A perna direita doía, parecia um estiramento na coxa, intensificando a sensação de agonia da insônia. Falta de sono e dor. Nenhum sinal de cabeça vazia. Carolina precisa decidir em mais dois ou três dias o que fazer, antes que não durma mais pelos próximos vinte anos. De dia tinha andado na região da Sé. Cartório, despachante, poupa tempo, essas coisas que nem deveriam existir mais. Entrou na igreja para descansar um pouco, o pé latejava e não aguentava mais o cheiro ocre da praça e o grito fervoroso dos ensaios de falsos pastores que aproveitam o palco de suas próprias casas, a rua, para dali serem, talvez, cooptados por alguma instituição que precise do poder da oratória bem desenvolvido. Já em casa, na cama, virando-se sobre seu ombro esquerdo, 1:33h da manhã, pensava que tinha sido estúpido da parte dela sentar pra descansar na igreja, como se pedisse um favor inconsciente a alguém.
Era para a menstruação ter descido no domingo e já era noite de quarta, quase quinta. Mil motivos podem fazer uma menstruação atrasar, apesar de não ter acontecido muito com ela nos últimos vinte e tantos anos. Stress, muito café, sono ruim, falta de exercício… hormônio de mulher de mais de trinta adora começar a dar problema. Parece que o corpo quer te obrigar a ficar grávida: querido, vem aqui fora ver o mundo pra ver como ele mudou desde o tempo das cavernas, vem.
Carolina virou de costas, abandonou de lado o travesseiro que abraçava, queria ver se essa posição na qual ela nunca dorme chamava o sono. Cytotec ou clínica? Da última vez que soube de uma amiga que abortou, tinha custado 5 mangos, há uns três anos. Será que tinha inflacionado? Não tenho nem três mil na conta garantidos para o próximo mês, como que vou arrumar dinheiro, assim, sem contar para ninguém o pra que que é? Clínica de aborto é uma coisa que a gente sabe que existe, pode ser até que aquela casa com fachada de escritório na esquina da sua casa seja uma, mas sem viver a situação é difícil saber onde encontrá-la, como contatar, quanto vai custar, que apoio se tem. Dá pra morrer abortando? Vou sair andando da clínica? Precisa de acompanhante? Mesmo em filme nunca fica explicado esse passo difícil entre o momento e que a personagem se descobre grávida e a cena que ela está suando frio na sala de espera.
Antes de se deitar, Carolina tinha passado horas pesquisando os efeitos do remédio gastrointestinal que provoca contrações e, muito provavelmente, o aborto. Mas e se desse errado e tivesse que fazer raspagem? Lembrou-se de um filme em que uma “latina”, com dois filhos, aparece grávida no cortiço em que mora e uma vizinha de porta dá a ela um remédio. Ela passa horas numa banheira suja sangrando, com cólica. Que filme era esse mesmo? A mulher tinha o canal do remédio. A pobre Carolina só conseguia se lembrar do farmacêutico ali da Vila Buarque que conseguia Frontal sem receita. Mas Frontal pelo menos tem na farmácia e não só em hospital. Virou-se sobre seu lado direito dessa vez, precisava dormir, ainda nem sabia se estava grávida ou só com a menstruação um pouco atrasada.
A luz da cozinha tinha ficado acesa e agora invadia o quarto por debaixo da porta fechada, desconcentrando o sono que ela achava que iria vir em breve. Não tinha porque se preocupar, poderia esperar mais uns dias. Amanhã passaria o dia tomando chá de salsa. Quando namorava com Carlos, dos 18 aos 20, pesquisou infinitas vezes como poderia abortar estando na casa dos pais. Tinha, sim, algumas ervas que poderiam induzir o aborto. Sua mãe mesmo mandava ela tomar chá de salsa quando tinha cólica ou a menstruação vinha esquisita. E em Orange is the new black teve uma detenta da prisão de imigrantes que pediu, mesmo, salsa para a personagem que liderava a cozinha. Apesar de que na série a mulher acabou tendo que ter o filho…
Carolina levantou para ir apagar a luz da cozinha e quase riu quando lembrou do meme que representava a mulher de trinta anos que acha que está ferrada se estiver grávida, da mesma forma como ficava apavorada com a possibilidade disso acontecer antes dos 18 anos ou antes de terminar a faculdade. O problema é que o jovem adulto que não fez publicidade, nem tem pai dono de escritório de advocacia não tem condições de sustentar nem a si mesmo, quanto mais um filho. Claro que esse é um medo classista. É sim. Mas ficou pensando que, se se mudasse do centro para a periferia da cidade com o filho, se ainda assim conseguiria comprar leite em pó, fralda, Hipoglós, sutiã de amamentar, berço, cama, geladeira. E se acabasse na rua como a moça negra que viu essa semana antes de entrar no seu prédio? Carolina tinha uns pensamentos recorrentes de onde iria dormir se estivesse em situação de rua, se numa marquise de rua movimentada ou debaixo de uma ponte de avenida onde só passa carro. A moça que ela viu de costas andava sem camisa, tinha o cabelo raspado e estava descalça. Era óbvio que era um torso feminino, mas foi difícil acreditar que ela andava tão absorta no próprio abandono que não se importasse de estar com os seios de fora.
Se deitou novamente. 3:48h, havia passado um pouco da hora que dizem que os espíritos saem para passear. Deitou em posição fetal, pro lado esquerdo dessa vez, e começou a pensar nela e em uma menina abandonadas, na rua. Mas se por acaso o pai assumisse e ela mantivesse o emprego, criaria uma menina nesse mundo? Teria que colocar na aula de boxe. Puta que o pariu, a mãe vai querer enfiar um vestido de branca de neve da criança. E me obrigar a ir no shopping colocar a menina no colo do papai noel quando chegar dezembro. Vai ser sem peito igual a mim e passar anos na escola sofrendo bullying. E quando estiver beirando os 16 anos, vai mentir para poder ir às festinhas encher a cara. E algum imbecil vai se aproveitar. E ela vai menstruar e chorar por macho. Deus queira que seja lésbica.
Mas se for menino… putz, deve ser muito chato ter filho homem, por todos os motivos. E quando chegar na 8ª série, ele vai voltar para casa com cecê ardido depois da aula de educação física. E me olhar com aquele esboço de bigode, aquela penugem em cima da boca que parece pena de pombo sujo, perguntando se o almoço está pronto. E será que vai fazer birra se eu pedir para lavar a louça? Eu vou conseguir amar um ser adolescente? Vai ter nome bigênero, sim. Vai ser menine. Se escutar piadinha na escola, problema dele que nasceu homem. Nome de menino nunca esteve na lista de “nomes que daria para meu filho” de Carolina. Sabia que é mais provável que seja menino se a fecundação ocorrer no dia mais fértil do ciclo? Será que isso é verdade? O dia que a gente foi jantar na casa da Milena e tomou três garrafas de vinho foi numa sexta… que dia era aquele mesmo?
Virou-se mais para a esquerda na cama até ficar de bruços com o travesseiro debaixo do cotovelo em V. Dora, Catarina, Sebastiana, Elvira, Felipa, Maria Augusta e um bocado de nomes excêntricos passavam pela cabeça de Carolina, que ela poderia dar à filha. Já estava se afeiçoando à pequena criatura, que nasceria branca igual leite, pois não teria outro gene diferente a quem puxar, que tristeza. Iria ficar cheia de pintas por causa do sol, igual a ela. Com o aquecimento global, é bem provável que alguma dessas pintas se tornasse um câncer, quando a filha fosse ainda jovem adulta, talvez até mais nova.
O pescoço agora doía de ter ficado de bruços. Pegou o celular do lado da cama, 5:15h. Onde iria arrumar a salsa hoje? Teria que andar até o hortifrúti de Higienópolis. Será que uma salsa orgânica faria mais ou menos efeito para o possível aborto espontâneo e natural? O olho ardia um pouco, nem um cochilo breve daqueles em que você não sabe se sonhou ou se estava pensando Carolina deu. Talvez tenha cochilado, na hora que imaginou que poderia ter uma menina chamada Maria Felipa, mas com esse nome a menina seria dentuça. Se foi sonho, despertou calculando qual outro emprego poderia arrumar para pagar plano de saúde e leva-la ao dentista. Desistiu mesmo de dormir e foi fazer o café. Se a menstruação não descesse, faria um aborto. De qualquer jeito.
