
O que dizer de Bong Joon-ho que você não ficou sabendo nos últimos dias? A essa altura, o mais premiado diretor da história do cinema – nem Fellini nem Hitchcock nem Kurosawa nem Bergman nem Coppola ganharam todos os principais prêmios do mundo no mesmo ano – já deve ser seu amigo de infância. Então vamos nos concentrar na sua obra. Desde o primeiro filme, Memories of Murder (2003), o sul-coreano estrutura todas as suas narrativas sobre dois pilares.
Um é a luta de classes, algo cabal para quem foi um jovem militante socialista (em um país ultracapitalista), filho de professor e dona de casa, e que teve de dar aulas muito cedo para ganhar a vida (daí nasceu o personagem do tutor em Parasita).
Seu outro pilar é, embora situe o registro e o conflito social como centro em suas histórias, jamais pintar os personagens de maneira estereotipada, arquetípica ou chapada. Apesar do berço social, as características psicológicas e as motivações particulares conduzem as ações. Todos os personagens são simultaneamente escrotos e fascinantes.
Por isso não podemos falar que Parasita é sobre a guerra de pobres contra ricos, como muitos vêm pintando o filme. Também não dá pra situar o filme como comédia – a transição entre gêneros é uma terceira marca de Bong (em coreano, o sobrenome vem antes do nome), do noir ao terror, da ficção científica à comédia de costumes.
Outros temas seus são típicos do cinema sul-coreano: a vingança, o ressentimento e a traição, que refletem a identidade cindida e a vizinhança amedrontada com a Coreia do Norte, irmã inimiga (pra sacar isso sugiro ver o ciclo de cinema sul-coreano em cartaz no CCSP), com a imperialista China e com o traiçoeiro Japão.
As contradições do pós-capitalismo aparecem em todos os filmes de Bong. A grande sacada foi desde o começo de sua obra enfatizar um movimento típico do nosso contrato social: o parasitismo. As relações humanas são mediadas em termos de hospedeiro-parasita, sendo que às vezes os papéis se invertem.
O parasitismo é uma metáfora dos conflitos sociais, tanto em Host quanto em Snowpiercer (ambos no Netflix) e Mother, seus filmes anteriores. Em Memories of Murder, o policial bonito e inteligente que vem de Seul para investigar os crimes de um serial killer em uma cidadezinha do interior acaba ficando tão tosco e violento quanto os policiais caipiras.
Para Bong, o pós-capitalismo transforma qualquer sentimento em mera motivação para manter vivo um organismo através do consumo de outro organismo, não importa a que preço. Aqui, Fabio Palacio descreve filosoficamente este movimento.
ESTRUTURA
O que nos interessa, no entanto, é o mecanismo da máquina narrativa. O parasitismo é a interação entre duas espécies, na qual uma delas, o parasita, se beneficia da outra, o hospedeiro, causando-lhe danos de maior ou menor importância, mas raramente a morte. A morte não interessa ao pós-capitalismo: é preciso sugar o indivíduo até ele quase morrer, sem deixar nunca de ser produtivo. Você não pode matar o que te paga, certo?
Analisando já a primeira sequência de Parasita, já notamos como funciona o esquema parasitário: os moradores de uma casa paupérrima parasitam redes de WiFi grátis. Parasitam-se uns aos outros. Parasitam um pequeno restaurante. Parasitam um amigo. E depois passam a parasitar uma outra família, mais rica – que, por sua vez, irá simultaneamente parasitá-los.
Como diz Palacio, numa sociedade dilacerada pelas desigualdades, o infortúnio não afeta apenas os desvalidos. Também os ricos são vítimas da deterioração do tecido social, por mais que se escondam atrás de muros, grades ou mundos de faz-de-conta. Em uma sociedade parasitária, ninguém está a salvo do parasitismo.
PARASITA
história por Bong Joon Ho
roteiro de Bong Joon Ho e Han Jin Won
[tradução RB]
- SEQUÊNCIA DE TÍTULOS SOBRE PRETO
Acompanhado por música sombria, mas curiosamente otimista.
No final dos créditos, o TÍTULO PRINCIPAL, em caligrafia estranha, preenche a tela –
“PARASITA”
A MÚSICA DIMINUI.
- INT. SEMI-PORÃO – DIA
[Um apartamento úmido num porão. KI-WOO, 24, corre de canto em canto procurando desesperadamente por um sinal Wi-Fi. Várias redes são exibidas, mas estão todas protegidas por senha.]
KI-WOO
NÃO. Essa também não é “iptime” [uma rede de wifi livre]. Ki-Jung! O vizinho no andar de cima finalmente trancou seu Wi-Fi.
QUARTO ADJACENTE –
[Deitada no chão da sala estreita, KI-JUNG, 23 anos, mal move os lábios – “Foda-se”.]
KI-JUNG
Tenta “123456789”. Depois tenta ao contrário.
KI-WOO
Sem sorte…
OUTRA SALA
[Também deitada no chão, CHUNG-SOOK, 49, mãe, zomba de sua miséria coletiva.]
CHUNG-SOOK
Ohhh, o que eu devo fazer se alguém me liga? E se for um trabalho? Ei, Ki-Tek!
[Ela chuta KI-TEK, 49 anos, que está dormindo aos seus pés.]
CHUNG-SOOK
Eu sei que você está acordado, imbecil. Alguma ideia?
KI-TEK
[Limpando a baba]
O quê?
CHUNG-SOOK
Nossos telefones foram suspensos por semanas, e agora os vizinhos fecharam suas redes. Qual é o seu plano? [Chuta ele de novo.] Que vai fazer a respeito? Qual é o plano, gênio? [Ela trata Ki-Tek como um merda, mas isso não o incomoda. Ele levanta-se com o sorriso mais sereno e iluminado, depois se aproxima da…]
COZINHA/SALA DE ESTAR
[…Onde pega um saco de pão branco da triste e vazia geladeira. O pão está quase acabando também. Apenas as sobras permanecem. Ki-Tek pega um pedaço e mexe nas comidas mofadas. Mastiga o pão enquanto assiste à dança de Wi-Fi do filho.]
KI-TEK
Filho, para procurar Wi-Fi… [Ele levanta a mão bem alto.] É preciso alcançar os céus! Para o alto!
KI-WOO
Sim, pai. [Ki-Woo levanta o telefone alto enquanto se dirige para o…]
BANHEIRO
[…O banheiro é longo e estreito e tem um “altar” elevado no canto. O posicionamento esquisito é exigido pela posição mais baixa do semi-porão em relação à fossa séptica. Ki-Woo entra e sobe no assento do vaso sanitário. Ele continua a pescar um sinal quando…]
KI-WOO
BOOYAH!
KI-JUNG
Você pegou? [Ki-Jung entra e caminha com o telefone erguido.]
KI-WOO
Sacou? “Coffeenara_2G”. Acho que é uma nova cafeteria. Deve estar perto.
KI-JUNG
Eu não estou pegando, merda.
KI-WOO
Chega mais. [Ki-Jung sobe no altar e aperta ao lado de Ki-Woo. Os irmãos parecem ridículos. Suas cabeças tocam o teto. Estão juntinhos em cima do assento do vaso sanitário. Chung-Sook aparece.]
CHUNG-SOOK
Nenhuma mensagem da Pizza Time? Mais duas mil caixas e já é dia de pagamento.
- INT. SEMI-PORÃO- MAIS TARDE
[A família senta-se entre pilhas de CAIXAS DE PIZZA NÃO-MONTADAS e as dobra em silêncio. O som do papelão sendo dobrado é a única coisa que soa enquanto o logotipo barato do Pizza Time entra e sai de primeiro plano. Eles ouvem um caminhão fazendo barulho mais perto. Pela janela, percebem um CAMINHÃO DE DEDETIZAÇÃO DE RUA vomitando gás à medida que passa. A névoa chega mais perto da janela.]
KI-JUNG
[para Ki-Woo]
Fecha a janela.
KI-TEK
Deixa. Dedetização livre! Vamos ficar livre das malditas baratas.
[Ki-Woo, que estava prestes a fechar a janela, senta-se novamente. O FOG envolve rapidamente a família enquanto eles continuam a se dobrar. É uma cena bastante comovente. Uma família enfrenta a fumaça com lágrimas deslizando pela cara, só para ganhar a vida.]
CHUNG-SOOK
[suspiros]
Merda!
KI-JUNG
[tosse]
Eu disse para você fechar a janela!
CHUNG-SOOK
Ah, meu cu.
[Ki-Tek continua dobrando as caixas apesar do rosto vermelho e esbugalhado. Ele segura a tosse desesperadamente. Ki-Woo vai ao banheiro e volta momentos depois com seu telefone. Ele mostra à família um GIF que ele baixou.]
KI-WOO
Olha! Se todos nós dobrarmos como essa menina, podemos até ser pagos hoje.
[O GIF mostra “A pasta de caixas de pizza mais rápida do mundo”, uma MENINA BRANCA com habilidades deslumbrantes para dobrar caixas. Ela é muito rápida. A família assiste com admiração. Inspirados pelo clipe, começam a dobrar com vigor renovado. Ki-Tek também ganha velocidade, mas não tem a destreza da menina. Vai ficando cada vez mais desleixado.]
- SEMI-PORÃO – ENTRADA – TARDE DA NOITE
[Pela porta entreaberta, vemos a DONA DA PIZZARIA do lado de fora da entrada. Tem uma aparência peculiar: na camiseta, o logo PIZZA TIME.]
DONA DA PIZZARIA
Veja isso, por exemplo. Esta merda de trabalho dobrada aqui.
[O proprietário mostra a Chung-Sook um canto danificado.]
DONA DA PIZZARIA
Um em cada quatro assim. Um quarto das caixas não podem ser usadas.
KI-TEK
Um em cada quatro? [A família olha para Ki-Tek. Ele apenas sorri. Inocente como sempre.]
CHUNG-SOOK
[suspiros]
Ainda assim, você não pode cortar dez por cento do meu salário. Isso é demais.
MAIS TARDE…
[Ki-Woo ajuda um HOMEM a carregar caixas em uma van. Ki-Tek olha pela janela do apartamento, assistindo Chung-Sook brigar com o dono da pizzaria.]
DONA DA PIZZARIA
Eu deveria pagar ainda menos, considerando o número de caixas danificadas.
CHUNG-SOOK
Mas a gente mal tinha começado a dobrar…
DONA DA PIZZARIA
Veja. Não é tão simples assim. Cada caixa arruinada mancha exponencialmente a imagem da nossa marca.
CHUNG-SOOK
A tua “marca”? Você só tem duas lojas em Seul. Foda-se…
DONA DA PIZZARIA
O que você disse?
[Ki-Woo entra rapidamente, dissimilando a situação com um sorriso.]
KI-WOO
É aquele garoto, não é?
DONA DA PIZZARIA
Do que você está falando?
KI-WOO
Aquele garoto que trabalha meio período na pizzaria. Ele te deu um perdido, não foi? Já faz um tempão. Vocês tem um pedido enorme do grupo Igreja do Amor em Cristo. É por isso que você e seu marido estão ralando até o cu fazer bico.
DONA DA PIZZARIA
Como você sabe disso? Quem te contou?
KI-WOO
Aquele garoto é meu amigo.
KI-JUNG
Totalmente instável. A reputação não é lá muito estelar.
KI-WOO
Entendo que você fique chateado. Dez por cento? Tudo bem, nós aceitamos. Está completamente dentro da sua autoridade. Mas…
DONA DA PIZZARIA
Mas o quê?
KI-WOO
Você consideraria contratar um novo funcionário?
KI-JUNG
Demite esse perdedor que te sacaneou.
[A DONA apenas olha para os irmãos sorridentes. Quem diabos são essas pessoas?]
KI-WOO
Posso chegar para a entrevista amanhã. O que seria um bom horário para você?
DONA DA PIZZARIA
Pera. Seguraí. Preciso pensar nisso…
[A DONA sente uma armadilha e tenta escapar. Pega algumas notas de sua carteira e começa a contar uma por uma. A família o observa. Já faz um bom tempo desde que eles viram dinheiro.]
- INT. SEMI-PORÃO- COMEÇO DA NOITE
[O ‘quarto principal’ fica ao lado da entrada. Há uma parede decorada com fotos de um jovem Chung-Sook competindo em um grande estádio, num campeonato, como uma atleta estudante. Uma ótima jogadora. Pode-se ver seu tórax apertado num uniforme. Não há imagens de Ki-Tek. Começo da noite. Escureceu. Os quatro membros da família estão reunidos em torno de uma mesa cheia de vários alimentos comprados em restaurantes.]
KI-TEK
Que ocasião especial. Os quatro de nós reunidos aqui para comemorar a reativação parcial de nossos celulares, bem como a próxima entrevista de emprego do nosso filho com uma grande franquia nacional. [Ki-Tek tenta fazer um discurso sincero como um patriarca da TV mas carece severamente da gravidade. Chung-Sook e Ki-Jung já estão bebendo suas cervejas.]
KI-WOO
Felicidades!
KI-TEK
Para a família! [Olha para a janela] Aquele filho da puta. Nem é noite ainda!
[A família se vira para ver. Um bêbado balança em direção à janela do semiporão. Seus rostos se enchem lentamente de pavor.]
CHUNG-SOOK
Quantas vezes eu te disse? Nós precisamos colocar uma placa escrito “Não mije aqui”.
KI-TEK
Isso fará com que eles queiram mijar mais ainda. É psicologia.
KI-JUNG
[para Ki-Woo]
Vai gritar com ele ou algo assim!
KI-WOO
Não é o momento certo… [O bêbado não abriu as calças, ainda paira por um canto escuro.]
KI-WOO
[Hesita]
Preciso pegá-lo em flagrante.
CHUNG-SOOK
Isso não é óbvio? É só mandar ele embora!
KI-JUNG
[Para ela mesma]
Eu odeio este lugar.
[Ki-Woo se levanta, ainda inseguro, quando…]
VOZ
Ei, senhor!
[Uma VOZ vem de longe. Atrás do homem bêbado, vemos uma jovem bonito e bem vestido descendo de uma scooter chique. É MIN-HYUK, 24 anos. Ele caminha com uma GRANDE CAIXA em sua mãos.]
KI-JUNG
Aquele é o Min-Hyuk?
CHUNG-SOOK
O próprio.
[Ki-Woo fica surpreso ao ver Min-Hyuk, que continua a gritar com o mijão.]
MIN-HYUK
O que você pensa que está fazendo? Você acha que isso é um banheiro público?
BÊBADO
Eu…
MIN-HYUK
O que você está olhando?
[Surpreendido pela presença de Min-Hyuk, o BÊBADO foge rapidamente. Ki-Tek dá um tapinha no ombro de Ki-Woo.]
KI-TEK
Seu amigo é corajoso.
CHUNG-SOOK
É aquele brilho de estudante universitário. Olha essa confiança.
KI-JUNG
Que Ki-Woo obviamente não tem.
[Magoado, Ki-Jung admira Min-Hyuk, que caminha até o apartamento. Ele entra.]
MIN-HYUK
Como estão, senhor e senhora Kim?
KI-TEK
Min-Hyuk! Bom te ver, filho!
KI-WOO
Que surpresa é essa?
MIN-HYUK
Te mandei uma mensagem.
[para Ki-Jung]
Ei, Ki-Jung.
[Ki-Jung sorri timidamente enquanto ela assente. Ki-Woo pesquisa suas mensagens de texto.]
KI-WOO
Poderíamos ter nos encontrado em outro lugar. Você não precisava vir até aqui.
MIN-HYUK
Te trouxe isso.
[Min-Hyuk mostra uma caixa para Ki-Woo.]
MIN-HYUK
É pesado, então eu tive que trazê-lo na minha scooter…
KI-JUNG
Que é isso?
[Ki-Jung levanta a aba para ver uma pedra incomum em um suporte de madeira.]
MIN-HYUK
[para Ki-Tek]
Quando eu disse ao meu avô que estava indo ver Ki-Woo, me deu…
KI-TEK
Uau.
[Ki-Tek pega a grande pedra.]
KI-TEK
Hum, uma suiseki [uma pedra ornamental]. É da espécie abstrata?
MIN-HYUK
Você conhece essas pedras, senhor Kim. Vovô está colecionando suiseki desde que estava na universidade. Nossa casa está literalmente lotada dessas coisas – a sala de estar, o escritório, o porão… Esta vai te trazer sorte. E dinheiro.
KI-WOO
Que perfeito para nós. Simbólico!
KI-TEK
Sim, que sorte. Por favor, mande pra ele nossos sinceros cumprimentos.
CHUNG-SOOK
[Para ela mesma]
Ele deveria ter trazido comida…
[Ki-Jung apunhala Chung-Sook com o dedo. Felizmente Min-Hyuk não ouviu. Enquanto isso, um radiante Ki-Tek continua a contar curiosidades inúteis sobre suisek.]
[Para ler o roteiro todo, clique aqui.]
PROPOSTA
Bem, é mais ou menos isso o que você vai fazer. Você vai descrever o cotidiano de uma família que luta pra trazer dinheiro pra casa e comer qualquer gororoba. Sua família vive em conflito permanente por conta da escassez.
[DICA: Não existe boa ficção sem ESCASSEZ.]
Explore descrições objetivas de seu cotidiano. Tudo o que seus personagens falam se relaciona a trabalho e comida, temas centrais. Vá demonstrando sutilmente sua psicologia enquanto apresenta-os em plena ação – mas não exagere. Queremos vê-los em ação, e não pensando nem sentindo nada. Roubemos essa lição do cinema: o corpo é a psicologia.
Importante: o trabalho que fazem é absolutamente idiota. Não tem relevância alguma, é algo mecânico que serve a outras pessoas. Mas que trabalho? Ora, pense em trabalhos que VOCÊ fez. Use sua própria experiência.
A ação deve se passar durante um ou dois dias. Importante é manter um estado de tensão e de confinamento entre os personagens. A sua família pode ter qualquer formato: o clássico, com dois pais, duas mães, quatro irmãos, avós e netos etc.
Estrutura: conte através de cenas e diálogos. Não conte; descreva. NÃO USE substantivos abstratos nem advérbios. Economize nos adjetivos. Você pode fraturar seu conto em pequenas cenas curtas. Não se preocupe em criar um final; pense em uma estrutura aberta, em que cada cena espelha o conflito entre os personagens.
Em até 7 mil toques.
