Lições não aprendidas

por Américo Paim

Foi em 1996. Estava com trinta e dois, três de casado com Manuela e há cinco na Centerserv, empresa especializada em manutenção industrial. Já era engenheiro sênior. Os fatos são conhecidos por vários, mas os detalhes conto agora.

Era uma quarta, 18 de setembro, após a reunião de rotina com o grupo de engenheiros que eu liderava há um ano e meio – não um cargo oficial, mas treinamento (jogasse duro e talvez fosse promovido). Tomava um cafezinho no corredor com vista para a oficina de caldeiraria logo abaixo, quando Lílian, secretária do chefe, me chamou acenando. Fui até lá e entrei logo.

– Senta aí – a expressão dele era de aparte em sessão de tribunal. Vai ser “pá-buf”, mas preste muita atenção porque esse baba é de camisa.

– Pelo visto tá pegando, chefe…

– Pense… Direto ao ponto: há uma vaga de Coordenador e lhe querem lá. Fiquei puto porque apostei em você, venho lhe treinando e me deram um rabo de arraia. Você vai aceitar. Pra dizer não precisa engrossar mais o pescoço. Não é uma estreia no TCA, mas estou certo que dirá no futuro que a primeira vez a gente não esquece.

– Então é abacaxi…

– E pelo lado do espinho, não vou lhe enganar. É boca de zero nove. O líder da área de Máquinas e Serviços Gerais será substituído.

– Mas não conheço disso, você sabe.

– Não é fator crítico – aprenderá rápido. Você tem o perfil desejado: novo, pouco conhecido, sem vícios. O azedo é que vai para o ninho das piores cobras da empresa.

– Como assim?

– É tudo que posso falar. Vá à sala de Ermelino para saber do resto. Parabéns, boa sorte, conte comigo e não me faça passar vergonha – sorriu e apertou minha mão com a segurança e amabilidade de sempre.

Saí de lá feito malhadão, todo dividido. Paulo foi minha referência e trabalhar longe dele seria desafio. Oito anos mais velho, me ensinara como um pai e era um amigo. Líder íntegro e generoso. Na sala do gerente, Dona Selene, a secretária, me autorizou logo a entrar. O chefão era um homem de média altura, cabelos que pintava e penteava para trás, barba rala, rosto rude e voz de trovoada, com fama de durão. Me cumprimentou com a cabeça e entrou no tema.

– Você já teve a prévia. Vamos aos detalhes. De forma franca: o assunto é sigiloso e se abrir a boca, tá na rua – ele viu que eu engoli seco. Você vai para lá porque não confio mais no Lourival. Eu já tava de butuca pra ele há algum tempo, mas preciso de alguém dentro do caldeirão. Como você é jovem, o peito de pombo vai relaxar. Isso vai nos facilitar acabar com essa bagaceira.

– Por que eu?

– Posso confiar em um pupilo de Paulo. Amanhã cedo vou lhe mostrar toda a estratégia para que as coisas aconteçam. Está com medo?

– Um pouco preocupado. Paulo me alertou.

– Sim, tá cheio de filho da puta lá, mas eu posso ser pior quando necessário – essa fala ficaria na minha cabeça por horas, não vou mentir.

A falcatrua era simples de entender. Os fornecedores e prestadores de serviços atuavam como cartel, alternando-se nos contratos, sempre com valores exagerados. Por causa das muitas emergências e clientes bons pagadores, poucos desconfiaram. Parte gorda do dinheiro das notas frias ia em espécie para os bolsos dos mafiosos. Acontece que os patrimônios acumulados de Lourival e dos donos das empresas começaram a chamar atenção. O chefe da contabilidade foi o primeiro a desconfiar do volume de dinheiro movimentado e levou ao diretor, que repassou ao Ermelino.

O plano era arriscado. Lourival permaneceria no setor como consultor, respondendo a mim, e alguns dos outros envolvidos da equipe também. Seriam seis etapas: apresentação, integração com a equipe, domínio dos processos, ajustes na equipe, projeto “isca”, renovação da equipe. Tudo até março de 1997. Na apresentação, Lourival se mostrou como o último pedaço do bolo, no alto de seus quarenta e tantos, com roupas de marca, conversador, firme igual a baba de quiabo. O papo foi mais ou menos assim:

– Grande André Ribeiro, é um prazer lhe conhecer.

– Como vai?

– Ótimo, agora que você vai assumir o barraco! Faz tempo que pedi alguém para meu lugar. Estou pronto para ajudar. Conheço os clientes e fornecedores e isso será útil.

– Lourival, amanhã lhe mostro o plano de transição. Você não estará comigo nos meus contatos iniciais. Concentre-se no trabalho técnico – ele ficou surpreso.

Nas minhas reuniões, os clientes se mostravam aliviados com a mudança. Foi o oposto com os fornecedores, que encheram a bola de Lourival, “o cara”. Missa encomendada. Entre outubro e novembro realizamos o planejado, mas algumas pessoas despedidas eram parentes de Lourival. Aí, aconteceram coisas estranhas.

A empresa sempre recebeu brindes de fim de ano de fornecedores. Agendas, canetas, bebidas etc. Um dia, no início de dezembro, cheguei ao escritório e vi uma caixa sobre minha mesa. Dentro dela um rato morto e um bilhete: “É assim que trataremos ratos como você”. Relatei o evento ao chefe e descartei o mimo.

Na mesma semana, recebi em casa uma garrafa de uísque com um convite para a festa de fim de ano do fornecedor com mais dinheiro sujo no bolo. Nem respondi e joguei todo o conteúdo da garrafa no ralo da pia. Mais uns dias e vieram os telefonemas com ameaças de morte. Não recuei. Passei a ter um motorista e usar horários alternativos no trabalho. Meu casamento abalou por causa do estresse e minha esposa foi para a casa de familiares no interior. Como diz o peão, inchou.

No meio do mês, aproveitei o levantamento de preços de mercado que encomendara em segredo e lançamos a isca: uma tomada de preços fictícia para compra de um equipamento caro. Nomeei Lourival responsável por todo o processo:

– Cuide para que tenhamos o melhor preço. Preciso de orçamento de referência.

– Ora, André, já temos esses números.

– Ótimo. Santa eficiência. Me entregue amanhã, assim que o galo cantar.

– OK, claro que sim – disse com o nariz empinado para o céu.

Passei os dias destruindo os orçamentos que ele me apresentava, expondo-o diante de seus cupinchas. Isso tirou sua tranquilidade e ele deu o passo errado que esperávamos. Uma tarde, a portaria principal me anunciou o José Anacleto, dono daquela empresa do convite de fim de ano. Queria me falar e eu já o esperava. Ótima oportunidade para ver como operavam às vésperas do resultado da tomada de preços. Mas reconheço que subestimei o cabra.

– Desculpe não avisar. Estava por perto e vim lhe falar sobre a tomada de preço. Tá faltando informação. Assim o preço sobe demais.

– Discordo. Formalize suas dúvidas e responderemos a todas as empresas.

– Antes a gente conversava e tudo se ajeitava – sorriu sonso.

– As coisas mudam.

– Claro, mas podemos nos entender – enquanto falava, tirou de sua maleta um pacote, que colocou sobre a mesa, empurrando-o na minha direção.

– Do que se trata? – falei olho no olho.

– Ora, doutor, o senhor sabe. Vamos facilitar. Se não for suficiente, ajustamos o valor.

– Segurança? O Sr. Anacleto está de saída. Mandem alguém para acompanhá-lo.

– O doutor não me entendeu…

– Mas você me entendeu – falei alto o suficiente para o gravador na gaveta da minha mesa e doido de vontade de olhar para a câmera da qual ele não desconfiou.

No dia seguinte, na abertura dos envelopes, desqualifiquei a empresa e saí chutando lata. O Polo todo soube. Os fornecedores apresentaram números abusivos e informações forjadas em suas planilhas de custos. O preço “vencedor” era quase duas vezes e meia o menor que achei no mercado. Cancelamos o processo e despedi o resto da quadrilha, Lourival incluído. Pedi que fosse justa causa, mas o Jurídico e o RH desaconselharam.

Fiquei mais um tempo no setor, até ser transferido para uma nova Coordenação. Ermelino ficou grato pelos nossos serviços e eu fiquei na empresa mais dez anos, sendo gerente nos últimos cinco. Lembro que me chamaram de Eliot Ness, do filme “Os intocáveis” e rio, mas na época…

O incrível foi agora, em 2010, Lourival e Anacleto, sócios em uma nova empresa, me convidarem para ser gerente de suas operações no Nordeste. Declinei, lógico, e soube que a empresa foi expulsa de um contrato por suspeita de corrupção. Lições não aprendidas.

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