O compromisso

por Américo Paim

Após a noite em claro, eu estava exaurido. Nenhuma outra palavra definiria. Me sentia e de fato estava imundo, fraco e desamparado. Tudo me doía e mal conseguia manter os olhos abertos, ardiam ao mero contato com o ar. A boca seca, com gosto ruim. As roupas em petição de miséria fariam um mendigo sentir-se lorde em minha presença. Arranhões, chamuscados e vermelhidão completavam a minha degradável figura. Nessas condições, joguei-me no amplo sofá da sala de estar. Nem eram oito da manhã.

As poltronas à minha frente, com acabamento igual ao sofá, em madeira cheia de entalhes esculpidos que emolduravam o estofamento de veludo cor de bonina. Entre elas uma mesinha com um pequeno vaso de porcelana em verde cana, com desenhos delicados em baixo relevo, as margaridas voltadas para mim. Atrás de tudo isso, os dois janelões abertos aceitavam a luz do sol e uma aragem balançava de leve o lustre de teto. A robusta mesa de centro em mogno, polida com cuidado, refletia imagens dos quadros sobre o aparador com os porta-retratos à minha esquerda e do piano à direita. Nas pinturas, imagens de pessoas que nunca vi na vida lançavam olhares censores sobre mim, como se fosse eu o responsável pelo infortúnio que se abatera sobre nós na noite anterior. Cada um dos mortos nas fotos parecia querer sentar-se diante de mim e cobrar atitudes para que a família e seu legado não fossem destruídos pelo fatídico evento.

Ainda absorto, vi minha mãe chegar em silêncio e encostar-se derrotada à entrada do cômodo. Seus belos e finos cabelos grisalhos saindo rebeldes do teimoso coque, caindo-lhe pela fronte suada e suja, o vestido em estampas claras com um ou outro rasgo que se reparasse, os braços arriados em cansaço total, sem forças para enxugar o choro persistente sobre a pele muito branca. Levantei-me e fui para um abraço. Seu perfume inconfundível fora substituído por um cheiro residual de queimado. Sem desgrudarmos, ouvi sua voz entre soluços, mas muito clara:

– O senhor seu pai lhe chama ao escritório, filho. Agora. Escute-o com atenção.

– Já vou lá, mãe. Sente-se um pouco – amparei seus passos ao sofá. Por favor, descanse, Dona Augusta.

Acariciei sua face extenuada, deixei-lhe meu lenço nada limpo e fui ter com meu pai. A porta estava aberta e o vi sentado, olhar perdido em direção à cristaleira, onde algumas peças antigas ficavam expostas. A mesa de carvalho à sua frente contrastava com a fragilidade do olhar cansado por trás dos óculos de leitura. Entretanto, suas mãos entrelaçadas sobre os papeis me passaram a habitual firmeza. Virou-se para mim e apontou as cadeiras sem almofadas. Sentei-me olhando para ele. O rosto quadrado, os grandes olhos negros, cabelos brancos em profusão, o bigode bem cuidado, tudo parecia em ordem. Ou ele queria que parecesse, pois o suor na face, a camisa folgada e dobrada aos cotovelos e a falta da gravata de sempre mostravam o oposto. Abriu uma gaveta e tirou um livro que eu conhecia: suas anotações de contabilidade. Ajeitando-se na poltrona de couro escuro, o velho Medeiros começou.

– Aurélio, já estamos em 1931. O tempo voa, não sou mais um menino. Olho para você, homem feito, forte, boa aparência, cabelos e barba apresentáveis, rosto firme. Está com trinta anos e sei que compreende a relevância do que nos aconteceu. Esse incêndio no engenho é um desastre para as finanças da família – parou a me encarar.

– Sim, senhor – falei buscando calma.

– Meu trabalho como médico aqui em Santo Amaro é uma missão de devoção e caridade. O povo não tem como pagar de forma justa pelos meus serviços, como bem sabe, mas grãos, galinhas e porcos não são o bastante para honrarmos nossos compromissos. Entendi isso há muito. Por isso comecei o engenho.

– Claro, senhor, conheço bem a história.

– O caixa está parco, por causa dos últimos e necessários investimentos. Sem produção, não sobreviveremos. Preciso de dinheiro. Já avaliei os danos e meu crédito não é suficiente para o montante. Receio estarmos sem muitas opções viáveis.

– Do que precisa de mim, senhor?

– Algo muito difícil.

Em segundos cheguei ao que ele pensava. Gelei, mas ele continuou.

– Preciso de suas economias.

– O senhor percebe o que me pede? – levantei transtornado, após muito breve pausa.

– Sim, mas estamos à beira do abismo. Todo o patrimônio que um dia será seu estará comprometido. Precisamos reconstruir já. Assim que pudermos produzir, o dinheiro voltará para você.

– Mas e o meu matrimônio, minha vida? Isso pode durar anos!

– Não é uma decisão fácil.

– Fácil? É um baque! O senhor sabe quanto economizei e me sacrifiquei! O que vou dizer a Dona Otília? Ela nunca vai aceitar! É a mulher que quero desposar e já está com quase vinte e cinco!

– Filho, não lhe obrigo a nada, mas o que decidir, seja rápido.

Voltei à sala de estar, agora vazia. Lembrei do que aconteceu nos últimos seis anos. Consegui emprego na Coletoria, mas fiquei com meus pais para ajudar no engenho, mesmo deixando claro não ter interesse no negócio. Pouco tempo depois, conheci Dona Otília e me apaixonei. Seus lindos olhos azuis, o sorriso encantador, maneiras delicadas, moça direita. Um tanto liberal, é certo, mas confesso que isso não muda nada. Me empenhei tanto. Superamos até a resistência da família dela. Há um ano, o noivado. Economizei e em breve poderíamos nos casar, sem usar um vintém de sua gente rica. Agora o destino golpeava. Pensei também nos muitos sacrifícios que meus pais fizeram por mim. Era tudo muito cruel, mas tomei minha decisão.

Angustiado, me surpreendi com Dona Otília adentrando a sala. Correu e me abraçou forte, ignorando cerimônias e minha falta de limpeza. Desde o dia anterior queria me ver, mas foi impedida de entrar na área do engenho em chamas. Perguntou-me como estava e o que aconteceu – expliquei-lhe o acidente com eletricidade no galpão de suprimentos. Pedi que sentasse e fechei a porta. Minha expressão séria fisgou sua atenção. Contei-lhe sobre a conversa com meu pai e lhe anunciei o que decidi.

– Diante de tudo que acabo de explicar-lhe, é de bom senso encerrar o relacionamento. Saiba da minha mais profunda tristeza por isso, mas é necessário. A senhora está, portanto, livre do nosso compromisso.

As lágrimas nos desciam naturais. Ela me olhou de uma forma diferente. Levantou-se e andou em silêncio pelo recinto. Voltou-se para mim, franca e direta, a seu estilo.

– Estou deveras decepcionada.

– Eu entendo. O tempo ajudará a senhora a compreender e um dia me perdoar.

– Esperava que me conhecesse um pouco melhor e que decidíssemos juntos.

– Não vê? Serão muitos anos para eu estar em condições financeiras de sustentar uma vida de casados. Uma espera injusta.

– Quem decide isso sou eu – tomou minhas mãos. O compromisso que tenho é comigo, com o que eu sinto. Sou uma pessoa livre.

– Mas tem ideia…

– Lhe peço que pare – pondo a mão sobre a minha boca. Vá banhar-se e descansar um pouco. Quando acordar, estarei aqui. Vamos ao engenho ver de que ajuda precisam.

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