ar de mistério. Falava pouco, duvidava se era só timidez, ou se ela se constrangia cada vez que passava no bar do Nico, também empório, para comprar alguma coisa. Sua mãe devia pedir socorro quando sentia falta de algo na última hora. Ás vezes comprava só manteiga, para fazer um bolo, ou um pedaço de queijo, para o lanche. Antônio sonhava que ela poderia ser uma bruxa na lua cheia, não dessas babacas e más, que sempre se dão mal no final da história. Uma bruxa safa, espertinha, isso sim, que previa o que poderia acontecer. Por que não? Dessas que leem o futuro, que podem dar uma forcinha para um cara um pouco perdido como ele.

Mas tudo isso faz tanto tempo! Sim, ele deu um jeito de puxar assunto com Anita no bar. Claro que não se apresentou como alguém perdido na vida. Era perdido, mas não burro. Tinha talento para fotos e para enfeitiçar uma bruxa desavisada.

Nem sempre acontece como nos livros e não viveram felizes para sempre. Apagou a bruxa da sua imaginação depois que se casaram, mas sobrou um certo dote, que deixou Antônio mais barrigudo e acomodado. Acompanhava os negócios da família dela, mesmo sem muito talento.

Gabi nasceu depois de anos de casados. Foi aí que ele se reinventou. Os dois remoçaram. Dava para perceber isso nas fotos das primeiras páginas das encadernações. Antônio fotografava sua filha na casa, no jardim, seus primeiros passos, ela correndo, indo para a escola, até mudar o foco. Acontece, não é mesmo? A vida anda e os interesses também mudam, já que não se trata de conto de fadas. Focou em outras atrações mais coloridas.

Anita, também despertou para as artes depois que Gabi chegou: os álbuns de família começaram a ganhar outra vida. Ela recortava imagens, colava, criava histórias, cenários. Imaginava um marido príncipe. Talvez ela resgatasse aquele Antônio que ela espiava no bar do Nico. Desses tempos, não tinha foto no álbum, que pena. Ninguém registrou. Será por isso que ela inventava outro Antônio? Ele era o mais atraente do grupo de amigos, passavam boa parte das tardes jogando na mesa da calçada. Anita espiava os rapazes de relance, quando inventava uma desculpa para comprar alguma coisa para a mãe. Ia desarrumada para não gerar desconfiança. Fingia fazer favor. Antônio, maior pé rapado, péssima influência, diriam em casa. Por isso, malandra e sonsa, disfarçava para não perceberem tanto interesse em ser prestativa só nas tardes de sexta feira, quando a turma de Antônio mais gostava de se juntar no que chamavam de boteco. O cara era lento, demorou para puxar assunto. Anita estava quase desistiu dele.

Gabi, quando nasceu, mudou a dinâmica do casal, que andava esmaecida. Foi nesse momento, me parece, que Anita passou a ver o mundo em outra dimensão, a remontar lembranças, como se costurasse farrapos que ganhavam outros sentidos. Será que foi nesse momento que virou a bruxa que Antônio antevira antes de se conhecerem? Isso não sabemos. As fotos eram dele, a edição dela. Mas foram os personagens que ganharam vida. Ao longo dos anos, esquecidos no armário, as cenas se modificavam, como palco e atores, se articulavam secretamente entre as páginas.

Ninguém ia visitá-los. Fotos se colavam, imagens se atravessavam, criavam suas próprias histórias e combatiam, em vão, os fungos que estavam devorando a todos. A batalha estava armada. Sem recursos, pouco podiam fazer para escapar da comunhão entre cores azuladas e resquícios de histórias nubladas. O papel, aromatizado por memórias, era a última garantia de escassas lembranças. Algumas se foram sem deixar rastros, que tristeza. Não havia mais jardim no miolo do álbum, dos primeiros passos da Gabi só sobraram as coxas gordinhas que o vestido não cobriu e uma parte do rosto. Uma nuvem, até bonita, foi o que ficou. O resto virou um pó, fininho, que pode voar ou penetrar nas narinas de algum curioso desavisado. E os primeiros passos da Gabi se transformariam num espirro de algum desconhecido?! Uma tragédia.

Por isso Antônio estava impaciente, grudado naquela página, receoso de sair do lado da Anita e encontrar com aqueles fungos prestes a escolher a próxima vítima. Anita, agora mais bruxa, de preto, nem olhava para ele, muda. Ele não sabia se era melhor ser devorado por fungos ou morrer de tedio. Tentou estabelecer uma conversa, sabia que ela ficou chateada porque lá na frente, quando Gabi só era uma adolescente, sua mulher descobriu que ele tinha um caso. Mas quem não tinha uma amante? Natural, depois de tantos anos. Juntos, grudados na vida e agora nos álbuns. Por anos ela fingiu que não sabia. Tantos dias chegando tarde, desculpas cada vez mais frouxas, mas esses momentos não ficaram documentados nos álbuns. Agora, nossa, fechou o tempo. E como esse tempo não é cronológico, ela fica enfurecida quando tem vontade. Pode ser na última página, viúva, sentada na sua cadeira de balanço, ou aqui, quando Gabi está começando a andar e ela nem sonhava com essa história paralela. Vai entender essas mulheres que transitam do passado ao futuro sem a menor cerimonia. Casos que ficaram só nos negativos esquecidos na sua memória, vestígios ausentes, já

consumidos pelo tempo. Antônio, encadernado, fica até em dúvida agora sobre o que realmente aconteceu. As imagens mentem, assim como ele mentiu, e suas lembranças também podem enganá-lo.

Grudados nessa vida, nesse papel quase sem cola, expulsos do presente, só existem no tempo latente, em caixas de memória misturados com objetos de todo tipo. Algo se movimenta. Uma luz rasga a monotonia dos fungos lentos. Quem sabe, bruxa, qual será o próximo capítulo?

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