Fábio Kalvan
Marcelo saia do elevador, cabeça noutro lugar, mão direita coçando a barriga protuberante, quando uma voz funda ressoou pelo hall silencioso àquela hora da tarde de quarta-feira.
“E aquele timinho branco e preto, doutor?”
Era o Messias, porteiro do prédio, dono de um sorriso constante, que não perdia a chance de lembrar ao pontepretano Marcelo a má fase do time campineiro, que de tomara de 5 a 0 da Chapecoense. Apesar dos vinte anos no interior paulista, a frase veio num sotaque pernambucano perceptível, embora um tanto gasto, acompanhado de grandes de olhos azuis, herança de algum parente holandês.
“Nem me fala, Messias, tem coisas que eu quero esquecer. Tchau, até amanhã”
Chegou à calçada ainda ouvindo a risada do porteiro. Até tinha coisas a fazer, umas petições para protocolar, processos a consultar, mas poderia deixar para depois, não estava a fim, outras coisas agitavam sua mente. Gostava da luz filtrada pelos prédios e da calma da rua dos Bandeirantes nesse momento do dia e que lhe fizeram bem, como a sensação morninha de acolhimento que a gente experimenta num abraço. Súbito veio uma vontade de fumar, mas simplesmente deixou que ela se fosse do mesmo jeito que veio, como os dois anos longe do tabaco haviam lhe ensinado. Pensou se não seria o caso de ir tomar algo no Bar Azul, ali na outra esquina, mas desistiu, tinha que dirigir e, além do mais, precisava se cuidar, o corpo não era mais o mesmo e precisava ser firme, afinal fazia um mês que recomeçara, pela quarta ou quinta vez, a musculação. Enfim ajeitou os cabelos meio grisalhos e decidiu ir para casa, era dia da aula de escrita criativa em que se inscrevera. Vai ser bom mudar o rumo dos pensamentos, pensou.
Já dentro do carro, saiu da garagem do prédio e pegou à direita e, direita de novo, tomou a Coronel Quirino. O carro foi sacolejando no calcamento de pedras, mas ele nem percebia, perdido que estava desenterrando lembranças com o Edu, amigo do fim da adolescência e início da idade adulta, que não via há anos e que, olha só, encontrara por acaso dias atrás na Companhia Athlética do Shopping Galleria. Foi bacana rever o amigo. Quando percebeu, estava quase no cruzamento com a Barreto Leme, viu a Starbucks e ficou indeciso. Mas tinha tempo, então deu seta e estacionou.
Não achava a bebida dali grande coisa, a do Café do Ponto era melhor, sem falar no capuccino aguado. Mas sabia que, no fundo, estava ali só para poder ficar um tempinho à toa. Observou o casalzinho de adolescentes de cabelos coloridos, depois o rapaz compenetrado cuja tela do notebook era refletida nos óculos grossos, para enfim se acomodar num sofá e retomar as lembranças do amigo. Estava bem, se fizera um empresário exitoso cuja imagem de sucesso se via também no corpo cuidado. Amadurecia bem e ainda era bonito. Sempre bon vivant, com uma inconsequência salutar, pelo menos quando jovem. Viveram, estudaram e viajaram muito juntos.
Pois era de uma dessas viagens que vinham as imagens que tanto ocupavam Marcelo ultimamente. Praia da Fortaleza, em Ubatuba, onde os pais do amigo tinham casa. Início dos anos 1990. Tânia também está nas lembranças. Ela morava na vila e ficava com Edu de vez em quando. Era inteligente e bonita, mas havia muito de ancestral e brasileiro naquela relação, da caiçara com o paulista branco classe média. Marcelo lembra também de festas, sobretudo no verão, em que estavam os três. Uma é a que lhe chama mais a atenção, com certeza a última em que estiveram.
Devia ser a casa de alguém de São Paulo, já que morador local não teria uma moradia como aquela. Os três haviam bebido antes e lá beberam mais. Foi apenas bebida? Lembra de Tânia e Edu numa pegação só. Os três num quarto, Tânia nua, rindo. Como foi parar lá? Os três excitados, Edu beijando Tânia enquanto ele pega um dos peitos da menina. Edu o puxando pelo braço para fora do quarto e um choro miúdo ao fundo. O que aconteceu?
Tem a viva sensação de ouvir de novo o choro, o que o faz voltar à realidade e olhar ao redor. Só vê as mesmas pessoas e um café frio, pela metade, diante de si. Termina a bebida e sai. No carro, retorna à Coronel Quirino rumo a Sousas. É isso o que tem do episódio, fragmentos, flashes entremeados por grandes brancos. O semáforo detém o carro no cruzamento com a Conceição, quando Marcelo lembra de ter acordado no dia seguinte com uma sede bíblica e um latejar no pau que não deixava dúvida quanto ao que ocorrera horas antes. Sinal verde, o carro de novo em movimento, vira à esquerda e desce a Conceição. Marcelo sabe o que aconteceu e isso lhe dá um frio na barriga, só não consegue reconhecer o fato para si mesmo. O reencontro com Edu fez o ato nebuloso voltar à tona. Havia ficado lá no fundo, silencioso mas presente, como um machucado que demora a cicatrizar. Indagado na academia, o Edu de agora se recusou a falar do assunto, igualzinho ao Edu lá de trás, que fez o trajeto de Ubatuba a Campinas na manhã seguinte ao do “incidente” mudo como um monge.
Embora atue na área cível, Marcelo sabe que crime já prescreveu. Mas isso é o de menos. O que o incomoda é incompreensão do ocorrido, de como aquilo se deu, e o quanto o homem de meia idade não se reconhece no jovem adulto. Como ele pode fazer aquilo? Como pode deixar que acontecesse? Como reparar, se é que havia reparação? Ou será que não, ele não quer reparar coisa nenhuma, nunca quis, quer apenas viver em paz com a própria consciência, como fez nas últimas duas décadas? No meio daquele anda e para do trânsito, teve que reconhecer que nunca havia pensado seriamente na Tânia, em como ela deve ter ficado, no que pode ter feito da vida. Teve que dar o braço a torcer: nisso ele se parecia muito ao amigo, para quem Tânia era apenas “um caso”.
Na pracinha da Conceição, teve que decidir, direita ou esquerda? Não soube bem a razão, mas pegou à esquerda e chegou na Maria Monteiro. A vó, Alice, sempre lhe dizia para não mexer com o que estava quieto. O reaparecimento do Edu havia feito isso, mexido com algo que ele julgava se não resolvido, pelo menos enterrado. Um corpo enterrado, por assim dizer. Mas não, agora se dava conta de que o corpo havia sido jogado numa cova rasa da consciência. Tânia continuava viva nalgum lugar, ou devia continuar, assim como era viva a náusea que sentia ao pensar naquela noite em Ubatuba e na forma como lidou com tudo aquilo.
No cruzamento seguinte, farol verde, pegou a General Osório e foi sentido Centro de Convivência. Tinha que ir para casa mas fazia o caminho contrário. Vergonha de olhar na cara da Flávia? A esposa não sabia de nada, haviam se conhecido muito tempo depois daquela noite na Praia de Fortaleza. Mas ele sim sabia, talvez fosse esse o problema. E o sabia com uma certeza que nunca tivera. Até nisso Edu parecia melhor que ele, nessa desfaçatez, nessa certeza de que nada de errado acontecera. Quando interpelou o amigo sobre o ocorrido há tanto tempo tempo, ouviu: “faça como eu, desencane”. Invejou a solução fácil.
Ia atravessar a Júlio de Mesquita quando o semáforo ficou amarelo. Freou bruscamente para evitar o radar, não queria mais uma infração. Olhava as pessoas saindo do supermercado, o mendigo conhecido de todos sentado num banco da praça, os cães levando seus donos para o passeio, quando uma buzinada o fez voltar à realidade. Começou a acelerar o veículo e viu uma vaga logo adiante, praticamente um milagre naquela hora e naquele lugar. Decidiu. Deu seta e estacionou.
Em poucos segundos estava no City Bar. Ao Soares, garçom antigo que veio atendê-lo, pediu um bolinho de bacalhau e, “que se foda”, uma Serramalte. Não ia conseguir mesmo tirar aquele peso da consciência tão rápido. Ia faltar à aula de literatura.
