Alguém que deveria gostar de gatos

por Bruno Vicentini

Parado em frente ao portão de ferro muito estreito da casa do Escritor, com o polegar direito sobre a campainha, eu hesito por um momento, ou dois, ou três. Fecho os olhos, fustigados pelo vento gelado, o restante do rosto coberto pela máscara. Percebo o desgaste do botão, que o tempo corroeu e ressecou, e imagino que é a pele de um minúsculo réptil.

Mais cedo, na mesma noite, Gaio e eu saímos meio abraçados de um bar no bairro Alto da XV, onde os literatos curitibanos se reúnem – um bar novo, mas que imita um antigo. Os bares agora estão fechando cedo. Gaio me chama de Caipira, apelido que inventa porque eu sou do interior, e diz que conhece um lugar que desrespeita o horário de funcionamento imposto pela prefeitura, um balcão quase clandestino. Queremos continuar bebendo. Empolgados pela nossa recente e arrebatadora amizade, subimos a rua, sem medir muito as consequências, em direção ao Passeio Público e ao tal speakeasy.

Antes disso, porém, estou no lançamento do meu segundo livro, o qual finjo não perceber que é muito ruim, bem pior do que o primeiro. É um evento pequeno, que a minha editora, também de Curitiba, organiza numa livraria que pertence a uma grande rede e fica dentro de um shopping center. O horror. Não há quase ninguém e eu culpo a pandemia, mesmo sabendo que isso não é bem verdade – as outras lojas do shopping estão cheias. Um pequeno grupo se forma depois dos autógrafos, me convida a acompanhá-los a um bar próximo – segundo eles o convite é uma tradição antiga da cidade. No grupo há um rapaz magrelo e alto, de óculos tartaruga, que veste boina italiana e um suéter de losangos, calça justa e coturnos de couro, carrega ainda uma mochila de lona – um hipster em traje passeio completo. Seu nome é Gaio e, muito embora mascarado, eu o reconheço do YouTube, de um canal de resenhas literárias. É pedante, metido a erudito, insuportável. Sinto por ele a mais absoluta e gratuita aversão.

***

Seguimos descendo, Gaio e eu, a rua do primeiro bar, os dois meio de porre. Lá pelas tantas, ao cruzarmos outra via, ele aponta na direção dela como faria um guia turístico e diz que é por ali que mora o Escritor – num casarão antigo, imenso, todo detonado.

– Ele ainda tá vivo?

Gaio para e me olha como se eu fosse um alienígena. Interrompe o trajeto do isqueiro, a outra mão já em concha, a boca aberta, o cigarro apenas por acaso pregado no beiço de cima, num ângulo estranho, a máscara pendurada na orelha. Sim, o Escritor ainda está vivo.

– Tem noventa e cinco anos. Como assim, Caipira? Como você ainda ousa dizer que escreve, que é paranaense? Quem faz esse tipo de pergunta?

Tento me explicar, invento uma desculpa, sou muito desligado, sou mesmo um distraído. Não é a primeira vez que alguém toma minha distração por deselegância ou estupidez, digo. Depois daquela reação desconcertada, não quero admitir pra Gaio que não sou um grande fã do Escritor. Faço uma proposta, talvez pra compensar a gafe:

– Vamos passar lá na frente. É muito longe? Vamos desviar, vem, eu quero ver essa casa.

A calçada é de pedras e várias estão soltas, escondem debaixo delas a água da última chuva, como um campo minado de pequenas humilhações. Gaio, curitibano nato, pisa sempre nas pedras certas, mesmo no escuro. Fica o tempo todo puxando para baixo as alças da mochila, um tique nervoso. Eu, por outro lado, caminho muito atento, olhando sempre para o chão, mas invariavelmente escolho as pedras soltas, tropeço, derrapo, sujo os sapatos.

– Esta cidade não é pra amadores, Caipira.

Ele continua, professoral:

– Você sabe, o Escritor nunca dá entrevistas. Também quase não há fotos dele, só uma ou outra. Diz que a foto mata o espião. Se um jornalista se apresenta ele foge na hora. Muita gente nem sabe que ele mora nessa casa. Mas a verdade é que ele cultivou esse anonimato, essa reclusão, pra poder andar incógnito pela cidade, recolhendo cenas, personagens. É o grande flanêur de Curitiba. Também tem obsessão por reescrever os próprios textos, por diminuí-los. É sério. Parece uma busca pela afasia. Qualquer dia é capaz dele conseguir, vai compor um texto sem qualquer palavra. Dizem que ele vai sempre aos sebos e compra todas as edições antigas de seus próprios livros, só pra tirar os exemplares de circulação. Olha, chegamos, é ali.

Gaio fala de forma apaixonada. O casarão fica numa esquina. Um terreno imenso. Um muro longo, tão comprido que parece um colégio, encimado por cacos de vidro. Há um portão de veículos com uma pixação estranha – duas espirais. Paramos por um momento na calçada oposta, tentando avistar qualquer coisa peculiar por cima do muro, sem saber dizer o quê. É tarde, tudo está escuro, se há alguém lá dentro deve estar dormindo. A fachada da casa é de alvenaria, mas há um sótão, de madeira. Quantos anos deve ter a construção? Atravessamos a rua. Espio por baixo do portão, parece haver ali a sombra de um carro. Gaio me repreende o atrevimento com um olhar. Procuro uma fresta maior no muro. Ilumino com a lanterna do telefone. Confirmo: um fusca, talvez um fusca verde, não dá pra ver direito. Será que o grande flanêur dirige? Renova de tempos em tempos a CNH, vai ao mecânico, reclama da alta do combustível? Gaio não acha graça, me manda calar a boca.

Ele tem noventa e cinco anos, seu imbecil. Vem logo, a frente da casa é aqui, na outra rua.

Conto cinco janelas imensas, uma delas cimentada. Tento adivinhar a cor original da casa, mas é impossível, a pintura pode ter sido de qualquer cor, a tinta se foi, descascou inteira. Parece mesmo uma casa abandonada. O portão menor, de pedestres, permite ver parte do jardim. Mas jardim não há, apenas algumas árvores altas. Mais ao fundo, o único sinal de que ali ainda mora alguém: uma única lâmpada acesa ilumina uma mesa grande, de madeira de lei, sobre a qual imagino terem sido servidos banquetes dominicais, mas isso em outra época. Também dá pra ver a porta principal da casa. Seu interior permanece quieto, adormecido. É quando vejo a campainha. Pergunto a Gaio se ele imagina por que razão alguém tão recluso quanto o Escritor teria instalado uma campainha em casa. Será que ainda funciona? Gaio não responde, provavelmente imagina que eu não me atreveria e arrepende-se de ter me levado até ali.

***

A princípio, nada acontece.

– Tá maluco? Tá tarde pra caralho! Respeita o Escritor, porra!

Tiro a mão da campainha e bato palmas, ô de casa, ô de casa. Gaio, três passos atrás, está meio azulado. Alguém abre um palmo da porta principal e um cão pequinês escapa pela fresta, vem latir no portão. O latido, agudo, ecoa pela rua vazia. Me abaixo para acariciar o cão, que lambe os dedos que enfio pela grade.

– Gaio, alguém como o Escritor deveria gostar de gatos, não é mesmo?

A porta se abre por completo. Vejo sair uma senhora muito velha, sorrindo, de roupão branco e chinelas de usar em casa. Traz na mão direita um molho de chaves. Seus cabelos são acinzentados, mas de um cinza escuro, como a pele de um elefante. Não se preocupa em vestir máscara. Arrasta devagar as chinelinhas até o portão, que abre com facilidade. Obrigado pela noite, Gaio, mas não vou te convidar pra entrar, não hoje. Espero que entenda. Te vejo por aí.

Deixe um comentário