Outra sessão de não me amar?

por Américo Paim

O espelho mostra o rosto bonito, a pele negra realçada pelos belos olhos cor de mel. Parece mais nova que seus vinte e cinco anos, apesar de tudo. Você está bem, sorri e tenta se animar, pois é sábado e feriado. Coisas a arrumar em casa e outras pendências. Depois do café da manhã, vai à feira. Ao voltar, coloca flores novas no vaso da janela, guarda o que veio da feira, limpa a casa. Você faz cada coisa a seu tempo, como ensinou sua avó.

Quando está a varrer a pequena varanda, chega Raimunda, sua vizinha fofoqueira da esquerda. Atenta às cascas de banana que a venenosa joga para descobrir quem esteve na sua casa na noite anterior, você se livra dela logo. Você entra, vai à cozinha, coloca muito gelo em um copo alto que enche com água e senta-se na porta da área de serviço. Você relaxa com o vento encanado que tanto gosta. Não dura muito. Na sua cabeça vem logo o Tião. Naquele instante você acha que está segura sobre o que deve fazer, mas logo pode mudar.

Você checa seu celular e não se conecta a nada. Sente um aperto no peito e é angústia. Se abraça como a sentir frio. Não vou chorar de novo, não aguento outra sessão de não me amar, você reflete. Não aprendi nada? você diz em voz alta e se assusta com isso. Vai fazer o almoço. Corta a carne em pequenos bifes, mas vê o sangue escorrendo e para. Não quer aquilo. Você decide por uma massa. Volta a pensar no que é preciso ser feito. É claro que isso vai acabar em coisa ruim e posso não ter a sorte da vez passada, você pondera em silêncio.

Após o almoço, deitada no sofá, você conversa com Zélia pelo telefone, contando sobre o sucesso da receita do macarrão dela, mas desliga logo. Precisa se concentrar em uma solução, mas ficar em casa não está ajudando a achar. Resolve dar uma volta. Quem sabe encontra uma saída, algo que ainda não pensou.

Você coloca um vestido leve, a rasteirinha preferida, os óculos escuros e sai. Passa por seis casas à direita da sua, acena para Dona Ondina do outro lado da rua. A simpática senhora a chama: Teresa! Na volta eu passo aí, você diz. Atravessa a rua e vira à esquerda. Em poucos minutos chega à Praça da Igreja do Rosário. São 16:00h e tem muita gente. Você dá uma volta completa devagar. Senta-se em um banco voltado para a igreja e pensa na ironia. Ter conhecido Valdir ali naquele lugar de oração faz você duvidar da existência de entidades divinas que operem a seu favor.

Você ainda reflete sobre essa lembrança quando uma menina se aproxima. Tem suor no rosto e olhos doces que lembram os seus. Carrega um cachorrinho branco com pequenas manchas pretas. Pede a você que o segure para amarrar o cadarço do sapato. Por instantes você vê Caniço naquele animalzinho. Mesmo brincalhão, lia fácil quando o coração da dona estava triste, você lembra. A pequenina agradece a sorrir e sai carregando seu cãozinho com carinho. Você não segura o choro. Saudade de Caniço. Já faz quase um ano e meio que ele se foi, ou melhor, que ele foi o desfecho do último capítulo da história com Valdir.

Você lembra tudo de novo. O começo romântico com flores e declarações, mensagens de surpresa, visitas por um beijo. Promessas e presentes. Palavras bonitas. Em pouco tempo, porém, a implicância com roupas, companhias, amigos, Caniço; o isolamento, a dedicação exclusiva. Ele se mudando e vivendo na sua casa, às suas custas. A bebida, as agressões, as drogas pesadas, o tráfico, a polícia, as armas. O dia em que você descobriu que o revólver estava com menos balas que a noite anterior. A sorte de só ter uma bala no tambor no dia da última discussão. Não atingiu você por pouco, mas levou Caniço. Você recorda seu desespero, correndo pela rua com o cão nos braços e enxuga o rosto com as costas da mão. Deseja mais uma vez que o desgraçado apodreça na prisão. Retoma a caminhada pela praça, consulta o relógio e decide que é hora de voltar. Passa em Dona Ondina e tomam um café na cozinha dela. São 17:30h. Entra em casa um pouco mais leve, mas ainda sem saber a conduta a adotar.

Após o banho, a noite chegando, você está na varanda pensando e lhe vem um episódio doméstico que chamou atenção na época. Incomodada com a bagunça que Caniço fazia junto à porta da cozinha na hora de comer, você resolveu mudar o local do potinho, colocando-o no pequeno quintal, perto da porta do banheiro, ao lado da área de serviço. No começo não funcionou, ele se manteve à porta da cozinha. Um dia, porém, quando você pegou a comida, observou que ele já a esperava no novo local. Aprendeu. Eu também posso, você conclui. Encontrou sua resposta. Você resolve que não quer estar sozinha quando acontecer. Volta à casa de Dona Ondina e a convida para uma sopa às 20:00h. São 18:30h e ele deve chegar em uma hora.

Acontece que Tião chega antes, às 19:20h. Surpresa e agora preocupada, você tem que improvisar. O cumprimenta com um beijo no rosto. Ele estranha, mas você nem o deixa tentar algo mais, inventa que precisa de ajuda na cozinha e segue para lá rápido. Ele a acompanha. Sem perder tempo, você lhe entrega duas cebolas e uma faca, pedindo-lhe que as corte sobre a pia. Ele acata, não sem um olhar curioso. Você vai logo para trás da mesa, colocando-a entre vocês dois, e começa a cortar tomates. Alguns instantes nessa condição e você percebe que deu a ele uma faca! Nervosa, deixa a sua cair no chão e fica paralisada. Ele olha para trás, vem até você, recolhe a faca, olho no olho, e a coloca dentro da pia. Faz tudo de forma lenta. Você tá esquisita, suando, tudo bem? você acha que há ironia na fala dele. Sim, claro, você diz. Agora são 19:35h e você consulta o relógio na parede a cada instante. Ele não repara. Pronto, acabei. Chega disso né? ele fala encarando, com a faca na mão. Quer que corte algo mais? ele fala, você treme, mas disfarça. Pimentão! você quase grita e corre para a geladeira, abrindo-a e checando a gaveta inferior. Quando se levanta, ele está colado atrás, lhe abraça com firmeza e fala ao seu ouvido: sem essa pressa toda, que tal uma cerveja? Você se desvencilha dizendo que ele está cheirando a cebola e vai sujar sua roupa. Pede que vá lavar as mãos e diz que vai pegar cerveja para vocês. São 19:45h. Ele entra no banheiro. Você corre, abre as portas do pequeno hall e da sala de estar, onde entra, escancara as janelas e deixa as luzes acesas. Vira-se para voltar ao corredor, mas se bate nele à porta. Ele lhe agarra e tenta arrancar beijos mais quentes, alternando entre sua boca e o pescoço, apertando sua bunda com força. Você o afasta como pode. Calma, Tião, só vim abrir a sala. Tá muito calor lá dentro, vamos tomar a cerveja aqui. Vou buscar! você diz e sai logo, sem olhar para trás. Chega na cozinha, abre a cerveja, serve os dois copos, colocando-os sobre a pequena bandeja. O medo lhe domina. Leva tudo para a sala de estar onde ele está sentado. Você coloca as coisas na mesa de centro e antes que ele se levante, sai, dizendo ir buscar queijo. Quando volta, são 19:55h e ele agora está de pé. Qual é, Teresa? O que tá rolando? Quero terminar o namoro, você fala, em impulso de coragem. Eu me enganei, foi só empolgação, você diz. Que sacanagem é essa? começa a falar um pouco mais alto, irritado. Abaixe a voz, os vizinhos podem ouvir! você diz. Você deve estar cansada, é melhor eu voltar outra hora e a gente conversa, ele insiste mais calmo. Você corta com um não definitivo. Ele lhe lança um olhar agressivo e você vai rápido à janela, para ser vista da rua. Ele hesita, mas levanta para ir em sua direção quando a campainha toca. Dona Ondina, já vou abrir! você grita. Ele se assusta, lhe olha com raiva e sai, esbarrando na senhora quando abre a porta da rua. Você segura na mão da vizinha até ver Tião desaparecer na esquina. São 19:58h.

Você entra com Dona Ondina. Cheguei cedo, minha filha? Na hora certa! diz você. A senhora pergunta o que houve e você desconversa mostrando seu vestido novo. Ela comenta que achou lindo. Que bom que a senhora gostou, você diz. Sabe, ontem à noite ele me disse que estava curto demais, que só sairia se trocasse.

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