Silvia Argenta
Desde muito nova, queria aprender a cozinhar. E cozinhar qualquer coisa. Doce, salgado, trivial, chique, de tudo. A família me inspirava, pois todos eram ótimos cozinheiros. Pai, mãe, vô, vó, tios e tias sempre se reuniam na sala grande para conversar e ver TV. Não demorava muito e já estávamos todos espremidos na cozinha, disputando espaço na mesa, na pia e no fogão. Um fazia a caipirinha, outro montava a salada de batatas. Um picava o cheiro verde, outro preparava o suco de laranja. Um colocava mais cerveja no freezer, outro cozinhava o sagu. Um mexia o carreteiro na panela, outro lavava a louça. Tudo ao mesmo tempo.
Mas isso não significava que a comida ficava pronta rápido. Tinha uma cadência. Se aparecia uma linguicinha de aperitivo, a produção de caipirinha aumentava e a de salada ficava mais devagar. Se alguém quebrava um copo, tudo parava. Todo mundo se afastava até que outro chegava com a pá e a vassoura para limpar o chão. Claro, não era uma calmaria. Todos se metiam um na função do outro, se esgoelavam, brigavam. Essa era a parte divertida porque nessas discussões que eu aprendia mais. E no final eles se entendiam debruçados em cima dos seus pratos, satisfeitos por mais uma sessão de comilança, normalmente não planejada. A cozinha tinha uma dinâmica própria, só dela.
Eu ficava sentada num banquinho do lado da porta, observando atenta o vai e vem. Já sabia de cor como fazer algumas preparações, tinha noção de qual tempero era perfeito para que tipo de comida, entendia como combinar os sabores. Enquanto meus primos brincavam de esconde-esconde no quintal, eu queria fazer parte da bagunça doméstica. O problema é que não havia espaço para mim. Para os meus pais, eu ainda era pequena demais para cozinhar. Quando muito, conseguia autorização para arrumar a mesa. Mas cada vez que eu tentava fazer algo, logo era repreendida. Estava escrito nos recados irônicos pendurados na parede: não roubarás, não matarás, não ligarás o fogão. Quando ficava sozinha em casa, eu colocava meu fogão de brinquedo na frente do fogão de verdade e simulava diversos cardápios para degustadores dos mais variados. As comidas ficavam uma maravilha e eu recebia muitos elogios pela minha criatividade depois de servir os meus convidados imaginários.
Sem meus pais saberem, eu já começava a mexer por ali aos poucos. Abria os armários, explorava os utensílios, pegava as comidas para ler as embalagens. Numa dessas minhas andanças solitárias pela cozinha, descobri um caderno lá no fundo da última gaveta. A capa rosa puída e as folhas amareladas me despertaram o desejo de pegá-lo. Abri e me deparei com letras cursivas caprichadas e sem erros que registravam a primeira receita: bolo de guaraná. Exótico. Li os ingredientes e a forma de fazer. Resumindo, era só misturar e assar. Não tinha como dar errado. Logo imaginei que enfim teria convidados reais provando meu quitute. Meus pais ficariam orgulhosos.
Peguei uma cadeira e fiz tudo acontecer em cima da pia. Só de ver a cozinha de cima para baixo já era uma satisfação. Separei a farinha de trigo, os ovos, o açúcar, o fermento, a manteiga e o refrigerante usando um recipiente de medidas (meu sonho!). Bati no liquidificador, untei a forma retangular e liguei o forno. Sem drama nenhum. Enquanto esperava assar, organizei a cozinha e até lavei a louça. Tudo com o maior cuidado para não quebrar nada e feliz da vida por tomar conta do meu tão querido território. Mas nessa de arrumação me esqueci de marcar o tempo de cozimento. Senti o cheiro de queimado e abri o forno. Tarde demais. Saiu uma fumaça preta. Meus olhos lacrimejaram com o calor. Ali entendi a verdadeira cadência da cozinha. Peguei uma luva e tirei a forma do forno. O bolo ficou todo solado e por fora se formou uma crosta ressecada marrom escura. Agora meus olhos lacrimejavam de decepção.
Não adiantava chorar. Precisava arrumar a cozinha e fingir que nada aconteceu. A única estratégia possível naquele momento era me safar. Adeus para os convidados imaginários e reais. Abri bem as janelas e a porta e liguei o ventilador para nuvem preta se diluir. Joguei o bolo na pia para esfriar. Sem chance da minha primeira obra-prima, mesmo que queimada, ir para o lixo, além do que minha mãe poderia ver. Não conseguia imaginar outro lugar em que pudesse me desfazer dele. Onde poderia escondê-lo? Então fui até o meu quarto, tirei todos os meus desenhos de pintar de uma pasta da Moranguinho e a levei para a cozinha. O bolo coube direitinho na pasta. Fechei com os elásticos e guardei no fundo da última gaveta junto com o caderno de receitas. Depois pensaria com calma o que fazer com ele.
Comecei a limpar com uma esponja a fuligem impregnada dentro do forno. Ainda estava quente e por isso não conseguia tirar a sujeira com tanta eficiência. Gelei quando ouvi o barulho do carro da minha mãe entrando na garagem. Fui até a porta da cozinha correndo e a tranquei para evitar que ela entrasse por ali. Eu a encontrei na porta da sala e disse para ela ir direto para o quarto porque eu tinha deixado um presente em cima da cama. Mentirinha boba não faria mal a ninguém. Se ela descobrisse o que aconteceu no cômodo preferido dela, seria muito pior.
Ela não deve ter sentido o cheiro porque subiu as escadas e foi tomar banho. Voltei correndo para a cozinha e continuei a esfregar o fogão. Já nem dava mais para identificar que a esponja era amarela. Pelas minhas mãos escorria um líquido que misturava detergente com fuligem. Estava difícil limpar aquilo. Gelei de novo quando ouvi o barulho da minha mãe descendo a escada. Correr ou ficar? Não tinha mais nada que eu pudesse fazer. Fechei o forno rápido e torci para que ela não desconfiasse. Assim que ela entrou na cozinha, vi que deixei a esponja presa na porta do forno. Metade dela estava aparecendo. Me encostei na frente do fogão, coloquei as mãos para trás e dali não saí. Ela tomou um copo de água e disse que não viu presente nenhum na cama. Eu falei para ela não ser ansiosa e que voltasse para o quarto que a surpresa chegaria. Ela então saiu da cozinha. Dei uma última limpada no forno, peguei um pacote de pipoca Bilu e levei para ela. Convenci para vermos um filme deitadas na cama. O plano para me safar funcionou. O de servir meus convidados não. Passado o sufoco e desolada, percebi que de fato a dinâmica de observar os cozinheiros parecia mais segura para mim por enquanto. Nada de mão na massa. O que me restava era esperar chegar o meu momento.
Dias depois, numa faxina, minha mãe resolveu limpar os armários da cozinha. Encontrou a pasta na última gaveta e a abriu. O bolo de guaraná continuava no mesmo lugar, marrom escuro igual e com a crosta intacta. Parecia uma sola de sapato. Me esqueci completamente dele. Nem os bichos se interessaram pela minha primeira receita. Ela então me perguntou o que a minha pasta da Moranguinho estava fazendo ali. Pega de surpresa, virei de costas para ela e falei: Não faço ideia, mãe!
