Você é ele

Daniel Galera quando jovem

Hoje vamos tratar de um assunto relevante: você. Isto é, a segunda pessoa. Mas não é bem você. Na verdade, é ele, ou ela, uma terceira pessoa. Só que é como se fosse você. Trata-se de um “tu desconstruído”. Você escreve você mas se refere a ele, ou até a mim, digo, você.

Não entendeu?

No conto “Vendedor pra caralho”, publicado pelo gaúcho Daniel Galera no primeiro número da revista de quadrinhos Baiacu (Todavia), existe uma engenhosa justificativa conceitual no uso do você. Trata-se da história de um vendedor de carros que pressente a própria obsolescência. Ele não só é menos hábil em vendas do que antes e provavelmente será substituído por uma máquina, como sente que também está sendo ultrapassado em inteligência pela própria filha de dez anos.

É um “eu” emparedado entre vários vocês. É importante lembrar que todo vendedor está sempre se dirigindo a um “você”: sua razão de vida é a satisfação de seu cliente, “você em primeiro lugar”. O desfecho é um primor de epifania profana, uma sugestão de que a beleza pode vir daquilo que parece inútil, desnecessário, lixo.

PROPOSTA

É isso aí que você vai fazer. Vai escrever um conto na segunda pessoa.

Importante: o personagem não é você. Não pode nem sequer ser parecido com você. Não pode ser do seu gênero, da sua idade, da sua profissão, da sua classe social.

NÃO PODE.

Você vai usar o tu desconstruído: escrever o conto usando o “você” como se fosse uma terceira pessoa. Um bom truque é narrar na terceira, e depois trocar todos os “ele” por você.

Mas releia o conto para ver se faz sentido com a troca. Você pode adicionar algum tipo de conselho ao seu personagem, como se estivesse conversando com ele. Não se esqueça, porém, que sempre vai parecer que você está conversando com o leitor.

Você vai acompanhar o seu personagem durante um dia. Este dia culminará em algo crucial, como:

  • a descoberta de uma gravidez
  • a morte de um animal
  • uma demissão
  • uma traição
  • um aborto
  • uma separação
  • o desaparecimento de um personagem
  • o aparecimento de um personagem
  • um acidente com ferimento
  • a quebra de um objeto precioso

Ah: para aumentar a ilusão sobre a pessoa que está “sendo narrada”, você vai usar os verbos no presente. (Quando você escreve “você está lendo este texto”, o texto ganha em imediaticidade, e portanto, cumplicidade.)

Em uns 8 mil toques.

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