1.
São duas da manhã e você está sentada na mureta que serpenteia todo o vão do MASP, observando o movimento progressivamente mais escasso da avenida Nove de Julho. É primavera, o que significa que dias ensolarados abrem espaço para noites frias como essa. Você usa o casaco de camurça preta que comprou numa feira de rua no México há três anos e que esteve junto em tantos momentos difíceis que pode ser considerado um amigo, uma companhia fiel que guarda consigo o cantil de conhaque e o maço de camel blue.
Você não sabe exatamente o que está fazendo ali, nem de onde veio a vontade de sair da sua quitinete e caminhar sem rumo Consolação acima. Se sua avó soubesse que você desenvolveu este hábito desde que voltou para São Paulo, decerto ficaria espantada e faria o possível para te convencer a subir todo o continente outra vez. Mas isso não importa. Em madrugadas como essa as paredes de seu quarto no décimo terceiro andar parecem se aproximar, deixando o espaço que te cabe nessa cidade imensa ainda menor. Você tenta ler, escrever notas no caderninho, dar play num filme antigo, mas tudo perde aderência no instante que é tocado por você, como se todos os objetos estivessem emburrados de você, e só o que resta é vestir o casaco, descer as escadas, atravessar o portão e vagar por umas horas pelas ruas desta cidade onde as noites son tan peligrosas para las mujeres, segundo o que sua vó tinha dito no aeroporto.
No meio da Augusta, você pensou em Alberto. Na verdade você tem pensado muito nele esses dias, sobretudo depois que sua menstruação, outrora tão pontual, não compareceu na hora marcada. Em todas as imagens que você visualiza, Alberto aparece como um personagem lateral, algo que espreita e dá contorno a cada um dos seus pensamentos. Isso não é agradável. A última coisa que você precisa é diluir parte da sua identidade naquele sujeito alto, paranóico e inconstante. Os últimos anos têm sido sobre recolher cacos e colá-los com cuidado e esmero num vaso que representa a sua integridade, portanto não faz sentido apoiá-lo numa superfície tão bamba. Se ao menos existisse algum ruído entre vocês — um ruído real, não esse anseio, esse apito dos dias ganhando pressão —, a possibilidade de uma ruptura poderia se divisar com mais facilidade, mas não; o sexo é o melhor que você já experimentou nessa parte do hemisfério, as conversas e caminhadas correm com perfeição fluvial e estar ao lado dele, segurar o braço de seu sobretudo, sentir-se observada por ele enquanto faz carinho em gatos de rua, dividir um croissant de carne e uma garrafa de cerveja no boteco com ele, tudo isso faz um estranho sentido. Acontece que você já é crescida o suficiente para compreender que não passa de ilusão de ótica, que Alberto Flores não é melhor do que ninguém, e talvez a verdade seja que ele não passa de um cara arrogante e equivocado que tem dificuldade de se libertar da própria adolescência. A curto prazo, pode parecer sedutor, mas as chances reais de que isso não termine numa catástrofe são quase nulas. Você sabe que ele está naufragado num relacionamento (talvez isso seja o motor de tudo, você pensa), e que embora ele não sinta nada pela mulher com quem se deita para dormir, ele ainda se deita com ela, e se você continuar assumindo esse caráter de aparição noturna, simples parceira de caminhadas, as coisas não vão mudar e você vai outra vez se ver lançada num limbo onde as suas opiniões e vontades não possuem nenhum significado.
Agora, sentada com as luzes da Nove de Julho inundando os olhos, você aperta o teste de gravidez dentro do bolso do casaco de camurça e olha para uma correria de ratos negros debaixo dos seus pés. Você pensa sobre a palavra praga e se lembra que de noite a cidade volta aos seus verdadeiros donos: seres subterrâneos, escuros, cheios de doenças e feridas. Nos últimos tempos, essa comunhão solitária com a megalópole tem sido sua única oportunidade de ficar a sós consigo mesma. O vento norte agita tanto seus cabelos que você precisa segurá-los com a mão esquerda, e esse gesto te leva diretamente a uma noite da semana passada, em que Alberto e você estavam deitados na cama de um quarto na casa de um amigo dele, e ele puxou um livro do Mário de Andrade, proferindo a sentença: o frio de São Paulo é como uma navalha nas mãos de um espanhol.
2.
Você observa sua esposa (ou namorada, ou nem isso, é difícil saber) dormindo e se pergunta como as coisas puderam chegar nesse ponto. São dez para as duas da manhã e ela ronca. Em nada se parece com a mulher que você conheceu há seis anos e cujo corpo, atravessado pela luz da lua recortada nas grades da janela, o fazia lembrar das fotografias de Man Ray. Agora ela é sua amiga, sua prima, sua irmã, sua mãe, tudo menos sua amante. Você não sabe o que sente por ela. Não é amor. É um carinho quase fraternal, algo que te inspira sentimentos de cuidado, e por isso fica tão difícil simplesmente tacar as roupas e os livros numa mala e ir embora. Por enquanto, o que você pode fazer é se contentar com as caminhadas noturnas. Claro que a presença de Lissa as torna melhores, mais doces e menos melancólicas, mas não é bom contar com isso. Vá sozinho, não se acostume à ternura que começa a se formar entre você e ela. Tudo sempre foi sobre solidão.
Ao pisar na rua, as luzes do Vídeo-Hotel e do Motel Monte Carlo tocam seu rosto e você vê as fileiras de garotas de programa e de sujeitos perdidos desfilando pelas calçadas. Você conhece algumas das garotas. Elas cumprimentam ao te ver passar e pedem cigarros que você distribui de bom grado. Você tem a impressão que elas te consideram mais parte do mundo delas do que do outro mundo, o mundo em que os homens sobem escadas escuras para quartinhos e pagam duzentos reais por um boquete. Elas só te conhecem superficialmente, pelos gestos cordiais e papos rápidos, e outro dia conversaram também com Lissa, para quem não faltaram elogios: era a textura da pele, a cor do cabelo, as roupas, em tudo ela era linda. Elas perguntam “pela sua teteia”, se referindo a ela, e apesar de toda gentileza você acende um rothman’s e diz que precisa ir andando. Os bares iluminados a caminho da República te lembram as fotos de Horacio Coppola, e por um segundo você esquece onde está, refletindo sobre como todas as cidades são na verdade a mesma cidade repetida à exaustão.
Ao alcançar o Teatro Municipal, vendo-o como uma mancha branca e luminosa erguida no meio do caos, você volta a pensar em Melissa, em como seria agradável compartilhar aquele momento com aquela garota que até agora você só conhece em espaços transitórios: ruas, hotéis, praças, casas alheias; mesmo que para isso fosse preciso sufocar as inquietações que, você sabe, estrangulam a subjetividade de ambos quando vocês estão juntos, como se vocês só se encontrassem a meio caminho entre o sonho e a vigília, no geral apoiados pela embriaguez e pelos acontecimentos absurdos que tomam espaço nas ruas do centro de São Paulo tão logo as luzes se acendem. É perceptível que os dois estão caindo em abismos muito diversos, de onde podem só olhar um ao outro, e a coisa toda ia se sustentando em alicerces subjetivos, para não dizer mágicos, mas o funcionamento do corpo de Lissa, o possível encontro entre um espermatozoide e um óvulo e o sangue que não veio trouxeram notícias do mundo real. Chutando pedrinhas enquanto desce pela rua Capitão Salomão, onde vários homens fumam em frente a cinemas eróticos ou jogam bilhar por detrás das vidraças sujas, você considera que tudo fica mais difícil por conta do ar distante de sua parceira, mas você não pode culpá-la, e sabe disso, já que é você quem tem todos os membros amarrados numa outra história, e que se você não tiver coragem para acabar de fato com tudo, ela irá se cansar e poderá muito bem caminhar sozinha em direção a outro futuro, onde, talvez, exista alguém que, diferente de você, não seja uma pessoa impossível que daria tudo para desaparecer.
Quando o balconista despeja uma dose de Dreher à sua frente, você está com um pé na calçada, observando o Anhangabaú se estender como um rio sujo, e pensa como seria ter um filho com Lissa. Ou uma filha. É claro que nesse momento isso parece impossível, com o dinheiro que você ganha não dá nem pra adotar um gato, mas se ela quisesse você não ia se opor, iria tirar de onde não existe para perseguir os idealismos que começam a se projetar junto com a fumaça do cigarro e o movimento dos carros, e você vê um menino de cabelos escuros como os dela, as madeixas demarcadas dos seus antepassados argentinos, e ele está correndo pelo pátio de uma casa imaginária numa tarde cheia de sol, e você vê Lissa sentada numa cadeira ao lado de uma grande árvore, e ela parece feliz enquanto fuma e observa o filho de vocês, e encostado no balcão você começa a desejar de verdade que isso já seja uma memória, não só um desejo, e de repente toda a realidade se desprende dos seus propósitos outra vez, não importa o que aconteça, esse parece o destino lógico para duas pessoas tristes e sozinhas que se encontraram por acaso na maior cidade da América do Sul e saíram caminhando sem rumo, diferentemente de como você está caminhando agora, em passos firmes de volta pra casa, com a ideia fixa de comunicar suas vontades para a mãe de seu futuro filho, pulando poças d’água com a determinação de um clic de Bresson, tudo para cumprimentar outra vez as garotas de programa, atravessar o pesado portão de metal, subir as escadas num salto, entrar no apartamento, seguir para o quarto, abrir o computador, acessar o Facebook, e antes de qualquer coisa ler uma nova mensagem de Lissa, em que ela diz ter finalmente sangrado, logo após o teste ter dado negativo. Seguida à mensagem, uma carinha feliz.
