Eles dois estão cansados de andar. Começaram há mais de duas horas, e já a é difícil contar quantas vezes ela enroscou o braço no sobretudo dele, quantas vezes ele parou e espreguiçou os braços para depois acender um rothman’s e retomar a marcha, quantos gatos cruzaram no caminho que ela fez questão de agachar e acariciar. Às duas da manhã, ele vê o rosto dela — talvez ainda mais branco, tamanha a escuridão — ser iluminado pelo néon de um letreiro: hotel.
O velho palacete de esquina se parece mais com um motel ou uma pensão, e quando os dois entram no hall, percebem uma dupla de senhoras que assistem televisão no fundo do cômodo; a tela mostra bailarinas de show, anunciando alguma premiação, e a música, que se pretendia animada, chega até eles como chiado de rádio. As duas idosas estão completamente imóveis, como se estivessem ali desde sempre, ou como se já nem estivessem ali há muito tempo.
É ele quem fala com a recepcionista, uma mulher negra cuja idade é difícil discernir por detrás do semblante a um só tempo severo e irônico, que os olha como se fossem fugitivos, personagens saídos de algum road movie a um passo de viver grandes aventuras. Estão cansados demais para ensaiar qualquer justificativa, e enquanto ele preenche a rúbrica com o número de seu documento e assina um papel, ela já pegou a chave e está subindo de escada para o quarto que fica no quinto andar.
O nome dele é Alberto Flores, um descendente de argentinos que mede um e setenta e oito, pesa setenta e cinco quilos e possui os ombros estreitos e firmes como os de um nadador. O sobrenome Flores — que é como os poucos amigos que tem o chamam — vêm da família do pai, cujos avós chegaram na América quando a Argentina era ainda vice-reinado da Espanha. É um homem discreto e calado, porque não quer ser julgado, uma vez que sente que muito dos seus passos são em falso, e que cada um de seus atos corresponde a um pecado numa cartilha desconhecida. A sensação constante de estar sendo observado o empresta um charme estranho, que consiste em mexer muito nos cabelos castanhos e selvagens, fumar como um prisioneiro e manter uma mão sempre suspensa no ar, à altura do botão central de seu sobretudo preto, como se estivesse com o braço engessado. Ele nasceu em Buenos Aires e com seis meses de vida já estava no Brasil com sua mãe; os dois ocupavam um quarto numa mansarda que possuía a amiga de sua avó. Cresceu cercado de mulheres. Mesmo quando o pai foi se juntar a eles, era uma presença inconstante. A tal amiga de sua vó, quando ele era mais velho, lá com seus sete anos, gostava de castigá-lo quando sua mãe não estava, batendo em suas coxas com a mangueira do quintal. Tudo isso não durou muito. Ao completar dezoito anos e ver-se dispensado do serviço militar, tratou de encontrar um emprego, casar (apesar da pouca idade) e mudar de casa. É um homem que gosta de bebidas geladas, sal e precisa dormir muito — o que, é claro, não consegue.
Ela se chama Melissa Zurita, outra descendente de imigrantes espanhóis, que nesse caso aportaram no méxico entre mil oitocentos e setenta e mil novecentos e cinquenta, e todos a chamam de Lissa. Neta de mexicanos, já é a segunda geração da família Zurita a nascer no Brasil, em condições relativamente favoráveis — na sua infância havia uma grande casa e um quintal com pitangueiras, jabuticabeiras e salgueiros, os pais tinham trabalhos fixos e viveram juntos até o fim —, mas mesmo assim, ao fazer dezesseis anos, foi atrás de suas origens no Distrito Federal, onde, depois de morar com a avó durante dois anos, num complexo residencial na periferia, e trabalhando como garçonete em meio-período alternado com os estudos, conseguiu um bom trabalho de designer e mudou-se para uma república no centro, constituída por mais seis jovens aficcionados por música e poesia e arte que tinham arranjado aquele casarão por um preço quase nulo para cada. Os motivos disso eram claros. Muitas vezes ao longo do dia a água quente parava de correr nos canos e a eletricidade era cortada. Infiltrações enormes se arrastavam pelo teto dos quartos. O chão de tacos e as brechas na calha do telhado deixavam todo o frio do inverno mexicano vir se deitar com eles na cama, e nas temporadas chuvosas nunca havia panelas e baldes suficientes para controlar as goteiras. Ela tem um e sessenta e sete de altura, pesa cinquenta e oito quilos e tem os cabelos pesados e escuros, que às vezes ela trança ou amarra num coque, embora os prefira soltos. É uma mulher que abomina fermentados, tem gosto por açúcares e publicou um livro de poesia do qual se envergonha um pouco.
Setenta e oito dias depois de terem se encontrado pela primeira vez, num bar na região central de São Paulo, numa dessas noites em que Flores saía para caminhar sozinho, afastar os demônios do passado e distanciar-se da mulher com quem dividia o quarto e, para todos os efeitos, a vida, e acabava aportando em algum balcão para tomar uma dose de conhaque, ou uma cerveja, e ficar observando o movimento de todos e todas no recinto, além de demonstrar um interesse particular pela dinâmica do movimento das luzes na rua, os diferentes tamanhos e colorações, os ritmos, tudo isso parecia muito mais interessante e significativo do que sua própria existência, e via naquela instalação urbana, enorme e efêmera, um tipo de reflexo das suas inquietações, cicatrizes vivas que, conforme ele já tinha descoberto, só se acalmavam mesmo nessa circunstância transitória e noturna, onde ninguém o conhecia, ele não estava indo a parte nenhuma, e era apenas mais um ponto na malha infinita da cidade, um ponto atravessado por tantos outros pontos o tempo inteiro, numa velocidade impressionante, e naquela noite, setenta e oito noites atrás, calhou que um dos pontos que atravessou sua visão tinha a forma de uma garota de gestos tímidos e jaqueta de camurça escura que se encostou no balcão e encomendou um maço de camel blue e uma dose de seleta, e contrariando todos os seus instintos e princípios mais básicos, ele puxou assunto com aquela garota, descobriu que seu nome era Lissa, que parte do seu sangue era asteca e por isso ela tinha grande facilidade em pronunciar tês seguidos de eles e cês, e pôde contar um pouco da sua história, como aquela noite transparecia mais uma situação solitária, por mais que houvesse uma pessoa esperando por ele no apartamento, e como ele não conseguia voltar, que a cada vez que saía para caminhar mais aumentava sua vontade de desaparecer, e os dois bufaram aquele característico ‘é foda’ ao mesmo tempo, o que serviu para desenhar mais um traço no desenho da cumplicidade que começava a se formar naquela noite, tão sortida de luzes, pessoas perdidas, desencontros, e, surpreendentemente, ele pensa agora, pelo menos um único encontro.
Lissa senta na cama de casal, percebe como é dura e tira da bolsa um cantil de alumínio que sempre leva consigo. Dessa vez a garrafinha está preenchida de conhaque, e após tomar um gole generoso, ela olha para ele e o vê tentando forçar ao máximo a janela para poder fumar sem ser importunado por eventuais alarmes de incêndio, e embora ela ache graça na força e na irritação que ele está empregando nisso, sente um pouco de pena dele, e não pode deixar de pensar que foi ela quem fez sua vida desandar até quase parar. Considera por um instante levantar-se, abraçá-lo por trás e oferecer um gole da bebida. Não é como se ele estivesse exatamente num momento introspectivo agora, visto como luta contra o trinco da janela para que ela fique suspensa para fora do quarto sem retornar, mas ainda assim aquele é um instante que pode pertencer só a ele, e é fácil considerar que a indignação com que Flores está lutando contra a janela representa sua indignação geral: o absurdo daquela situação em que se encontram, seu possível sentimento de traição, a ideia de que tudo vêm dando errado desde o primeiro passo que deu sobre a superfície da terra. Lissa não quer interferir nisso, porque, como a poeta que é, compreende que esse tipo de insignificância pode ser determinante para o caso entre eles — o caso, o romance, o lance, o affair, chame como preferir. Ao mesmo tempo, a pena é um sentimento instintivo que inspira o cuidado, e talvez um abraço bem dado, um gole de conhaque, sejam o que é necessário para que toda a tensão relaxe ao menos por um segundo, um longo segundo, o tempo dele vir deitar-se com ela na cama depois de duas horas de caminhada num frio do demônio. Nesse momento, Lissa está no limbo entre deixar Flores na tentativa de estrangular seu próprio passado e trazê-lo pra ideia incerta de um futuro. Esse tipo de transitoriedade não a anima muito; ela não saiu do Brasil para viver no México em condições senão deploráveis bastante desagradáveis para voltar ao Brasil e ficar quebrando a cabeça com o escândalo silencioso de um homem que a seduziu acidentalmente, sem se dar conta de seu charme e de seu sexo, que no entanto, no segundo gole de conhaque, já começam a custar um pouco caro. Ela decide que não queria estar ali, mas isso não é necessariamente um grande problema. É tudo uma questão se ela vai ou não abraçá-lo, se vai ou não oferecer a ele um gole de sua bebida, se vai criar mais uma vez um espetáculo de ilusões ou se já está pronta para entregar-se a melancolia que toma conta de todas as suas experiências. Ela se encosta na cabeceira da cama e tira os coturnos. Não tem problemas em beber aquele conhaque puro, e hoje ele parece particularmente saboroso, embora — e os dois sabem disso — seja um conhaque de merda, custando dezoito reais um litro. Imersa que estava em elucubrações, só agora reparou que a batalha de Flores contra a janela — e o passado — alcançou uma trégua, e ele está curvado para fora, com um cigarro na boca.
