BICICLETAS DESTROÇADAS

1.

Sentado num caixote de madeira no centro da sala, ele observa a infiltração que começa na parede, se estende pelo teto e verte-se numa goteira de água escura. O ruído compassado das gotas na bacia de plástico são só o que dizem que o tempo ainda passa. Adivinha a presença de sua mãe no cômodo contíguo, arrastando malas para fora do armário. A janela para qual ele está virado dá para o lado norte de Avellaneda, onde se vê ruas de paralelepípedos, bicicletas destroçadas e restos de lixo flutuando na chuva como fenos num velho filme de bang-bang. O dia é escuro, e sua mãe assobia uma melodia familiar. Quando ele fecha os olhos, surgem petúnias atrás das suas pálpebras, todas varadas por um sol intenso e pelo vento fresco em um lugar que ele nunca esteve. Gatos entram pelos buracos da calha, saltam e aterrizam na poltrona de couro sintético, criando nuvens de ácaros. Todos os felinos estão molhados e têm as orelhas comidas por vermes. Mesmo assim ele os chama e os acaricia, como se fossem bichinhos de estimação. Atrás da janela, no fundo da paisagem, quando a chuva arrefece, ele vê o pai vindo pela rua acompanhado de um homem. Os dois são magros e altos, como ele um dia será. Ambos são inquietos como ele um dia será. Daí para ouvir o agudo da porta contra o assoalho e as solas de borracha das galochas na cerâmica da casa é um segundo. Os dois homens vão direto para o quarto onde está a mãe dele. O homem que veio com seu pai se dirige a ela como Senhora Flores. Então ele fecha os olhos e petúnias vermelhas crescem enlouquecidas em direção ao sol.

2.

— Como foi? — Ela pergunta, forçando o zíper emperrado de uma mala de roupas.

Marco abre o sobretudo, mete a mão no bolso interno e taca um passaporte novinho em folha em cima da cama. Ela agarra o documento, abre-o e vê sua 3×4. Na última folha, há grampeadas duas passagens de avião para a noite seguinte, nos nomes de Consuelo e Alberto Flores. Cons — como carinhosamente todos a chamam — larga o passaporte em cima da mala e olha para Marco.

— Mas e ele? — Diz apontando para o marido, que agora está encostado no armário com os ombros encolhidos, um cigarro entre os dedos à altura dos lábios e olhos perdidos no padrão do tapete. 

Marco passa a mão na nuca e se vira de costas. É procurando os cigarros nos bolsos da calça que ele começa a dizer, bem devagar:

— Cons, a situação não está fácil lá fora. Quase quebraram nossos braços na saída da embaixada. Não posso ficar indo o tempo todo para lá, os federais já estão me reconhecendo. Daí pra chegar no nosso homem, é um passo. Se rastrearem meu contato lá dentro, aí acabou pra mim, pra ele, pra você, e Deus me perdoe, até para o próprio Alberto.

— Eu não vou se Roberto não vier junto. Palavra final.

Marco se vira e põe a mão sobre seu ombro.

— Cons, amiga, amada amiga, ele vai chegar. Você só precisa me dar um pouco mais de tempo. Com você no brasil, na casa da conhecida de sua mãe, as coisas vão ficar melhores por aqui. Eu prometo.

Ela estoura:

— Você quer que eu acredite nisso? Você nem sabe do que está falando! Como pode prometer uma coisa dessas? 

Marco dá dois passos até a janela e encosta a testa no vidro. A chuva sob a qual ele andava há menos de meia hora ainda não dá sinais de trégua. Relâmpagos vermelhos racham o céu em várias direções. 

Roberto apaga o cigarro numa garrafa de vinho que há em cima da cômoda, senta-se na cama e aperta a mão esquerda da esposa. Ela tenta evitar olhá-lo (como se fosse menos doloroso), mas acaba cedendo.

— Cons, não seja má com Marcos. Ele está fazendo tanto por nós nos deixando ficar aqui. Você sabe o risco que ele está correndo com isso. Mais cedo, na embaixada, você deveria ter visto. Parecíamos dois caubóis açoitados pelos apaches. Se você se preocupa comigo, pegue essas passagens e embarque no avião amanhã com nosso pequeno Al. Encontre a amiga da sua mãe. Instale-se. Procure trabalho. Eu vou chegar, se tudo der certo, junto com a primavera. Não é, Marco, meu velho? 

Marco dá um suspiro demorado.

— Você já está no caminho, Roberto. Você já está chegando. 

Quando Alberto aparece na porta os três saltam, como se fosse um general que tivesse dado o ar da graça naquela tarde chuvosa. Depois do susto, que dura bem pouco, Consuelo se ajoelha e abraça a cabeça do filho contra o peito. Roberto e Marco estão perplexos. 

— Acho que o céu está quebrando. — Diz a criança.

3.

Lissa serve os dois copos de mais cerveja. O bar vazio e a mesa localizada bem debaixo dum poste de luz faz parecer que eles estão num palco. Já pensaram em fazer uma peça juntos, e esse instante pode ser um bom começo.   

— E como você sequer se lembra de tudo isso? — Ela diz, indecisa entre segurar a mão dele ou acender um camel. Já que ele não parece nem um pouco perturbado ao invocar essas memórias, tratando as imagens de sua própria vida como se fossem peixes num aquário, nadando de um lado para o outro de um acaso controlado, se referindo àquela tarde em um tom entre o lírico e o jocoso (que pode muito bem ser uma fuga, ela sabe), abdica de qualquer demonstração de afeto e pede uma caixinha de fósforos para o garçom.

— É o tipo de coisa que quando acontece nós sabemos que vamos nos lembrar. Em todas aquelas imagens, minha mãe desesperada, coitada, Marco, o gentil, se dobrando à força daquele casal de amigos, e meu pai tentando controlar a situação, enquanto eu os via, já dava pra sentir o cheiro forte de passado. Era uma memória antes mesmo de acontecer. Tanto que o resto, digamos a viagem de avião, o caminho do aeroporto até a mansarda onde ficamos hospedados, disso eu não lembro, porque foram coisas que aconteceram num compasso perfeito com o tempo que as abrigava. Mas aquela cena, com goteira, gatos, bicicletas destroçadas, meus pais e um grande amigo deles, ocorria fora do tempo.

— Conheço esse sentimento. Alguma coisa como uma panela de tomates e frio nas mãos. Você não sabe se está vivendo ou se lembrando. Às vezes entro num lugar e tenho a impressão de já ter estado ali antes, mas isso bem que pode ser eu mesma no futuro me lembrando desse exato momento. 

Alberto cruza as pernas e se vira em direção à Rebouças. A cerveja em seu copo e o ritmo dos carros estão em perfeita sintonia. 

— Nós só acessamos a memória a partir das ferramentas do presente. Conseguimos no máximo uma imagem, um detalhe melancólico e estúpido. 

— E seu pai? Chegou com a primavera?

— Antes disso, até. Mas só muitos anos depois eu compreendi que ele e minha mãe tinham se separado em algum ponto dos caminhos paralelos que cruzaram. Em todo caso ele sempre aparecia na casa que vivíamos. Trazia mantimentos que, sinceramente, não faço ideia de onde arrumava. Espaguete enrolado em papel manilhinha, manteiga, castanhas, verduras, frutas e vez ou outra uma garrafa de vinho ou conhaque. Dificilmente ele atravessava a porta. Eu o via do banco da cozinha, ele acenava com um sorriso, deixava a sacola de feira e ia embora em sua bicicleta. 

— Você nunca perguntou onde ele arrumava essas coisas? Nunca teve curiosidade?

Alberto pensa por um segundo. Sorri.

— Curiosidade? Não, nunca. 

4.

Marco está sentado num banco de madeira na Plaza del Congreso. Ainda é dia. Roberto já deve estar no avião, calcula, entre aliviado e temeroso. A iminência da noite enche o ar de umidade e ele caça cigarros no bolso do sobretudo. Acende um — não sem certa dificuldade — e fica pensando no futuro. Precisa deixar a casa o quanto antes, mas não tem um puto para alugar sequer um quarto no motel mais barato. Está com o laço em volta do pescoço, e agora envolvido em falsificação ideológica. A catástrofe que se aproxima parece tão inevitável que ele até solta uma risada, mas logo começa a tossir. É, Marco, ele pensa, as coisas mudam. Amigos partem, repúblicas caem, os cigarros acabam, os amores se desmancham, a saúde se deteriora, o poder se corrompe, os cabelos ficam brancos, os filhos crescem, as pilhas se esgotam, tudo isso diante dos seus olhos, numa tarde gelada no banco da praça. Plaza del Congreso, dizem que foi aqui que tudo começou. Mas tudo o quê? Chamam esse lugar de marco zero, serei eu o Marco final? Qual a última carta desse baralho? Se começa em algum lugar, em algum lugar precisa terminar. Dentro de nós, talvez. Nos nossos quartinhos, nas nossas casas cheias de infiltrações e goteiras, nas nossas meias furadas e nos sapatos de sola rachada. 

Ele estica a coluna quando vê dois homens dobrarem a esquina e seguirem em passos firmes na sua direção. É, é aqui que acaba, ele pensa. Antes dos homens o abordarem, fecha os olhos e vê o filho de Roberto e Consuelo, o pequeno Alberto Flores. Rememora seu olhar a um só tempo assustado e sereno. Seu último desejo é que ele cresça feliz e saudável. 

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