Objeto de desejo
Helô Mello
Objeto de desejo, era como descreveria a câmera fotográfica, se alguém perguntasse a Gabriela, quando pequena, o que era aquilo. Via seu pai, Antônio, tirar fotos com bastante frequência, um hobby ou ocupação, ao qual que se dedicava nos finais de semana e que ela não podia compartilhar. Olhando para o alto, enxergava um equipamento preto e mágico e se indagava como caberiam, dentro daquela caixa, tantas cenas recheadas de pessoas mostrando seu melhor sorriso ou um movimento suspenso que Antônio era capaz de registrar com agilidade.
O que, um dia, foi objeto de desejo migrou para o seu celular e Gabi agora tem a decisão em suas mãos. Admirava Cartier-Bresson, que tirou retratos preto e branco de instantes únicos, cenas eternizadas, como a foto do homem congelado em pleno ar enquanto saltava, com seu contorno refletido na poça d’agua, e a bailarina, no cartaz ao fundo com pose semelhante. Mas seu caso era diferente. Estava mais para Hercule Poirot, detetive belga criado por Agatha Christie, prestes a desvendar um mistério, a documentar a prova do crime, mais do que captar um momento magico.
Fotografias não são de confiança, não deveriam valer como documento, prova ou fato histórico. Tudo é uma questão de ponto de vista. Os ângulos podem mudar a visão de uma cena, assim como a maneira de se relatar uma história altera sua interpretação. Sem falar na pós-produção, que oferece outras possibilidades. Então, o que se registra? O ponto de vista de quem? É preciso decidir.
Depois que foi estudar moda na Itália, Gabriela voltava pouco ao Brasil. Nem no Natal, festa de que gostava, tinha vindo no ano passado. Preferia evitar presenciar o clima instalado na casa de seus pais. Da infância, só boas lembranças. Poderia preservá-las, como as imagens guardadas no fundo do armário, na caixa de sapatos?
Ela voltou ao Brasil com a desculpa de escapar do frio da Europa e em busca de um aconchego familiar. Desembarcou em São Paulo, sem aviso prévio. Recém-chegada, logo se deu conta de que a dinâmica dos pais estava fragilizada. A vida amorosa deles não lhe dizia respeito, e não queria se envolver ou tomar partido. Mal dava conta de administrar a sua própria instabilidade emocional.
A câmera, valorizada por tantos anos, agora estava encostada na prateleira, na companhia de livros que há muito tinham sido esquecidos, como a relação de parceria que seus pais haviam tido um dia. Passou pela estante, espiou de rabo de olho, mas não se aproximou. Queria guardar na lembrança o peso do objeto, que em criança mal podia segurar nas mãos, na lembrança. Hoje, opaca, sem glamour, o equipamento estava abandonado, quase invisível. Herdara o hábito de documentar os instantes. O celular, menor e mais potente, é que fazia o registro, até mesmo substituindo o olhar direto, sem intervenção. Mal revisitava as imagens para avaliar o que capturou. Mas sua atitude e prontidão, herdadas do pai, não se foram.
Acordou com sede no meio da noite. Esqueceu de levar um copo d’água para o quarto. O hábito de beber água na madrugada foi por conta da calefação das casas em que morou na Itália. Estava a caminho da cozinha, de camisola, com seu O celular iluminando o caminho. Não fosse a discussão, poderia nem ter percebido que tinha alguém no fundo da sala. A luz amarela do abajur, única que podia ver de toda a cena, acentuava a sombra da cadeira de balanço ao lado da mesa. Viu as flores e a antiga toalha branca. Escutava sussurros. Tinha a câmera nas mãos. Sempre alerta.
Desviou-se do circuito quarto/cozinha, seguindo o som da conversa acalorada. O tom grosso e grave de seu pai, dominava o ar e a atraia para a cena. A voz feminina, mais cautelosa, amedrontada e tímida, não era de sua mãe, Anita. Precisaria avançar no corredor, se desviar do rumo da cozinha, para ver o que estava se passando. Os ouvidos estavam aguçados, as pernas travadas e os olhos se acostumando com a escuridão. Esqueceu da sede, quando sentiu o cheiro do whisky e da tensão, tão familiar quando seu pai ultrapassava a dose regulamentar da bebida.
Celular armado, o fotômetro e a sua vista adaptados ao escuro. Não conseguia compreender o que diziam, mas o conflito estava estabelecido. Desnecessário sintonizar palavras para entender o contexto.
Sua mãe devia estar dormindo, mas costumava ter o sono leve. Talvez o aguardasse na cama, fingindo não perceber a briga, para não piorar o insustentável. Gabi, no corredor, paralisada. Será que Bresson pensava, naquele decimo de segundo anterior, antes de apertar o botão, e capturar a cena que seria eternizada? Ou Poirot ponderava que, ao virar a esquina, poderia se ferir se descobrisse a verdade?
Tinha voltado ao Brasil para dar um tempo aos seus relacionamentos instáveis: um namorado Italiano, que sabia não ter futuro, mas difícil de romper, e um americano, que estava de passagem, mas não se decidia entre partir e ficar. Não contava ser testemunha ocular do fim do casamento dos seus pais. Afinal, as imagens tomam posição, como afirma George Didi-Huberman? Celular na mão, sussurros bem próximos e a indecisão no ar. Lembrou-se das fotos no armário. Sua mãe costumava guardar essas memórias com tanto carinho, recortava, montava, fazia álbuns que ela ajudava a colar. Queria crescer logo para poder fazer os seus. Mas agora que faz tantas fotos, nunca concretiza o momento, nada está impresso, suas imagens estão guardadas na nuvem, como faz sua mãe, com a caixa dentro no armário. O instante era esse. Tinha que resolver.
Saiu zonza do quarto para beber água e esqueceu de calçar os chinelos. O momento é decisivo, vira o corredor, ou volta, pé ante pé, para seu quarto? Por conta do frio ou da tensão, espirra. Foi um único espirro. Perdeu o momento. Nem Bresson nem Poirrot a perdoariam. Fez se silêncio. A discussão se diluiu no ar. Não escutava nem mais o som da garrafa vazia. Será que ouviu direito? Ou foi um sonho? Será que não viu nada? Esqueceu a sede, o celular, o instante decisivo e foi direto para a cama. Amanhã vai acordar achando que foi só um pesadelo. Ou não?
