1.
Agora que acabou tudo, eu preciso escrever sobre o dia que enterrei o cachorro da nossa filha. Foi há um ano, num fim de tarde que chovia. Eu estava voltando do cartório e as gotas no capô do carro, em conjunto com o congestionamento da Raposo Tavares (se bem lembro, houvera um acidente), me faziam pensar em navegações. Pode parecer forçado, levando em consideração o modo que as coisas se desenrolaram, mas juro que ao dobrar a esquina que dá acesso à rotatória que precisamos contornar pela direita para chegar em casa, eu me lembrei de um dia, há muitos anos, quando eu era criança e meu tio Marcos me levou para pescar. Ficamos horas sentados num barquinho motorizado, com as varas na água e sanduíches de queijo a disposição, bem como uma garrafinha de licor de uva que ele tomava de tempos em tempos. Voltamos ao anoitecer sem nem uma truta para chamar de nossa, e compreendendo e ao mesmo tempo condenando minha frustração, Marcos disse que pescar não implica necessariamente em pegar o peixe. Mesmo se não pescamos nada, ainda assim fomos pescar, não é, ele disse. Eram essas palavras que circulavam dentro do uno, quando as rodas completaram a curva, eu suspirei, e antes que pudesse relaxar de verdade, ouvi um barulho terrível, tive o corpo jogado pra frente e o carro estacou.
Dez segundos depois eu estava na chuva, observando o pequeno arranhão no parachoque e o corpo do cachorro da nossa filha, que nesse momento talvez ainda estivesse vivo, mas não tenho como afirmar isso. O caso é que eu o observava e o que eu via eram vários pontos vermelho-escuro em seu torso e nas patas, que tornavam a coloração caramelo de sua pelagem mais escura, mesclada com sangue e água. As janelas da sala estavam acesas, e era possível adivinhar o movimento de vocês duas lá dentro, esperando por mim. Havia um triciclo jogado na grama do quintal, junto com bonecas, pneus e uns latões de alumínio.
Sem pensar muito, enrolei o cachorro (agora ele já estava morto, é certo) numa lona que eu tinha no porta-malas, coloquei-o lá dentro e arranquei sem rumo pelas ruas, agora já mais esvaziadas.
2.
Parei num boteco para acalmar os nervos e pensar sobre a situação. Via o carro do outro lado da rua, debaixo da chuva, e não conseguia deixar de pensar no que eu falaria para nossa filha. Talvez pudesse cair naquela velha história de “ele foi para um lugar melhor”, e então você me olharia com orgulho, como se estivéssemos cumprindo fielmente a cartilha da paternidade, que envolve matar os cachorros dos nossos filhos, entre outras coisas, mas sinceramente eu não acreditava muito que isso fosse acontecer, e talvez o melhor seria chegar em casa e fingir espanto, consolar nossa filha, imprimir cartazes de procura-se, mesmo sabendo que poderíamos procurar o quanto quiséssemos que nunca iríamos encontrar nada, e ficaria então acordado que adotaríamos outro cachorro, ou um gato, ou um peixe, e ao longo dos dias passaríamos para nossa filha todas as regras de cuidado e responsabilidade que as pessoas no geral escutam quando são crianças e querem ter um animal com quem possam compartilhar as inquietações de seus espíritos, mas agora já tinha passado pelo menos uma hora desde a morte do animal, e eu teria que inventar uma segunda desculpa esfarrapada para justificar o meu atraso, alguma coisa absurda que você certamente não ia acreditar, mas ia fingir ter acreditado, esse tipo de coisa que só serve para criar nuvens de tensão e que nossa filha perceberia e incluiria na sua cota de tristeza, principiada com o desaparecimento do cachorro, e por alguma razão, sentado naquele boteco com um copo de coca-cola a minha frente, vendo a chuva e o movimento dos velhos no balcão, nem me passava pela cabeça chegar em casa e te contar o que tinha acontecido, para que pensássemos juntos numa solução, como se a verdade fosse de todas as possibilidades a mais ultrajante.
Nisso, veio um dos velhos e sentou-se na minha mesa. Ele reincidia a cynar e por alguma razão me pareceu persa. O olho esquerdo abria mais que o direito, e ele usava uma camisa social de mangas curtas toda amarrotada. Vou te dar uma dica, ele disse, vai pra casa. Eu não posso, respondi. Olha pra você, continuou, tem os cabelos alinhados, a roupa limpa, aliança no dedo, e todo mundo viu você chegando de carro, não perde o tempo da sua vida aqui, volta pra casa, volta pra sua família. Eu não posso, repeti. Por que não, quis saber o velho. Porque tem um corpo que eu preciso enterrar, falei. Como ele me olhasse espantado, me curvei sobre a mesa e disse não é isso, é o corpo de um cachorro, eu atropelei o cachorro da minha filha, e preciso me livrar dele.
O velho sorriu (os dentes eram podres, todos, como é possível isso?) e gritou pro balcão: Marião, chegaí. Minha vontade era de levantar e sair fora o mais rápido possível, mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, o Marião chegou e se encostou na nossa mesa. Sujeito muito alto e de magreza doentia, me pareceu que podia cair pra trás a qualquer momento, mas só o que fez foi jogar um pano de prato sobre a mesa e falar que é, Cabeça, caralho, que que foi agora, e quando eu ia começar a dizer que não, não é nada, Cabeça bateu o nó do dedo indicador três vezes na madeira e disse pô, Marião, o que acontece é que o bom rapaz aqui tá querendo desovar uma parada, daí pensei que você podia dar uma ajuda.
3.
O prédio parecia um pássaro fossilizado. Pedaços de encanação pendiam das vigas mais altas, e só o que iluminava o lugar era uma luz embaçada fornecida por um pátio interno e vista através de um vitral verde alquebrado. Eu estava no volante, e no banco traseiro iam Marião e Cabeça, muito quietos. Aqui, falou um deles, é aqui mesmo, pode encostar. Descemos do carro, e a água tinha se infiltrado de tal maneira no interior da construção que cascatas de chuva rompiam vez ou outra um pedaço de cano e encharcavam todo o piso de ladrilhos. Isso me lembrava um filme, mas não conseguia lembrar qual era. Marião tirou um maço de cigarro do bolso da jaqueta e passou um pra cada. Eu ia dizer que não fumava, mas a julgar pelo contexto, não pareceu lá grande ideia, de modo que agarrei o isqueiro e na primeira tragada senti um prazer genuíno, um fio quente descendo da coluna para os pés, acalmando, e junto a essa sensação se somou uma grande lucidez, como se tudo estivesse antes atrás de um pano de seda, ou então que eu tivesse colocado óculos depois de anos com a vista danificada, e pela primeira vez naquela noite senti medo, e para não demonstrar esse medo eu dei uma segunda tragada e ouvi o que os dois sujeitos conversavam.
É uma história maluca, Cabeça, tá ligado, falou Marião. Foi uma parada que eu sonhei. Eu era uma mulher coreana que não tinha nenhum talento. Eu não escrevia, não cantava, não jogava bola. Eu trabalhava no restaurante da minha família, era caixa, tá ligado, e não fazia nada da vida. Minha única qualidade é que eu era muito organizada. Meu quarto, nos fundos do restaurante, era o mais arrumado que você já viu, cada um dos cremes, dos bonequinhos, dos livros e dos bibelôs, tava tudo organizado por ordem de cor, tamanho, nome. Coisa de louco. Daí eu pensei que porra, eu podia usar essa organização toda pra dar uma moral no restaurante da família, e era isso que eu fazia. Daí o sonho compreendia uma grande fatia de tempo, porque então eu já via os frutos da parada, várias madama, vários playboy coreano, e o restaurante tinha virado um lugar fino, nunca antes tínhamos feito tanta grana, e todos os funcionários vinham me cumprimentar, me parabenizar por ser tão organizada, dizer que se não fosse por mim ainda estaríamos fritando polvo em panela de óleo velho, e eu comecei a usar os trajes mais lindos, de cetim e o caralho, e ia tudo muito bem. Até que um dia, mano, pintou lá no restaurante o Tony, manja, o carequinha que tá sempre no boteco com a gente. Ele aparecia de blusão, tênis branco, totalmente destoante de tudo do sonho e chegava em mim, que era uma mulher coreana, e dizia eu sei quem você é, você não é uma mulher coreana, você é o Marião, lá do bar, eu conheço você. Claro que eu não entendia porra nenhuma, porque eu não era eu, eu era uma coreana sem nenhum talento, e não conhecia nenhum Marião, e eu só falava senhor, mesa pra quantos, mas o Tony ficava repetindo, eu conheço você, você é o Marião. Foi aí que eu acordei, e mano, eu era o Marião mesmo, acredita?
4.
Quando abri o porta-malas e tirei o cachorro da nossa filha embrulhado em lona, pingando sangue e água, Marião falou: que porra é essa, tu matou uma criança?
Pensei na nossa filha, impulsionado pela palavra “criança”, e por ter ficado sem resposta nem reação, o sujeito puxou a lona e descortinou um focinho. Que porra é essa, repetiu, impaciente. Não entendi muito bem. Isso é um cachorro, falei, quer dizer, isso foi um cachorro. Marião passou a mão no rosto, puxando a pele dos olhos com os dedos, e agarrou o braço do Cabeça com força. Cabeça, falou, vamo ali no canto que eu preciso ver se eu entendi uma coisa. Os dois entraram no prédio. A luz verde não tocava o canto onde se meteram. Pensei que o melhor a se fazer seria sair dali. Talvez Marião tenha sacado esse pensamento, porque logo ressurgiu das sombras e disse meu amigo, você deve estar brincando com a minha cara de vir aqui me pedir pra enterrar uma porra de um cachorro. Por que tu não jogou essa merda no rio, na estrada, sei lá? Eu não sei, respondi, acho que essa era a ideia inicial. Saquei, falou Marião, mas aí você preferiu me acionar e jogar dez paus no lixo, muito bem.
De repente entendi.
Agora que acabou tudo, eu preciso te dizer que pretendo devolver a grana que estávamos guardando pra faculdade da nossa filha, bem como o jogo de talheres de prata que sua mãe nos deu no nosso casamento. É só uma questão de tempo. Estou juntando os caraminguás que pingam todo mês pelo trampo no cartório. É em situações assim que eu invoco as palavras do meu tio Marcos. Mesmo quando não pegamos nada, estamos pescando, não é?
