MALANDRO É O PATO

Silvia Argenta

Pensa bem. Você é daquele tipo que se faz de ladino. Todo pomposo no paletó preto com três centímetros sobrando nos ombros, não perde a oportunidade de soltar que “malandro é o pato que nasce com os dedos colados”. Você segue a máxima e nada de aliança nas mãos. A gravata listrada de azul e branco aperta o pescoço forte, cai sobre a camisa branca e termina antes de chegar ao fim da barriga. Os dentes da frente inclinados e desgastados sugerem algum problema de bruxismo, mas isso não o intimida e você solta sorrisos a torto e a direito.

No seu escritório, de paredes forradas de laca marrom e um lustre que só serve de enfeite porque não ilumina bem, o cliente esbaforido chega pela manhã com um pedido urgente. O ambiente sisudo da sala contrasta com a sua hospitalidade, pois você logo puxa a poltrona para que comecem a conversa. O homem apressado tem uma audiência inadiável à tarde no fórum, mas seu advogado desistiu do caso. Ele pede ajuda a você, que ostenta reconhecimento pela cidade mais pela tradição da família do que propriamente pelo sucesso em seus feitos advocatícios, que são poucos de fato. Tanto é assim que sua agenda do dia está vazia de compromissos, e você de pronto aceita o trabalho. Apesar da agitação do cliente, o ar condicionado cravado nos dezessete graus ajuda a manter uma temperatura agradável. Com calma, você anota os principais tópicos da situação com sua bico de pena num bloco de papel timbrado com seu nome: Magno Patológico, Advogado.

Como a audiência está marcada para as dezessete horas, você diz ao cliente que vai até o fórum no final da manhã ler o processo e se inteirar do assunto. Depois vocês voltam a se falar para combinar como vão apresentar a defesa ao juiz. E assim você, jovem e inexperiente advogado, faz. Chega ao fórum, passa pela catraca e pede o processo ao escriturário, que o atende imediatamente. A condição é de que você leia tudo ali no balcão mesmo, pois é proibido levar a papelada para fora do fórum no dia da audiência. Você vai na ponta do móvel para se concentrar melhor e apoia os cotovelos na madeira desgastada e cheia de rabiscos incompreensíveis. Lambe a ponta do indicador direito e folheia o processo em busca de alguma falha na acusação que possa liberar seu cliente do pagamento da dívida. Ele foi denunciado por desviar dinheiro do condomínio onde era síndico, mas, para o seu azar, os documentos apresentados para o juiz provam que houve ilegalidade. Planilhas e mais planilhas demonstram isso. Você leva uma hora para ler as cem páginas e não encontra nada a seu favor.

Você sai do fórum e liga para o cliente. Combina um almoço rápido para decidirem o que fazer. Se encontram no Hot Dog da Família, onde pegam as fichas para montar os pedidos. Você faz um xis nos quadrados ao lado das opções. Marca em mesa, vinte centímetros, linguiça, queijo ralado, batata palha, cebola, cenoura, ervilha, milho, beterraba, bacon, calabresa, ovo de codorna. Para arrematar, maionese caseira, mostarda, catchup e por que não o molho barbie kill? Matador. Você sabe que vai dar um jeito de ajudar o cliente.

Enquanto comem os cachorros-quentes, você pergunta se o cliente desviou mesmo o dinheiro, lembrando do sigilo profissional. Ele reluta um pouco, diz que não é bem assim, mas acaba admitindo a pisada na bola. Por um ano, declarou serviços contábeis que não existiam e usou a grana para comprar um equipamento completo de mergulho. Neoprene, cilindros de oxigênio, bocal, óculos, pé de pato. Tudo importado. Assume o erro, mas não se arrepende. Você desacredita da história, enquanto as ervilhas caem do canto de sua boca. Tanto rolo por tão pouco.

O pão molhado nem dá conta mais de segurar toda a sustança de forma organizada, e você acaba se distraindo do caso para se concentrar em como dar a próxima mordida. Depois da bocada, pensa e respira. Não tem mais jeito de segurar o sanduíche. Larga o resto da comida no pote de plástico que serve de prato e pega o guardanapo no recipiente em cima da mesa. Um papel não é suficiente. Enquanto mastiga, tira várias folhas numa tacada só e as esfrega entre os dedos várias vezes para secar as mãos lambuzadas. Você se dirige ao homem apressado e insiste se não existe alguma forma de justificar o dinheiro desviado para um serviço emergencial no prédio. O cliente nega. Você pergunta se alguém sabe onde ele gastou a grana. O cliente nega. Você sugere que pode fazer um cambalacho para encobrir o desvio. O cliente nega. Ele pede a você que se vire sem envolvê-lo em mais um rolo e reafirma que não pode sofrer consequências com essa história. Combinam, então, que o cliente não vai confessar a falcatrua para o juiz. Você paga pelos sanduíches, se despede dele e o lembra de se encontrarem logo mais no fórum.

Você está sem estratégia, não sabe o que fazer, mas quer ganhar o caso. Como salvar o cliente de uma patacoada dessa? Hora de voltar para o fórum para ler o processo de novo. Quem sabe tem uma luz. Ao sair do carro, você prende os dedos da mão direita quando fecha a porta e solta um berro. Com a mão esquerda, abre novamente a porta, num gesto tão vagaroso que nem dá para afirmar que é impulso porque demora alguns segundos para se atinar no que deve fazer. Os dedos latejam e as unhas estão roxas, mas não há tempo para você pensar nisso agora.

Entra no fórum, passa pela catraca, pede o processo mais uma vez e aí você se apoia no balcão de novo. A mão direita está tão imprestável que você não consegue mexer os dedos nem meter no bolso de tanta dor. Então, você usa a outra mão para abrir a capa do processo e lambe o indicador esquerdo para folhear as páginas, tornando a leitura mais vagarosa do que antes. Olha para o relógio pendurado na parede e faz as contas. A audiência começa em uma hora. Você precisa pensar em algo. E rápido. Observa o movimento da sala e nem presta mais atenção no que está lendo. O funcionário que o atendeu foi para outra sala, uma mulher está concentrada na frente do computador, o mais novo, provavelmente o estagiário, arruma uma pilha de processos nos escaninhos, e um homem atende o telefone. Além de você, não há mais ninguém no balcão.

Você abaixa a cabeça, procura a parte da acusação entre os papéis, apoia o braço direito em cima do processo aberto e com a mão esquerda arranca o documento prejudicial para o seu cliente. Os funcionários escutam o barulho das folhas se rasgando e se voltam para o balcão. No impulso, você amassa os papéis e forma uma bola. O que fazer com isso antes que alguém o alcance? Enfia goela abaixo. Dessa vez você é rápido. Os dentes desgastados mastigam as folhas, que em segundos se umedecem. Você engole a bola de papel todinha. O homem que atende o telefone larga o aparelho e pula o balcão para pegar você. Os outros, atônitos, também param o que estão fazendo e reagem indo até a porta. Enquanto isso, você sai correndo e passa por cima da catraca. Ninguém o alcança. Pensa bem. Você não podia ser mais pato.

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