MEMÓRIA INSUFICIENTE

1.

Vamos começar do começo. Há cerca de três anos eu trabalhei em uma editora independente chamada Trapézio, que ficava em cima de uma loja de roupas na Vila Madalena, onde no porão funcionava uma gráfica própria. Me chamo Alberto Flores, e naquele tempo todos os outros funcionários me chamavam de Al, contrariando a tendência dos amigos mais íntimos de me chamarem simplesmente de Flores. A Trapézio era, como quase todas as editoras do país, um negócio pequeno, com menos de oito funcionários, computando aí o chefe e os dois sujeitos que operavam as máquinas do porão, duas Baby Binder’s SS e uma guilhotina que poderia cortar dedos ou batatas com facilidade. Lá, eu fazia o mesmo que todos: tudo. Para ser mais específico, meu trabalho era de assistente da assistente do chefe. Um estágio, era o que eu tinha. Só porque o dono da editora, um tipo míope e baixinho que morava na ala mais rica do Copan chamado Jorge Salomão, era pai de um cara com quem eu tinha bebido num bar anos antes e que foi uma das poucas pessoas que conheci que estudavam russo para ler Pushkin no original. Minha rotina era chegar às três da tarde, sentar junto a minha chefe, uma mulher jovem de cabelos escuros e lisos e traços árabes chamada Susana Khan, e ficar até às dez da noite fazendo ou coisas inúteis (do tipo transcrever um por um os números de ISBN que Susana ia ditando para uma planilha no Excel) ou coisas chatas (do tipo ir ao correio, à papelaria, ao boteco buscar almoço). Dos outros funcionários eu esqueci os nomes todos. Havia um velho saído dos anos trinta que usava viseira e um terno de veludo cotelê marrom e tocava a área comercial; um careca simpático que não sei bem o que fazia, provavelmente editoração; e um sujeito negro, gentil e de mãos enormes que cuidava da área financeira, vestia-se muito bem e me pagava em dinheiro vivo. Uma das minhas funções principais era atuar como um médium entre o porão e o segundo andar. O departamento administrativo da Trapézio sentia medo e desprezo dos dois caras que trabalhavam no porão, que por sua vez poderiam matar com as próprias mãos toda a tripulação do segundo andar. Eu devia subir e descer as escadas umas quinhentas vezes por dia, passando por dentro da loja de roupas, levando recados e demandas e preocupações de um andar para o outro. O que no segundo andar era tensão, no porão era fanfarronice. Os dois caras que trabalhavam lá não poderiam ser mais diferentes e não poderiam se dar melhor. Um deles era um gigante do Capão, com piercings nos lábios e hip-hop nos ouvidos, que usava boné e roupas pretas e falava basicamente de seus filhos. O outro era um senhor de barba branca e ar professoral que poderia dar resumos impressionantes sobre cada um dos títulos que existiam por ali. Eles estavam sempre rindo ou falando mal de alguém, ou as duas coisas. Toda vez que eu entrava no que eles chamavam a “casa das máquinas” eles me recebiam com uma saudação barulhenta que misturava o prazer de me ver (gostavam de mim, não sei porquê) ao desânimo de saber que eu tinha notícias do patamar superior. Uma coisa divertida era que eles me deixavam ficar com os livros que tivessem algum estrago — não eram muitos, mas vez ou outra havia uma capa rasgada, uma primeira página manchada, etc — contanto que eu não comentasse isso com ninguém. Nessa época eu lia muito e presenteava os amigos com bons títulos, o que os fazia pensar que eu estava de vida ganha trabalhando na Trapézio, mesmo que eu ganhasse menos, mas bem menos que um salário mínimo.

A editora Trapézio trabalhava de maneira geral com títulos de domínio público, os chamados clássicos e clássicos obscuros, reservando pouco do seu catálogo a escritores jovens ou mesmo contemporâneos. Quero falar sobre o processo de lançamento do livro de memórias de um determinado editor e jornalista nascido na Itália e radicado em São Paulo. Foi esquisito quando Susana começou a me pedir diversas tarefas para este lançamento. Era uma das parcerias mais promissoras da editora em muito tempo, e eu não entendi porque confiar tanta coisa em mim, um sujeito magrelo, de cabelos castanhos e desgrenhados, sem muita perspectiva de futuro e que fumava na calçada junto dos brutamontes da gráfica. Corina e eu estávamos juntos há três anos então, eu havia acabado de me mudar da casa dos meus pais, minha autoestima estava melhor do que já esteve em qualquer outra época, mas não chegava a tanto. Porém, eu precisava seguir ordens. Tinha longas conversas com o italiano pelo telefone (acho que ele nunca perguntou meu nome) para depois escrever resenhas do livro no site da editora. Era eu quem escrevia as notinhas para imprensa e as publicações nas redes sociais. Foi o tempo que mais trabalhei na Trapézio, porque eu precisava continuar a comunicação entre o porão e o segundo andar, e quanto mais bonecos saíam mais reclamações Jorge e Susana tinham, e tome esporro na minha orelha e lá ia eu para o porão mais uma vez, quase ser recebido a pontapés. 

Houve uma noite que fiquei até mais tarde envelopando os convites para o lançamento. Precisava escrever remetente e destinatário nos envelopes, informações que eu ia tirando de uma planilha. Nesse dia, descobri o endereço de Lygia Fagundes Telles e Luiz Inácio Lula da Silva. Anotei num papel e guardei no bolso. Tenho a anotação até hoje, mas nunca fiz nada.

Então chegou o dia que o tal editor e jornalista foi conhecer nossas instalações de surpresa. Jorge entrou desesperado na sala, pedindo que nós nos arrumássemos e fizéssemos a Trapézio parecer a Companhia das Letras. Não tinha muito o que ser feito. Existia uma única coisa a ser feita, a única que poderia ter evitado meu encontro com a rua na semana seguinte, e é claro que eu não fiz. Na primeira hora do expediente naquele dia, quando entrei no porão pela primeira vez, o Professor — como o Gigante e eu o chamávamos — pegou o boneco do livro que estávamos trabalhando e falou: Al, isso aqui é uma merda. Eu li o livro ontem de madrugada, e minha vontade era pegar o cinto e me enforcar no chuveiro. Ainda não sei porque o Jorge publica essas porcarias. O Professor era hiperbólico a maior parte do tempo, então nós só demos risada. Acontece que ele me deu o exemplar dele. Na correria do dia, acabei nem abrindo, e quando o italiano finalmente chegou, o livro estava em cima da minha mesa. Susana me pediu para dar algum recado ao pessoal do porão e, uma vez lá, o Professor me disse que era importante que eu não mostrasse aquele livro pra ninguém, porque ele tinha enchido as páginas de palavrões e desenhos obscenos, descascado o enredo da obra, usando palavras bem pouco lisonjeiras. Achei isso engraçado, mas quando voltei para o segundo andar (creio que eu segurava algo, café talvez) logo a graça se perdeu. Perguntei para Susana se ela tinha visto o livro que eu tinha deixado em cima da mesa. A resposta dela, claro: o autor queria dar uma olhada na primeira prova, daí eu peguei a que estava aí. Deixei o café e desci as escadas correndo, quase tropeçando numa arara de roupas, tudo pra ver o italiano entrando no táxi e sumindo pelas ruas da Vila Madalena. Isso foi numa sexta, e na segunda-feira eu já estava procurando outro emprego.

2.

Isso aconteceu no México. Faz uns três anos. Aconteceu num momento que eu estava particularmente sem grana devido alguma complicação doméstica das tantas que nos aborreceram em nossa república na rua Colima. O trabalho de designer era melhor que o de garçonete, é claro, mas bastava um vento um pouco mais forte para o meu carrinho derrapar. Estava cheia de dívidas com o banco, devendo um dinheirão pra minha mãe, no geral almoçando o que os outros moradores preparavam e contando moedas para pagar o aluguel no final do mês.  Não foram poucas as vezes que deitei na cama observando as infiltrações no teto do quarto e só consegui dormir após a agoniante cantiga do meu estômago a roncar. Ao mesmo tempo, devido aos ares artísticos que criamos para nossa velha mansarda e pelo carisma e inquietação dos meus convivas (Carlo, um pintor guatemalteco; Socorro, uma restauradora de livros antigos que nascera no interior do Chile; Durval, um brasileiro que tocava clarinete na Orquestra Sinfônica Mexicana; Dario, um livreiro e escritor mais ou menos lido pela cena local; Marie, uma francesa que não fazia nada mas cozinhava muito bem), nunca antes eu havia me sentido tão conectada com minha arte. Naquela época eu estava muito magra, muito pálida e com olheiras do tamanho das Fossas Marianas. Podia passar os dias com as mesmas roupas que ninguém no trabalho notava, ou todos fingiam não notar.  Por fora eu parecia uma mulher à beira dum colapso, mas por dentro as vontades e percepções ganhavam mais e mais espaço em meu espírito. Lembro que eu andava obcecada com o trabalho e a história de vida da fotógrafa norte-americana Vivian Maier. A caminho do serviço, percorrendo a rua Álvaro Obregón ou à sombra dos ciprestes de Condesa, levava à tiracolo minha Olympus 36 e tentava imitar as fotos de Maier, com seus jogos nos espelhos e olhar atento para os detalhes pequenos e luminosos do convívio cotidiano do espaço urbano. Aos sábados, Carlo e eu costumávamos nos sentar na Plaza Río de Janeiro com uma cerveja na mão e conversar sobre fotografia. Ele não gostava de Maier, sentia nela aquele traço nefelibata que trai todos os norte-americanos contra os latinos. Se for pra falar de fotógrafas norte-americanas, ele dizia, prefiro mil vezes a Susan Meiselas, para quem o detalhe e a imagem não bastam a si mesmas como beleza, e sim como denúncia da miséria e das contradições do mundo ocidental; ela esteve na Nicarágua, em Calais e até com os yanomami, no teu país. Nesse momento eu sempre me perguntava se o Brasil era mesmo o meu país, se eu poderia me sentir pertencente a uma demarcação imaginária, e me calava. Aí Carlo baixava a guarda, me abraçava e dizia ora, Lissa, não fique triste, vamos então estabelecer um meio termo que será Berenice Abbott, que é francesa e para quem o que mais importa é a luz. Eu sorria, o chamava de bobo, e a vida ia se desenrolando meio que por si mesma, sem grandes sobressaltos, nessa mistura entre miséria e ternura. 

Numa tarde quente de sábado, Dario entrou em casa, deixou sua bicicleta no quintal e disse que tinha uma proposta pra me fazer. Fui convidado para tomar as rédeas dum lançamento na El Péndulo, ele disse, é segunda-feira e pensei em te chamar para fazer as fotos, que acha? Agradeci pelo convite com entusiasmo e disse que adoraria, mas eu não tinha uma câmera digital. Dario pensou um pouco, estalou os dedos longos e magros e disse que havia uma Canon EOS na livraria que eu poderia usar sem problemas. Apertamos as mãos: negócio fechado, che!

Passei o domingo aprendendo a usar a câmera e organizando arquivos no meu computador. Investi num segundo cartão de memória para a máquina, pensando em não decepcionar. Quando cheguei à livraria na segunda-feira às sete da noite — tinha ido direto do trabalho —, percebi que eu não fazia ideia de quem era o lançamento, nem do que se tratava. Encontrei Dario arrumando a vitrina e perguntei. Um poeta tonto que está sendo celebrado aqui no DF, um jovem metido a Octavio Paz que saiu na capa dos principais jornais de cultura, um menino mimado, é claro; chama-se Júlio Gonzalez e escreve pior que um computador; elaboro um livro melhor que o dele em cinco minutos e com a mão boa nas costas. Dei risada e saí para explorar. El Péndulo é uma livraria gigante e luminosa com uma bela duma escada espiralada no centro. Peguei uma taça de champanhe com uma das garçonetes e fiquei sacando o movimento. Os convidados começavam a chegar, todos aristocratas de camisa rosa e sorriso branco com a pele da cor de um amendoim torrado. Onde foi que você se meteu, Lissa, lembro de ter pensado, mas logo depois me censurado, ao considerar o furo em meu bolso. Já tinha tirado umas duas dúzias de fotos quando uma mulher gordinha e dentuça (sim, parecida com a Mônica, passados uns sessenta anos), me abordou perguntando se eu era a tal Melissa Zurita, a fotógrafa do evento. Ao ouvir minha resposta, ela fez um gesto com a mão que não compreendi na hora, mas acredito que fazia alusão à classe social elevada dos presentes, e me pediu para que eu fotografasse os famosos. Fiquei perplexa por um segundo e depois brinquei: claro, a senhora sabe onde tem um espelho? Ela não achou graça (parecia agitada) e saiu com passos curtos e rápidos e com a expressão de que desejava que eu tivesse entendido o recado. Acontece que eu não tinha entendido. Eu já estava morando no México há quase um ano então, mas tirando os meus amigos — que em definitivo não eram famosos —, eu não sabia muito sobre a sociedade mexicana. Menos ainda que pessoas aquela mulher considerava famosas. Além disso, fiquei com a sensação amarga de estar num lugar elitista onde a maior característica das pessoas era se acharem melhores que as outras, as pessoas que andam na rua, as servem nos cafés e restaurantes, engraxam seus sapatos, varrem suas casas e lhe entregam o troco. Tudo isso me deu um desânimo terrível e saí pra fumar um cigarro. Na calçada da Conde de Sarzedas, percebi um movimento na esquina: caminhei até lá e vi uma feirinha de rua. Estava cheia de gente, e nas barracas as pessoas vendiam tacos, cerveja, mescal, bugigangas, brinquedos e roupas. Um grupo de crianças passou correndo e rindo com um cachorro gigante. Na mesa dum bar, um grupo de velhos tocava violão e sanfona. Quase sem perceber, comecei a fotografar tudo. As luzinhas penduradas nas árvores e o vento da noite mexicana emprestavam um ar marítimo às cenas, e acredito ter feito algumas imagens belas. Aquele foi sem dúvidas um dos momentos mais significativos da minha estada no país. Pensei em Vivian Maier e me perguntei o que ela teria achado do México se o tivesse conhecido. Teria ficado tão emocionada quanto eu fiquei? Acho que sim. Uma hora depois, o aviso de memória insuficiente apareceu no visor da máquina. Tirei o cartão, enfiei o outro e voltei pra livraria. As luzes pareceram hospitalares. Localizei Dario, entreguei a câmera para ele, dei-lhe um beijo na bochecha e saí caminhando de volta para nossa velha mansarda caindo aos pedaços. 

Deixe um comentário