por Américo Paim
– Celina, vamos atrasar!
– Já vou, meu bem! Quase pronta!
Rosalvo nem queria ir, mas era a primeira reunião que Madalena promovia após a morte de Ismael, seu marido. Puta, que saco, um bando de gente chata. E sem Isma.
Chegaram às vinte horas ao enorme apartamento no décimo quinto andar do prédio luxuoso e tinha mais convidados que esperavam. Cumprimentos básicos e ele se aboletou numa cadeira. Celina, como sempre, bem à vontade a circular. Uma hora depois, já entediado, foi para o escritório, onde ele e Ismael sempre conversavam. A mesa cercada de estantes com livros, atrás dela a varanda com duas cadeiras e ao lado o sanitário. A mesma decoração, como se seu amigo fosse chegar a qualquer momento. Vinte e cinco anos de amizade, desde o início da faculdade de Economia. Ele morreu cedo. Que merda. Só pode ter passado mal antes de se afogar. Não era mau nadador.
Circulou olhando os livros. Da velha coleção da Rennes sobre a Segunda Guerra, tirou “Julgamento em Nuremberg” para folhear e ouviu um barulho como se algo tivesse caído. Afastou uns volumes e viu uma pequena chave que pareceu desprender-se de um ponto com fita adesiva. Será que é da mesa? Checou que as três gavetas de cada lado não tinham fechadura. Deve ser de alguma coisa daqui. Percebeu que alguém chegava e de forma instintiva pôs a chave no bolso da calça.
– Ah, você está aqui! Bem que Celina falou. Fazendo o que aí, moleque?
– Grande Silva! Tô de bobeira, lembrando o nosso Isma.
Era o Silvério, amigo comum, do tempo do tênis no Baiano. Chegou animado e nem deu chance ao amigo, arrastando-o dali. Às nove e meia da noite, a festinha seguia firme, bebida e comida fartas, mas isso pouco adiantou, pois Rosalvo não conseguia se concentrar. De onde é essa chave? Logo voltou ao escritório.
À procura de uma pista, voltou-se para as estantes. Percebeu um acabamento diferente na parede ao lado da porta, à esquerda de quem entrava, na quarta prateleira, de baixo para cima. Conferiu o corredor vazio e fechou a porta. Retirou os livros e viu no painel de madeira uma tampa com fechadura. A chave serviu! Eu sou foda! Sabia! Abriu com cuidado. Era como uma gaveta curta e larga. O conteúdo: um livro de capa dura, um revólver e dois maços de dinheiro. Ia meter a mão, mas por alguma razão lembrou das digitais. E se desconfiarem que alguém mexeu aqui? Porra, não dá. Tenho que limpar tudo que eu buli. Tô parecendo ladrão mesmo, então melhor agir como um.
Antes de fechar a portinha, lhe deu um estalo. Ismael era numismata! Lembrava de tê-lo visto manusear a coleção com luvas. Achou um par delas e uma flanela em uma das gavetas. Calçou-as sem hesitar. Checou o trinta e oito – carregado – e os maços de notas – eram de cem dólares. Era muito dinheiro. Resolveu ver o livro. Já olhei tudo mesmo. Deve ser livro de contas. Nada escrito na capa. Abriu e ficou boquiaberto. Porra, um diário! Rapaz, nunca me contou! Folheou rápido e apurou que as anotações eram de janeiro de 2008 até dezembro de 2010, perto da morte do amigo, há oito meses. Véi, uma olhadinha só não vai fazer mal.
Sentou-se com o livro aberto no colo dentro de outro bem maior sobre pintura renascentista, como fazia para ver revista de mulher pelada na escola com os amigos. Mal começou a ler e já queria parar. Intimidades e confissões que lhe deixaram constrangido. Buscou uma página aleatória, mas foi pior. Em julho de 2010, achou em maiúsculas: “… VALÉRIA ME PROCUROU DE NOVO HOJE – QUE MERDA!…”. Seu rosto empalideceu e o sangue pareceu lhe fugir. Que Valéria é essa? Mais umas linhas e entendeu que era ela, a sua amante. Como assim? Nunca falei nada a ele! Aquela vadia! Caralho! Buscou novembro de 2009, quando no aniversário de Alonso, seu amigo, ele a apresentou à moça e pouco tempo depois, achou várias passagens em que ela era citada. Em julho ela procurou ajuda de Ismael porque Rosalvo não cumprira a promessa de separar-se em abril. Nunca disse isso, porra! Que louca! Entretido com a leitura, tomou um susto ao ver Silvério de novo à porta. Daquela posição ele tinha a vista encoberta pela mesa e não viu as luvas ou os livros.
– Rapaz, tá um fujão retado. O pessoal tá lhe chamando pra beber!
– Sim, claro, vamos! Pode ir na frente. Chego já – o amigo deu um muxoxo e saiu.
Nervoso, guardou correndo as luvas e o livro em uma gaveta. Ao sair para o corredor, deu de cara com Celina, que já vinha lhe perguntar se estava tudo bem. Ele lhe deu um beijo certificador que sim. Ela o achou pálido. Ele falou do calor. Porra, essa foi por pouco. Voltaram à sala principal e ele logo se enturmou em conversas, para não chamar atenção. Quando achou que a poeira havia abaixado, foi ao lavabo, para ruminar como se livrar daquelas páginas incriminadoras. Estava certo que ninguém sabia sobre Valéria, até descobrir esses escritos. Não podia arriscar seu casamento, o dinheiro e sua boa vida. Dinheiro que não era dele e sim da família rica da mulher. Vivia bem com Celina até que seu espírito de pegador galinha não acomodou. Eu tava até bem, mas como resistir àquela gostosa? Tem até um tempão que nem falo com ela. Preciso resolver isso, mas primeiro o diário. Porra, Isma, por que não me contou? Por que escreveu essa merda? Lembrou que o cofre ficara aberto e que a chave ainda estava no seu bolso.
Saiu do lavabo e encontrou Alonso à porta, aguardando para entrar. Acabara de chegar à festa e tinha um olhar estranho, que foi notado.
– E aí, tudo certo?
– A gente precisa conversar – o amigo respondeu com expressão séria.
– Qual foi, cara? Tá com uma cara…
– Explico logo.
– Pode ser no escritório – apontou o fim do corredor.
– Me dê dez minutos.
Rosalvo foi logo. Limpou tudo que tocara por lá, pegou o diário, rasgou as páginas que quis, picotou bem e jogou no vaso do sanitário. Deu a descarga e saiu rápido. Ia fechar o cofre com tudo de volta e guardar luvas e flanela e ouviu passos no corredor. Deu tempo para a flanela, mas as luvas foram para os bolsos. Alonso abriu a porta e entrou com dois copos de uísque. Foram à varanda. A vista era quase toda de parte da mata do Horto Florestal. Mais afastados, as luzes de alguns prédios. A conversa foi breve e surpreendente. Alonso era o responsável pela armação com Valéria. Sabia de seu fraco com mulheres e estava desesperado por dinheiro, cheio de dívidas de jogo. Se ele não pagasse pelo silêncio dos dois, contariam tudo a Celina. Rosalvo ouviu com indignação e angústia. Desgraçado, filho da puta! Amigo do diabo! Tentou pensar. Sabia que tinha como levantar a grana nas empresas sem despertar suspeitas, mas aquilo não acabaria nunca.
Olhando a vista, projetou a cena: o corpo de um homem encontrado caído do prédio no mato, com luvas nas mãos e dois maços de dólares nos bolsos. Perto do cadáver, um diário com algumas páginas rasgadas e um trinta e oito carregado. Sorriu desconfortável para Alonso. Lhe disse que se acalmasse porque tinha como resolver aquilo sem escândalos, mas era melhor garantir que ninguém os ouvisse. Levantou-se e trancou a porta. Olhou o cofre entreaberto, a coronha do trinta e oito e a cabeça de Alonso, sentado de costas para ele e pensou nas luvas e na chave em seus bolsos. Sorriu, maldoso.
Quando a polícia chegou encontrou um cofre aberto e vazio, sinais de luta no aposento, nas roupas e no corpo de Rosalvo, que alegou ter surpreendido o homem roubando, tentou conversar, mas entraram em um combate que acabou na varanda, com a queda fatal do amigo ladrão. Ao longo dessa primeira conversa, ali mesmo no escritório, ele achava que estava indo muito bem. Até que pediu água. Começou a beber, mas engasgou e cuspiu tudo no chão. Foi no mesmo instante em que ouviu Celina reclamar de dificuldades com a descarga do sanitário, entupida com alguma coisa, e Madalena responder:
– Ah, Lina, minha filha, use o outro. Esse vaso tá com defeito. Volta tudo.
