Vício solitário

Ben Lerner e sua cara de nerd

O termo “sensação literária” pode ter como destino certo um sebo, e nem sempre um sebo descolado – os sebos são cemitérios de vaidades e ambições, e não existe nada que envelheça de modo mais patético do que o marketing. Atual sensação literária dos EUA, Ben Lerner dá a impressão de escapar a essa maldição, embora o seu segundo livro, 10:04 (Rocco), sofra aparentemente dos piores males da ficção contemporânea. É autoficção; é metaficção; é autocentrado em white people problems; é autoindulgente e autocomplacente; parece preocupar-se mais com arte do que com política; tem uma visão estética da vida; é irônico no limite da psicopatia; etc etc.

O que salva Lerner é que ele é um tremendo poeta. Não só poeta de verdade – publicou 3 livros de poesia aclamados pela crítica – , como pensa como poeta. Sua prosa é saborosa, tem grande habilidade na construção de imagens, vê rimas visuais e analógicas em tudo, seu pensamento move-se como um ensaio, às vezes esbarrando em epifanias absurdas, e sua linguagem está permanentemente em busca de um significado oculto: “Poetry is this space where every single particle of language is charged with the most meaning“. E como poeta, Lerner sabe que a experiência da beleza só é alcançável – ou pressentível – graças ao desconforto, à tensão, ao mal-estar.

Como um narrador não-confiável, Lerner transmite ao leitor, com agudez neurótica, a sensação de que é uma fraude. Ele não acredita nele mesmo, coloca o tempo todo em dúvida as suas crenças, e a dúvida acaba por mover o romance. A história de 10:04 é banal: um escritor famoso no underground de Nova York recebe uma estranha proposta de sua melhor amiga: engravidá-la. Mas não fazendo sexo, afinal de contas isso seria esquisito entre amigos, dentro da etiqueta moderna. A proposta é feita dentro de um museu, e artistas e intelectuais são personagens onipresentes no livro, numa demonstração de que sua mera existência é absurda em um mundo prestes a acabar por conta do aquecimento global, do hiperconsumismo e do individualismo extremo.

Lerner sente que é absurdo fazer poesia em um mundo de extrema desigualdade, mas do mesmo modo não fazer poesia também é absurdo. Já vivemos em plena distopia, e o fato de seu protagonista morar na cidade central do ocidente torna sua angústia mais intolerável. Este emparedamento o faz sentir a passagem do tempo com certo desespero: o futuro será inescapavelmente horrível e o passado não é mais um lugar para onde se pode correr. Deste modo, ele contamina o instante de tensões, o que explica o título do livro, tirado do momento em que o relógio de Hill Valley é atingido pelo relâmpago, possibilitando uma abertura espaço-temporal capaz de levá-lo ao futuro ou ao passado (Back To the Future). O título, na verdade, alude a um momento específico do videoinstalação The Clock, de Christian Marclay, um dos instantes mais ansiosamente esperados pelos espectadores (pra quem não viu o filme, aqui tem uma escaleta de todos os minutos do filme de 24 horas).

A expansão do tempo

Fazer caber um momento específico futuros e passados é um dos problemas cruciais do conto. Falamos sobre isso na proposta Velocidade, caso alguém queira dar uma segunda olhada. Pegar um instante ínfimo e esgarçá-lo em possibilidades é o que fez Borges em “O Aleph”. Mas uma epifania transcendente também pode ser engatilhada por uma mera punheta. É o que rola em um dos momentos cruciais de 10:04, em que Lerner apresenta todo o seu talento como prosador – porque o trecho é praticamente um conto. Ben vai à clínica colher o seu esperma, que será depois devidamente inoculado no ovário de sua amiga Alex.

Fantasias adolescentes e fantasias da maturidade se mesclam nesse instante hilário de tão ridículo, afinal é uma punheta que custa 5 mil dólares, o mesmo que um operário chinês ganha o ano inteiro trabalhando como um mouro para fazer um iPhone usado por gente como… Ben Lerner. É ao mesmo tempo o auge e a decadência da civilização ocidental, um ato de supremo egoísmo, uma negação do amor que pode também ser um ato de amor – porque, afinal, é um ato de humor. O que salva Lerner, além seu óbvio talento, é a crença na ternura e no humor como instrumentos de salvação para a espécie. Acha pouco? Porra nenhuma.

PROPOSTA

E é isso o que você vai fazer.

Você vai narrar um único instante na vida de seu personagem. É um momento precioso, em que tudo o que ele fizer determinará o futuro, mas ele sente o enorme peso do passado sobre sua ação. O que ele vai fazer é determinado por uma escolha, não é um acaso nem um acidente.

Então, descreva minuciosamente esta cena, usando o máximo de elementos para mostrar o ambiente, o cenário, os sentimentos, as sensações. Você também pode fazer digressões reflexivas sobre o que pode acontecer derivado do que vai acontecer ou não. Também pode fazer pontes em relação ao passado para sugerir como aquele personagem chegou àquele instante.

Algumas sugestões (pode usar outro mote se quiser):

  • uma mensagem que será ou não será enviada
  • uma ofensa que será ou não será revidada
  • um beijo que será ou não será roubado
  • uma oportunidade que será ou não será aproveitada
  • uma tarefa que será ou não será cumprida
  • uma porta que será ou não será aberta
  • uma transgressão que será ou não será cometida
  • uma palavra que será ou não será falada
  • uma viagem que será ou não será feita
  • uma foto que será ou não será tirada

Você pode contar na primeira ou na terceira pessoa, desde que o personagem não seja você.

Sua narrativa estará restrita a no máximo uma ou duas cenas (pensando especificamente no momento presente, no momento da ação, no momento em que as coisas estão acontecendo no conto).

Em uns 7 mil toques.

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